quarta-feira, 29 de junho de 2016

Ao vivo ou não (Publicado - Ser das cidades)

Vulneráveis a todo instante,
câmeras de segurança
não seguram nada,
transmitem para meio mundo
aquilo que não puderam segurar.

Epifania popular achar
que frames de segundos
garantem proteção.
Não!
Câmeras que miram rua
miram vítimas: seja a que morre,
seja a que mata.

Crime, ameaça, insegurança
nascem nos palácios reservados,
as câmeras miram os seus fins
de costas para os seus guardados.

Alex Moura

domingo, 26 de junho de 2016

o velho e o novo (Trombando em jeitos)

às vezes me pego
falando pausadamente
com meu filho
para dar tom de seriedade
tipo coisa da idade

quando fiquei tão sério?

mistério que se perde
no meio da esteira
das obrigações

na besteira
das minhas decisões
meu filho vendo na poça
um oceano
faz do chinelo caravela
almirante lúdico
me manda içar a vela
enquanto toma
o controle do leme

minha alma
afogada na realidade
treme.

Alex Moura

sábado, 25 de junho de 2016

Quão um ser humano afável
em tão pueril idade
poderia com o tempo
enrabugecer?

De onde a máxima
que traz o tormento
no colo de um velho rabugento
é reprodução de realidade?

Não é de hoje, por exemplo,
que maturo
minha monstruosa idade.

Alex Moura

domingo, 19 de junho de 2016

ensurdecedor silêncio do transporte coletivo (trombando em jeitos)

o impronunciado
aquilo que povoa
o pensamento. dentro.
consciência é permanente
nunca para
reflexão coletiva
não-conceito,
mas de um monte
de gente viva
dentro de um coletivo
emanando um monte
de pensamento vivo

congestionando
o metafísico
na simbiose entre tudo
que não se ouve:
de obrigação a lembrança
de frustração a saudade

de volta à realidade
ouvindo e vendo
tudo o que está acontecendo
alienados naquilo
que o ouvido alcança
ignoramos o quanto é urgente
cultivarmos as mensagens
que habitam o silêncio.

Alex Moura

terça-feira, 14 de junho de 2016

Questão de química (Publicado - Entre o quando e o quase)

Viver é acidente, reação química,
fator contribuinte, cenário favorável.
Criando deus para nos criar
encobrimos a sorte de existirmos
e nossas merdas que nos destroem.

Entre a meta e o físico,
o início e o fim,
viver é o quando histórico
que chamam de presente.

Quando formos fósseis,
extinção gradual por acidente,
deus e o diabo, imortais que são,
morrerão com a gente.

Alex Moura
Das vezes de tormento
em que é necessário
sentar, falar e ouvir,
precisamos de alguém
que nos entenda.

Canto de ringue
no meio da contenda.

Bom pra isso é solidão,
tem gente que chama de reflexão.

Alex Moura
quem (trombando em jeitos)

dependo de mim, eu outro
submetendo eu outro a sua vontade.
quando eu mesmo?

outra terça que fui obrigado por mim
a embalar palavras em bloco de rascunho
alternando goles de cerveja de preço reduzido
hoje eu não viria. duvido!

penso em não vir mas eu outro vem
não tenho o menor controle sobre mim
e criando outros eus disfarço a
dependência que tenho de mim mesmo.

Alex Moura

quinta-feira, 9 de junho de 2016

perdidas memórias (Trombando em jeitos)

dedos que não realizaram
folheiam páginas que não
aconteceram

vida é coisa que passa
página é coisa que conta
memória é coisa que guarda

metafísica precisa de dedos
que façam, caso contrário
a vida passa
a página não conta
uma memória que se perdeu

o dedo que nada tem a contar
folheou mais do que viveu.

Alex Moura
   V      (Trombando em jeitos)
S O U 
   U      

lá pelas tantas
das horas das doses da vida
serei um que nunca fui

quando eu for, irei só
quando eu for, serei só

o verbo transita direto
e não sei se serei antes de ir
ou se irei antes de ser
condensa a dúvida na mente
que não dilui

a menos que eu vá ou seja
nunca serei ou irei saber
se fui.

Alex Moura

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Imprevisão (Publicado - Entre o quando e o quase)

As noites, as chuvas,
tão esparsas que se mira um poste aceso
para ter certeza delas.

Chove um frio raro e desloca o pensamento
para um lugar que nunca foi,
para um devir que nunca veio,
frustrando como um sonho bom acordado no meio.

O ruído inspirador é grito de dor de água de chuva
sendo arrastada cano abaixo despencando de calha suja.
Aquela água serviu pra inspirar julgando que não serviria.

Achou que era esgoto, virou poesia.

Alex Moura

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A lembrança que tem o mar (Publicado - Ser das cidades)

Na Baía de Guanabara
coisa rara é ver o limite
que liga esse céu e essa água.

Lá defronte, onde seria o horizonte,
nus de regresso dominavam montes.
Esse céu carregado de nuvens
dialoga com a água opaca
que a Baía mostra.

Essa água carregada de história
dialoga com esse céu
carregado de nuvem, testemunho
e memória.

Alex Moura
impessoal (trombando em jeitos)

muita gente!
no metrô olhares adiados
se evitam num misto de
indiferença e ciência de
individualidade

os frames de entreolhares
oferecem o imagético
o cunho estético para aquém
do ser

como saber quem o quê?
para quê?
sermos é o que tem pra saber.

Alex Moura
Eu quero ter sete bilhões de amigos (Trombando em jeitos)

numa contradição
aos meus surtos sempre adiados
de reclusão
tenho vontade de conhecer todas
as pessoas do mundo

chão de planeta sendo rua
de cidade pequena
uma prosa terrena
no mali ou no japão

todo mundo irmão
confirmando presença
num evento pros mais chegados
em que sete bilhões irão.

Alex Moura

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Na medida do certo,
esperto é quem não julga valor.
Seja o que for,
quem com sentença de juiz?
Testemunhas sobram
para acusar réu
que já nasceu condenado.
Nesse caso,
espelho e teto frágil
têm muito mais  em comum
do que vidro.
Perigo é quem está com a pedra na mão.

Alex Moura