domingo, 29 de novembro de 2015

Crise existencial (Publicado - Entre o quando e o quase)

Daqueles dias em que piscamos mais
para fugir de crises existenciais,
como se o breu da piscada
garantisse inexistência.

Sob essas condições não existe inexistência,
já que esta é a negação do que existe.

Para existir a inexistência
precisamos abrir mão da consciência,
onde inexiste a consciência
é lá que a inexistência existe.

Alex Moura

sábado, 7 de novembro de 2015

O sobressalto (Publicado - Ser das cidades)

Ultimamente tenho acordado
ao som de Smashing Pumpkins.
Um sono que não é de verdade
cortado pela metade
por uma música que só toca
um minuto.
E não há motivo pra alarde,
por mais que isso me irrite,
é esse o limite do alarme.

Mas não é assim que é a vida?

O que ilude
é essa ideia de completude
que temos da vida.

Alex Moura



dos preconceitos (Trombando em jeitos)

A resistência impávida
que assola os preconceitos
mais faz perder do que ganhar,
e a suposta certeza
é só consequência do ato de julgar.

No entanto,
desarmada a resistência
e permitida a experiência,
se espantou com o sentimento
quando o show acabou,
enquanto tentava esconder
o semblante de quem
não queria gostar, mas gostou.

Alex Moura
Não passarão! (Cozinhando o golpe)

Não se trata de morrer
tentando mudar o mundo,
mas de viver tentando mudá-lo.

Não passarão,
e nem irão nos calar.
Se a luta não garante vitória,
a vitória é lutar.

Alex Moura

domingo, 25 de outubro de 2015

Do ilimitado (Publicado - Entre o quando e o quase)

A desenfreada necessidade
que se abate na sociedade
de que tudo faça sentido
tem somente apetite moral.

E é voraz, e a tudo consome,
que se dá até pena do homem
que ousar não pensar assim:
mentalidade limite
entre princípio, meio e fim.

Obedecer os valores, senhores,
pode ser só o ato de não valorar,
e a razão da experiência humana,
como um facho de luz,
que ilumina por fora o vagão
e se apaga antes do trem acabar.

Alex Moura.
Não sou dado a convenções
nem me inclino a homenagens,
mas não nego, é verdade,
que a surpresa foi tamanha,
daquelas que só quem ganha
é capaz de mensurar.

Fui lembrado por quem amo,
que conhecendo a resistência,
com uma doce inteligência
me venceu pedindo: aceita?
Feliz dia do poeta,
que não sou dado a desfeita.

Alex Moura.
meio (trombando em jeitos)

da distância
que agora
se entranha entre nós
nasceu outra amizade
que a sua ausência
me obrigou a perceber

hoje sou o melhor amigo
dessa saudade
que eu sinto de você.

Alex Moura

domingo, 18 de outubro de 2015

Tanto já me dei
em prejuízo,
que o juízo que faço
é que não sei me dar.

Do tanto
que já fiz sofrer
me parece
que também
não sei receber.

Como quem canta
e não sabe cantar,
sou eu que amo
sem saber amar.

Alex Moura

sábado, 26 de setembro de 2015

Arqueo Lógica (Publicado - Entre o quando e o quase)

Há uma raiva tamanha na caneta,
que o vestígio que sua ponta espeta
será capaz de ser visto em cem folhas.

Há uma raiva tamanha na garganta,
que o vestígio que sua gana canta
será capaz de ser ouvido em cem mundos.

E quem sabe quando escavadas,
essas raivas fossilizadas
revelem os segredos que dão a tônica,
arqueológica ou arquitetônica,
dos meus medos?

Alex Moura

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Dez anos (Publicado - Entre o quando e o quase)

A década da metamorfose
que me fez de filho, pai.
Ano vem. Ano vai.
Eu não sou só eu,
agora eu sou mais.
Não sou eu que só me faço,
você também me faz.
Sou mármore tomando forma
daquela que você me traz.
Fez do passado, futuro.
Fez sensível quem foi duro.
Contemplativo, surpreendente
me indagou recentemente
enquanto ouvia boys don't cry:
Meninos choram?
Sobretudo quando pai.

