terça-feira, 31 de maio de 2016

Compromisso (Publicado - Entre o quando e o quase)

Ultimamente tem sido frequente
esperar terça para que tudo aconteça.

Sozinho adquiro poderes de mesas de bar:
onipotento-me!
Onipresento-me!
Cruzo o portal para o meu submundo
onde sou demônio e salvação.

Adquiro formas concebidas em ponta de caneta:
sou dois, dez, trinta!

Salvo-me, forte que sou, das minhas próprias fraquezas,
quando salvar-me é submergir, para sempre,
num copo de incertezas.

Alex Moura
Nunca (Publicado - Entre o quando e o quase)

Sempre me demorei.
Afeito a adiamentos
sequer renovo documentos.

Faço quando não se pode mais adiar.
Quando faço!
Vadio, até quando não posso adio.

Vivo sempre com e sempre sem pressa;
num misto de quase ir sou promessa.

Alex Moura
A última noite
da vida de alguém
circunscreve relíquias do que foi
e saudades do que poderia ser.

No dia seguinte,
aquilo que foi postera
e o que não foi postuma,
uma a uma,
confirmando uma realidade
que ficou pra depois.

Alex Moura
alteridade clássica (Trombando em jeitos)

tudo é ponto de vista
disse o sofista
cultura de um
cultura de outro

não, sócrates! disse platão
não, platão! disse aristóteles

universalidade
socrática platônica
aristotélica
esgotava-se já mesmo
naquela de cada um?

alteridade se constrói
tanto na diferença
quanto no comum.

Alex Moura
Nunca vi quem tivesse
esse tamanho.
Nem pessoalmente e poucos
nos livros de História.
Memória que me recorda
crescer junto com ela,
privilégio meu, não dela.

Forte de uma força
que segura tantos.
Prantos por ela secados,
gritos por ela abafados.
Quem há de secar o seu pranto?
Quem há de dividir o seu grito?

Tento controlar o poema,
mas ela domina o assunto,
tão plena, que quando morrer
leva uma família junto.

Alex Moura
Roteiro de um golpe (Cozinhando o golpe)

Apesar da quantidade de spoilers
de quem já tinha visto esse filme,
telespectadores manipulados
em frente a televisores ligados
entoavam uma trilha sonora
de fundo de panela. Parecia novela.

Estrelando um golpista canastrão
que falando em corrupção
queria o roteiro mantido.

E a dúvida que agora povoa as mentes
é saber se o Silêncio dos Inocentes
é hipócrita ou constrangido.

Alex Moura, 29/05/2016
Recortei da madrugada
o barulho que fiz
e colei em uma pálida
página dessa escura manhã.
Manhãs escuras talvez
sejam pra isso: destacar desperdício.

Semanticamente, a pena que
escreve a pena que sente
vem ainda úmida e quente
de tanto potencial transbordado.

Acordei, me percebi errado,
preferia nem ter acordado.

Alex Moura

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Bucólico (Publicado - Ser das cidades)

Retalhos de vida
peregrinando chão de cidade.
O frio do dia assusta pés
que geralmente consomem calçadas.

A cidade, esvaziada de ritmo,
obedece preguiças de outono
e deixa evidente na gente
aquela reflexão que atrasamos
tratar sobre incômodo e sofrimento.

São assim esses dias:
a música média,
o café quente
nas janelas fechadas do apartamento.

Alex Moura
Cárcere (Publicado - Entre o quando e o quase)

Ansiei a idade que tenho,
ancião na carona de conhecer o meu fim
estando ainda no meio.

Ansiei a idade que não terei.
Ansiedade: folha vazia da causa que morrerei.

Contei dias nessa prisão.
Parei quando acabou vida, ainda tinha carvão.

Alex Moura

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Da regra (Publicado - Entre o quando e o quase)

Correr contra a multa do tempo é exercício passivo.
Ativo é o tempo que corre sempre.
Correr contra o tempo é subir correnteza que desce.

Parece que o tempo é a regra, salvo a exceção,


despenca.
Subversivo, que se mantém vivo, flutua.

Alex Moura.
Conhecimento definitivo
é presunção de ser-vivo
que se acha o bicho.
Escuto que metafísica
não se aplica aos sentidos,
talvez só submetida à utopia.
Subversivo que somos
sentimos cheiro de esperança.

Alex Moura
Quem escondeu minha alegria
não sabia que escondia
uma projeção tardia.
Minha alegria, mesmo,
residia na infância.

Protegida pela confiança
nunca se sentiu roubada.

