quarta-feira, 21 de junho de 2017

fluxo universal (Trombando em jeitos)

ontem o dia
começou pelo fim
assim produzindo
dor e saudade
a vida virando
morte e aposta
na eternidade

ontem o dia
terminou pelo início
esse negócio
de celebrar a vida
é um vício
a morte virando
nascimento
palmas e festa
por mais uma
volta no tempo

do fim ao começo
ao fim ao começo
ao fim

ontem tudo isso
passou por mim
um dia do início
ao fim
até o dia em que
não irei

já perdi a conta
de quantos caixões ergui
e de quantos parabéns cantei.

Alex Moura

domingo, 4 de junho de 2017

Concretude (Ser das cidades)

Difícil enxergar
até onde a vista
alcança,
escadas empurram
vidas pro alto,
e a vista esbarra
numa outra vida,
que em outra,
que em outra...

E a vida passa a ser
um embolado de vidas
esbarradas,
lá no alto, observadas,
telhado, teto, cobertura,
que dedura
mais vidas empilhadas
nas paredes de prédios
cavernas,
tampando até onde a vista
alcança.

Horizonte
é coisa que se ouviu falar,
ficava lá do outro lado
do mar,
nunca mais vi,
só enxergo até onde a vista
alcança,
barrada num muro
entre lá e aqui.

Alex Moura
meu norte é o sul (Trombando em jeitos)

logo logo
mais uma noite se vai
assim como veio
equador
greenwich
será que essas linhas
cortam mesmo no meio?

chegará o dia em que
cansado de tanto mistério
algum deus por aí
fará primavera
nos dois hemisférios.

Alex Moura
Divagar

manhãs de domingo
têm ritmo de quase não,

        deve ser quando o mundo
        só gira por conta

                        daquela história de que
                         todo corpo em movimento...

Alex Moura
outonos (Trombando em jeitos)

na ironia
da falta de tempo
um hiato
momento estático
no meio das fibras
do calendário elástico

sido estado ido
submetendo o indo
estando sendo

no exato momento
em que só espero
sem nada acontecendo
assisto parado
ao gerúndio morrendo
junto à tv suja
e um pobre futebol

o neón brega piscando
na minha quadragésima
segunda volta no sol.

Alex Moura