Alex Moura.

domingo, 13 de setembro de 2015

O caminho tortuoso das gotas (Publicado - Ser das cidades)

A beleza de um dia cinza,
introspectivo,
o amuramento natural,
recluso,
nos envolve na atmosfera
dos julgamentos reflexivos.


Consciências escorrem
pelo lado de fora das janelas.
Frias, janelas e consciências,
se abrem em meio ao
recolhimento passivo,
e o que chega de fora e de dentro
é o termômetro que mede a
justa medida do quanto ainda
estamos vivos.

Alex Moura
Dor
dói pra todo mundo igual?
Tenho a impressão,
às vezes,
que é cultural.
Dor mesmo,
dessas que doem bem fundo,
são dores que só doem
no mundo real?

Alex Moura

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Andando a ermo (Publicado - Ser das cidades)

O barulho que falta à cidade
num terno dia de feriado
esconde-se nas bocas caladas
dos apartamentos
e nos motores desligados
dos automóveis.

Ansioso por despertar,
o ruído, que se encontra
escondido,
povoa somente a cabeça do
poeta,
que com a cidade na mente,
vomita à caneta o ruído ausente.

Ninguém ouve,
ninguém lê,
ninguém vai saber
como o poeta se sente.

Alex Moura
Hoje ainda não falei
eu te amo.
Amor não fica na boca,
nem na que diz,
nem na que cala.
Amor é outra coisa,
coração não fala.

Alex Moura
Do conceito de movimento
que dá liga à experiência humana,
só o que emana enquanto eterno
é renovação mundana.

Ao passo que se confirmam meus
sucessos,
um ciclo de transformações
produz novas ilusões.
E nesse quando, o devir se encarrega
de produzir meus fracassos futuros.

Alex Moura

domingo, 6 de setembro de 2015

Entre a Caverna e a Maiêutica (Publicado - Entre o quando e o quase)

Em busca de algo
nunca me procurei.
Em busca de mim
me interpretei e não entendi.
Em busca de entendimento
me comparei particular e universalmente,
e percebi que o que via na frente
era o reflexo do que chegava em mim;

daí quebrei o espelho
e me enxerguei pela primeira vez.

Alex Moura

M-15-05 (Publicado - Ser das cidades)

Não há revolução
sem transmutação da ordem,
virar do avesso, jazido o fim
nasce o começo.
Se a vida é um processo histórico,
tudo bem você com essa história
de rebelar minha vida.


Não há revolução
sem devir, sem coragem,
sem derrubar muros
e sem bater poeira.
O movimento precisa de amor:
Presente, companheira!


Alex Moura
Os planos de quem? (Publicado - Ser das cidades)

No calendário um dia qualquer
de um mês entre um e outro.
Tanta conta pra pagar,
uma tese a defender,
dois filhos pra criar
e um emprego a perder.

Levantou da mesa do café
e caiu fulminado no chão,
de lá não levantou mais;
deus é mesmo um irresponsável.

Alex Moura

sábado, 29 de agosto de 2015

Autodistinção (Publicado - Entre o quando e o quase)

Liga de fio, transparente,
que une a um toda a gente.
Espectro de organismo vivo,
ação que parte da parte
como seta lançada ao coletivo.

Asa de borboleta,
tufão no Oriente,
bate em algum lugar,
em outro se sente.
O desespero da minha solidão
é a consciência de que ela só é em mim,
porque nos outros não.

Alex Moura


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Antes do meu meio-dia
tudo me assombrava,
receio do que seria sobrava.

Agora, que mais tenho a temer,
menos temor me assombra.
Coragem que me eterniza
no reflexo da minha sombra.


Alex Moura

sábado, 15 de agosto de 2015

Da escolha (Publicado - Entre o quando e o quase)

O remendo na carne viva
fere mais do que a navalha fria.
Se não fosse inútil,
antes o remendo na carne morta,
mas já não importa.

Transito entre a dor do remendo
e a morte da carne.
Se remendar é recorrente,
fico com a morte,
que só se morre uma vez.

