sexta-feira, 24 de julho de 2020

quarentena II (as várias noites de um mesmo dia)
(ao Guilherme)

quando
existir pra dentro
passa a ser
cotidiano,
o passar do ano
deixa mais clara
a diferença
entre tempo e espaço

na percepção
daqueles
pra quem
o tempo cresce
e daqueles
pra quem
o tempo passa.

Alex Moura

domingo, 19 de julho de 2020

novo normal (as várias noites de um mesmo dia)

se eu
sobreviver
à pandemia,
viverei
o resto
dos meus dias
meio morto
pra sempre.
fui morrendo
junto à morte
dos meus.

ao passo que
me faltará
um pouco de pé
pra andar,
um pouco de olhos
pra ver
e um pouco
de coração pra amar.

ser já não será.

Alex Moura

quinta-feira, 16 de julho de 2020

entre o toc e a covid (as várias noites de um mesmo dia)

difícil manter
as toalhas intactas,
preservar espelhos
de interruptor,
difícil interromper
a dor
num intervalo
que permaneçam
pensamentos bons.

difícil atribuir
valor aos pensamentos
quando o limite
do universo são
as paredes dos apartamentos.

difícil transitar
entre o toc e a covid,
implorar alprazolam
e aturar a cloroquina
carente de sol e serotonina.

difícil preparar
um café da manhã
sem saber se hoje
é ontem ou amanhã,
ou se é os dois,
ou se é nenhum.
dormimos as várias noites
de um mesmo dia.

há tempos não confio
nos compostos
de água sanitária
pra livrar legumes e frutas
do perigo da morte,
mas as bananas
não se descascam sozinhas.

com sorte
sobreviveremos mais um dia.


Alex Moura