quinta-feira, 24 de setembro de 2020

rem (as várias noites do mesmo dia) 


disposto

a contestar

o real,

cerrei os olhos

pra não

te perder de vista.


subvertido

da ordem atual,

sonho,

utopia da insônia,

contigo,

no seu profundo

que me distraía.


e nesse improvável

sono que me acometia,

nos amamos o suficiente

para a noite permitir o dia.


Alex Moura

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

de dentro (as várias noites de um mesmo dia)


os objetos não mudaram

o que mudou foi o sentir,

um empirismo revelado,

a observação de dentro,

guardado do outro lado.


cada vez mais sozinho,

errado,

ouvindo de dentro

o baile que torci

pra não ser convidado.

eu não sei

dançar essa música,

me falta ar

pra acompanhar o compasso.


e sem saber

muito bem o que faço,

vou vivendo

um esforço hercúleo

pra evitar julgamento,

transitando entre

memória, saudade e testamento.


Alex Moura

quarentenum (as várias noites de um mesmo dia)

(à Cecilia)


onde quis mundo,

guardada.

quando se quis rua,

parada,

ou não,

alada, sem pé no chão.


pra que razão

do mundo pra dentro?

presa num apartamento,

julgando que não seria

nada demais,

foi todas que faltavam ser

e não parou de ser mais:


forte,

mas quer se poder fraca.

cuida, mas se quer cuidada.

determinada,

quando precisa ser tudo,

ou nada.


sempre mulher.

Cecilia quando precisa,

ou quando quer.


Alex Moura

 niterói, 20 de marçagosto de 2020. (as várias noites de um mesmo dia)


durmo

as várias noites

de um mesmo dia

há cinco meses,

eu,

que costumava ir à rua

só porque não fui.


como ficar

um dia inteiro trancado?

estou dentro do mesmo dia,

do mesmo apartamento,

da mesma ansiedade,

transitando

entre a estagnação

e a velocidade.


só não estou

dentro da mesma vida,

essa

não é mais o que era,

o que foi

e nem é ainda

o que será.


faço o que me é

obrigado fazer,

não faço

o que me é conveniente.

não tenho vivido

por conveniência,

mas por obrigação.


do toc

evito o real

e carrego o risco.

num misto de inveja

e cancelamento,

observo

os já livres de tudo,

enquanto permaneço,

guardado,

do mundo pra dentro,

entre não-ser

e demoramento.


Alex Moura