Alex Moura

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Órbita (Publicado - Entre o quando e o quase)


Inquietação,
satélite natural da minha consciência.
Tendo a ser menos do que me classifico
querendo ser mais do que possam classificar.

Mas afinal, o ser pode ser determinado?
Forma, matéria, ação?
Que eu saiba não!
Sou algo entre o poder ser nada
e o querer ser tudo.

Alex Moura

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Intransitivos (Trombando em jeitos)

Essa gente
igual a mim,
intransitivos,
não fazemos
esforço pra ficarmos
vivos.
E não temos controle
sob os limites da
nossa pele.
O que acontece lá
é soberano.

Alex Moura.

sábado, 18 de julho de 2015

Quando a vida
é triste,
viver não é a melhor
coisa que existe.

Quando viver
passa a ser
cultivar ferida,
não seria a morte
a cura da vida?
Reclusão (Publicado - Entre o quando e o quase)

Das inúmeras coisas sensíveis,
que no mundo tenho percepção,
a maioria só percebo
depois de muito arrasto
de calcanhar no chão.

O julgamento do passado
no tempo presente condena o futuro,
que demora tanto a chegar;
e só atrás dos óculos escuros
tenho coragem de chorar.

Alex Moura
a versão (trombando em jeitos)

a obrigação da consciência
transformada em necessidade
moral
subverte a ideia do bem e do
mal
e a vida passa a ser esforço
pra corresponder expectativa
social

mandado obedecendo quem
manda
e o sonho se perde em algum
lugar no caminho entre a infância
e a adolescência com camisa de
banda.

Alex Moura
Pra ler ouvindo The Pains (Publicado - Ser das cidades)

Numa esquina
me perguntaram
por que escrevo
muito a tristeza.

Desconfiei,
não tinha certeza,

mas depois de pensar,
a conclusão que cheguei
é que no corpo da minha
folha povoam as dores
que não curei.

Alex Moura
O pão e o circo (Publicado - Ser das cidades)

A volta à noite
do povo que foi
de manhã.
A ida à noite
do povo que volta
amanhã.
E a cidade, à sexta,
se prepara para
adormecer, acontecer,
enquanto essa cerimônia
embala meu olhar
no vai e vem do pavimento.

Alex Moura.
A felicidade é distraída  (Publicado - Ser das cidades)

Ser feliz não garante vida,
felicidade não se doma,
é distraída,
quando se dá conta,
está feliz e pronto.

Por exemplo:
ganhando o Flamengo,
com ela comigo, bebendo,
assim, distraído,
está garantido
meu übermensch.

Alex Moura

quinta-feira, 25 de junho de 2015

opinião (trombando em jeitos)

no eterno espaço
de um instante
fui tolerante e intolerante

por um tempo
considerei a opinião alheia
como ferramenta de tolerância

por um tempo
considerei a intolerância alheia
como ferramenta de opinião

a primeira eu tolerei, a segunda não.

Alex Moura 25/06/2015.

quinta-feira, 18 de junho de 2015


No meio de um dia no meio do ano (Publicado - Entre o quando e o quase)

Registros de vida feliz
me cobra desbotada essa página.
Procuro entre as quinas dos dias extensos,
propensos à infelicidade,
a simplicidade da alegria raiz,
aquela que por um triz me escapa.

Fosse o prazer inato, da potência ao ato
iria me transformar,
e me resolveria o eterno problema
de perpetuar bem-estar.

Alex Moura

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Poema sobre viver

A experiência humana,
ora surpreende,
ora envergonha.
Tanta história pra contar,
tantas outras pra esconder.
Tantos planos pra abortar,
tantos outros por fazer.
E de contadas,
escondidas,
abortados
e feitos,
planos e histórias cobram
efeitos.
E viver passa a ser
sobreviver
a esse poema
sobre viver.

Alex Moura 05/06/2015.

sábado, 30 de maio de 2015

Potência e ato (Publicado - Entre o quando e o quase)

Na eterna investigação
da conduta humana,
certa vez indaguei:
"o que é amar?".

