terça-feira, 31 de janeiro de 2017

criaturas (Trombando em jeitos)

há um extrapeso
que povoa o que sou
que não sendo eu
só povoa
mas me almeja
seduz
e que tem a mim
como fim

transpassa-me
dança ciranda
à minha volta
mais ameaça
do que escolta
essa criatura
nas minhas costas

bizarra bela
perto de mim
tanto dela
trazendo na mão
às vezes pão
às vezes vela
essa criatura
com sede do meu
sangue
querendo que eu
seja ela

o peso não pesa
somente uma
mas várias delas
que aquele 
único que fui
percebeu que aquelas criaturas
são todas que ainda não fui
insistentemente querendo ser eu.

Alex Moura

sábado, 7 de janeiro de 2017

desordem (Trombando em jeitos)

a imagem do espelho
vence o espaço
e chega a tempo
à imagem de fora

o que há nesse espaço
e nesse tempo
entre a imagem de fora
e a de dentro
são todas as possibilidades
de mim
são todos os meus nãos
no paralelo entre
os meus dois sins

com tanta
possibilidade pra ver
transitando
entre o ser e o não-ser
quebrei o espelho
e voou eu pra tudo que é lado.

Alex Moura
Carregando... (Reflito)

A expectativa
é o primeiro motor
da minha consciência.
Julgo
que nunca saciei.
Com o fato consumado
esperei.
Sempre
no aguardo
pra que tudo acontecesse,
ainda que tudo
já estivesse se formando.
Quando enfim
ainda era quando.

Na
promessa da explosão
eu mesmo me sabotei,
sou pavio molhado,
quase queimado,
que eu mesmo molhei.

Mas euforia
eu tenho tanta
que ninguém julga
que nunca me saciei.
Na esperança
de que aconteça tudo
vou sendo mais
do que precisava ser,
e acabo falindo
antes que algo
possa acontecer.

Alex Moura
Cinismo (Ser das cidades)

Em busca de reclusão
todas as atenções ofendem.
Quando se quer desprezado
todos os nóbeis caem
em seu colo.
Cabeça de avestruz
dentro do solo.
Por que é tão difícil
ficar sozinho numa cidade?

Entre gritos e sussurros
procuro o silêncio e não acho.
Não quero que falem baixo,
quero que não falem. Calem.
Só eu estou calado,
potencial depressivo
alimentando depressão
no lugar errado,
sentado na mesa de bar
há um otimismo para cada um
no penúltimo dia do ano.

Meu ledo engano:
sexta à noite, um livro na mesa,
copo cheio da mesma cerveja,
e a esperança de um silêncio
que nunca virá.

Alex Moura