sábado, 19 de agosto de 2017

O silêncio

um velho bloco de notas fechado
com suas páginas em branco
registrando todos os meus quases.
suas linhas denunciando
os silêncios de todos aqueles
que nunca fui.

potência que não virou ato
promessa quebrada
daquilo que sempre jurei,
sem confirmar
minha eternidade
julgava que fracassei,
mas foi justamente quando
me percebi não-eterno
que comecei a fazer poesia pra sempre.

Alex Moura
o chão é lava

quando apocalipses,
cataclismas e extinções
passam a ser menores do que
o iminente desfecho dos dias
em que demorei passos no mundo.

o que me importa
o fim da humanidade
ser coletiva ou individual?
pensando bem,
dividir o fim do mundo com todos
seria muito mais animador do que
ser pulverizado por uma corriqueira
cirrose, câncer ou infarto
trazidos fumegantes pelo rastro
de algum meteoro.

antes sucumbir à lava do que ao soro.

alex moura

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Da vontade

há vontades
involuntárias,
ninguém diz:
cresce cabelo,
mas ele cresce.
há vontades
que não dominamos,
ninguém diz:
bate coração,
mas ele bate.
movidos
por uma soberana
vontade.

há vontades
que dominamos,
há gosto
que preferimos,
princípio
da alteridade.

hoje,
um belo sol
de fim de tarde,
não precisei
me esforçar
pra ceder a vontade
de fugir das urgências
numa roda de choro
que a medida
em que se ia a tarde
o tom da viola,
o assobio da flauta,
e os meus de verdade,
assim como quem parte,
me fizeram chorar
sem querer.

Alex Moura
Cólera

não há sentido
no sentido
que tomamos na ponte
em busca de salvação,
como se cruzar a cidade
garantisse chegar
do outro lado são.

não há loucura
que fique pra trás
quando todos
os fantasmas estão,
senta com eles,
baixa a pressão,
pede a cerveja,
acende o cigarro,
quando tudo der errado
seja o erro e descubra
que nunca existiram
os prêmios,
portanto tanto faz
ganhar ou perder.

Alex Moura
Rua de pedestre

aquelas ruas
que fazem barulho,
paralelepípedo
faz som grave
pisoteado por
pneu de automóvel.
andá-las a pé,
feito bêbado
em corda bamba,
pisando no que é rua
e tropeçando no que não é.

entre suas veias,
lamas de uma chuva
ressecada,
um chinelo sem par
e uma flor nunca entregue.
vestígios de humanidade
contorcidos entre avisos
de sexo fácil
e papéis que compram ouro.

Alex Moura

sábado, 5 de agosto de 2017

Nervoso

o ferro no ferro
o dente no dente
a faísca e o nervo
provocados pelo
barulho estridente
e aquela agonia
que vai subindo
pela coluna da gente

comprime os olhos
e traz o desejo de fuga
do ferro
do dente
do barulho
e de tudo o mais
que povoa o ambiente
e a única corrente
que alcança um lugar
é aquela que provoca
o eriço da pele
e o arrepio da alma.⁠⁠⁠⁠

Alex Moura

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Cardápio

Liberdade tem gosto
de utopia,
difícil acertar
a receita,
existe uma
que é até popular,
mas carregam
muito na ilusão
e o povo come
achando que é bom.

Liberdade
é prato difícil,
receita pra mais
de dia:
tem que plantar,
cuidar, colher,
separar, marinar,
temperar, cozinhar,
perceber, ponderar,
contestar, criticar,
lutar, conquistar.

Liberdade é fruto
frágil,
demanda dedicação.
Isso que o povo
anda comendo,
quando come,
não é liberdade não.

Alex Moura
Diminuto

Preguiça do mesmo,
de estar atento
ao bom senso,
consenso forjado
por quem criou
o certo e o errado.

O antigo desejo
de viver pra sempre
transformado
no desejo de viver
até nunca mais.
Ir desvivendo,
da frente pra trás,
até acabar.
Jaz.

Alex Moura