Se da potência ao ato
tantos amores se desperdiçam,
cabe à razão se fazer aliada
para evitar desperdício.

E apesar dos quandos, quases e nuncas,
ainda estamos aqui, meu amor,
que amar é isso.

Alex Moura
Déficit de emoção (Publicado - Ser das cidades)

E os transtornos do
novo século?
A reforma não foi agrária,
e foi o cérebro que se mapeou.

Exército previsível
do soldado invisível.

Não condeno o uso, mas a
indústria da Ritalina, que se
beneficia alguns,
cria profetas da rotina.

Alex Moura
Toda vez que boto na
cabeça que vou me divertir
sozinho,
consigo tudo o que preciso:
a bebida que bebo,
a comida que como,
a música que ouço,
e o sonho que acredito.
Toda vez! Não me divirto.

Alex Moura
Certa vez o poetinha
atribuiu tristeza à
beleza da poesia.
Nem me passa à mente
contradizer.
O que posso dizer é que,
ao meu ver, a beleza da
poesia não julga sua
competência.
Na minha, por exemplo,
a tristeza já garante
existência.

Alex Moura
Mandrake (Publicado - Ser das cidades)

Outro dia que reparei:
há tanta estátua no mundo.
Alguém reparou?
Umas sei quem são. Umas não.
Outras finjo que não sei.
Tanta estátua injusta,
que na boa?
Parei.

Alex Moura

sábado, 23 de maio de 2015

Juro que o bem-estar é uma pauta,
o que falta é começar.
Entre carências de serotonina
e mergulho consciente na depressão,
o giro da rotação do mundo
parece que para no que mata.
Mas tentarei ensaiar um otimismo
e aproveitar o cunho poético
dessa cerveja barata.

Alex Moura
das "vias de regra",
eu fico com a via, que me faça chegar
aonde eu quiser

Alex Moura

domingo, 17 de maio de 2015

Vontade de só existir (Publicado - Entre o quando e o quase)

Às vezes dá um cansaço da vida,
preguiça da consciência,
vontade de só existir,
mas quanto mais me volto a mim,
mais me atrapalho.

Ficar parado sentindo o tempo,
esses versos, por exemplo,
deram trabalho.

Alex Moura 17/05/2015.
Tenho vivido, ultimamente,
de fora para dentro,
absorvendo morte que me
desgasta o viço.

Não que eu queira isso!

Quero dias como hoje,
sorriso,
que me obriguem a viver
a vida que eu desperdiço.

Alex Moura 10/05/2015

sábado, 9 de maio de 2015

Quarentena (Publicado - Entre o quando e o quase)

Parte do que fui
vive em parte do que sou,
que viverá em parte do que serei.

Até quando eu não sei.

Parte do que não fui
viveria em parte do que não sou,
que viveria em parte do que não serei.

Sou eu, no que seria, ou no que serei?

Alex Moura

sexta-feira, 1 de maio de 2015

A vida, essa experiência distraída,
avisa da chegada, mas não previne
a partida.
E o que fica de vida, à medida que
a experiência vai passando, são as
eternidades em que se transformam
nossos quandos.

Alex Moura
dos percalços (Trombando em jeitos)

Olha, meu amor,
que hoje a gente não chora,
nem tão cedo, nem tão tarde,
não tem hora.
E a vida, essa experiência
distraída, ao mesmo tempo
que afaga, revolta.
Mas tudo bem,
a asa que leva embora
é a mesma que traz de volta.

Alex Moura

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Severo (Publicado - Entre o quando e o quase)

Nunca fui de constituir família,
não economizo e não conserto fiação.
Tenho a responsabilidade
de um romântico tísico.
Romantísico é definição?
Parto, de novo, de um porto novo,
e a partida, essa velha conhecida,
me traz à entrada e me espera à saída.

Bar doce lar, estou voltando pra casa,
não voei longe, quebrei a asa.

Alex Moura.

sábado, 25 de abril de 2015

Devir (Publicado - Entre o quando e o quase)

Ontem fiquei de ir,
não fui,
e o defoi de onde
não estava,
com o deveio que,
onde eu estava, veio,
são, respectivamente,
o que venho pensando:
devir do meu quase,
devir do meu quando.