Alex Moura

sábado, 21 de maio de 2016

Inspiração (Publicado - Entre o quando e o quase)

Pálpebra pesada boicota poema
e jogo no peso dos olhos, no tempo das pernas
e na coluna encolhida a culpa que o fim da vida
pede pra si pela carência de inspiração.

Vivo dizendo não pro fim da vida que me refiro;
é lá que mais inspiro, inspiro, inspiro...

Alex Moura

terça-feira, 17 de maio de 2016

Nada a temer (Cozinhando o golpe)

O fio fino da faca do golpe
corta na carne de quem não devia.
Não que antes não houvesse ferida,
mas se foi escolhida,
que se curasse sozinha.

O fio poroso da faca do golpe
corta com ferro de panela vazia,
que para quem quis foi questão
de acústica abafando o grito
da maioria.

Não existe plano ideal,
mas ideal é que se escolha o plano.
Mudar para o plano
de quem não quer planos
é alimentar raposa de barriga vazia.

Não há o que temer, eu ouvi, mas havia.

Alex Moura
imoral (trombando em jeitos)

foi
estudar filosofia
pra cismar
que tenho virtude
saúde? nem ligo
persigo
uma tal de moral
que falaram
que é universal

nunca achei

sofrista que sou
desisti da universalidade
e sigo inventando realidades
pra sonhar mais bonito.

alex moura
Nas leituras,
pra quem tem olhos de ler,
que se faz eventualmente da vida,
há a vida como se quer
e a vida como se é.

Se meu amor por você
depende da realização entre ser e querer
para a exata medida de vida feliz,
apesar da temporalidade do verbo,
nessa vida eu sou o que quis.

Alex Moura
Imprevisto (Publicado - Ser das cidades)

Na insegurança
do mundo moderno
a cigana carente
perguntou para a gente
se havia letras em sua mão.

Alex Moura

sexta-feira, 13 de maio de 2016

quebrando a corrente (trombando em jeitos)

a linha arrebenta
um elo subversivo
deixa a corrente
que continua sem ele
enquanto ele continua elo

o duelo de força entre
elo e corrente
para muita gente
é pior para ele do que para ela

balela!
que quem acha isso
é um monte de elo dela
de olhos no chão
e a cara amarela
inseguros de ser só elo
assim como ele.

Alex Moura
Sentindo a existência (Publicado - Ser das cidades)

Venta na varanda,
tanto que a superfície
da cerveja no copo
se inquieta em espasmos.
Noite posta,
no entanto, nos prédios
que consomem céu
há mais janelas apagadas
do que acesas.
Quieto, quero só observar,
observo, me querendo invisível,
pequeno, imperceptível,
tal qual gato em caixa de sapato.
Tanto não me movo,
que posso me sentir existindo.
Fali na pretensão de grandeza
e foi essa minha maior virtude.

Alex Moura
Meço pressão pra não morrer
e me chamam de demagogo,
suicida sem convicção,
desses que tomam remédios
e deixam o frasco no chão.

Tenho por nada moderação,
dissimulo e ajo como se nada
pudesse me acontecer.
Nunca quis me matar.
Sempre quis morrer.

Alex Moura

terça-feira, 3 de maio de 2016

Conclusão (Publicado - Entre o quando e o quase)

Tive muitas intenções no mundo.
Concluí poucas.
Esse que vocês veem por aí,
grosso modo,
é produto de tudo que concluí.

Triste ideia me olhar no espelho
e concluir que o que vejo
é a imagem daquele que me formou.
Olho nos olhos dele
e vejo que tem pouco de mim no que sou.

Alex Moura
utopia (trombando em jeitos)

A via que não existe
era somente a que a gente via
possível de caminhar.
Muita gente vinha nos alertar:
- Por aí vocês não vão chegar!
Nunca paramos! Firmamos passo!
Segurança de trem em trilho,
disparo de leoa,
que quem caça é ela!

Pouco tempo e já nos seguiam,
com aquela cara de quem tá
com a mão amarela.

Alex Moura
Traçado o plano de ação.
De traçar planos ele era bom.
Só no último
inaugurou dez novidades,
não tinha como dar errado.
Não deu porque não foi testado.
Nunca saberemos se daria ou não.
Ele era bom de planos, não de ação.

Alex Moura
Palavra
que dá trabalho
de pronúncia
é aquela cujo prenúncio
é não trabalhar.
Trava a língua,
ambígua,
sugere um devir
que vai demorar,
enquanto a prática
aperfeiçoa a minha arte
de procrastinar.

Alex Moura