Alex Moura

quarta-feira, 15 de abril de 2015

nietzsche descarta (Reflito)

Não quem sou eu
ou quem há em mim
que não há em outro,
e que faz de mim eu
e não outro;
e vice-versa por sua vez,

mas quem há em nós,
que faz de mim e outro
eu e ele, sendo-nos em nós;
enquanto ser, será outro depois.

Não que eu, ou quem quer que eu seja,
queira descartar Descartes,
mas alguém pensa em mim,
logo alguém existe em mim.

Alex Moura

sábado, 11 de abril de 2015

Da hora de acordar
à hora de dormir
o quando quandeia,
e de quando em quando
a vida é inteira.

E a vida completa é, até o fim,
viver todos os quandos,
seguindo, inevitavelmente,
ao limite do quase.

Alex Moura

sábado, 28 de março de 2015

Contemplação (Publicado - Entre o quando e o quase)

Num rompante
pondo em xeque
paradigmas e ideologias,
a afirmação de uma criança
em minha mente insiste:

"Pai, o céu não existe!".

Entre existência, inexistência
e investigação sobre ser e devir,
talvez a nuvem faça o céu existir.

Entre contemplação e indagação
sobre quando e onde,
talvez o horizonte seja o limite
entre o céu, o mar e o ontem.



Alex Moura

domingo, 22 de março de 2015

Existe na ansiedade
a atmosfera do quase,
sensação do devir,
do que está pra chegar
sem saber o quê.
No jogo do quase e do ser,
viver é a dialética onde e quando
representados no espaço-tempo.

Alex Moura

sexta-feira, 20 de março de 2015

o mandante (trombando em jeitos)

muito poema é arbitrário,
não te dá a chance de ser
possui pensador que se
julga pensante e o faz
pensar exatamente o contrário

daí ele segue imponente
dirige e senta na frente
e o poeta figura que nunca
abandona
vai cheio de si
e não se enxerga carona.

Alex Moura.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Até quando (Publicado - Entre o quando e o quase)

Entre o a partir de agora
e o um dia vai ser,
há uma atmosfera do devir
que incomoda, ou deveria.
Esse conceito de esperar o dia
não deixa perceber a vida passando.

Entre o já e o até, existe o quando.

Alex Moura.
Tendo os ais
em todas as noites supremas,
são as forças-poemas  que me distraem.
Quando saem, as dores,
dilemas se contraem
e resta a certeza de que qualquer
dúvida é até não ser.

Alex Moura.

domingo, 15 de março de 2015

meu caro
você só tem
mais um dia
de vida
suas últimas
vinte e quatro horas

e agora?

farei
o que sempre quis
ele diz
e vai vivendo
como há muito
tempo queria

morreu
antes de acabar
seu último dia.

alex moura

quinta-feira, 12 de março de 2015

TOC

A pé
corro todas as sinapses
do meu pensamento,
e no ápice percorro
o caminho de volta,
e só corro com o pedido
de socorro na mão.

Alex Moura.

domingo, 8 de março de 2015

ébrio (Trombando em jeitos)

há um mundo
que não existe problema,
toco guitarra,
sou poliglota,
provo meu gosto,
sonho, sistema.

a ideologia
vagueia perfeita,
se houvesse desculpa
seria aceita,
mas não há
o que desculpar

porque nesse mundo
não existe problema,
e o que nos separa
é apenas um brinde
e um poema.


Alex Moura

domingo, 1 de março de 2015

Estiagem

Outro dia vendo a chuva cair,
me dei conta de que não chorava
há muito tempo.
Não por falta de nuvem,
não por falta de vento,
talvez por falta de água por dentro,
assim como uma tristeza desidratada.
Quem disse que o sol faz a paisagem
mais linda?
A chuva parou e eu não chorei ainda.

Alex Moura.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Fui poeta,
e quando morri
disseram:
"Não foi nada
útil à humanidade".
Quando morreram,
nada útil da humanidade
os salvou.

Alex Moura.
Tardes são deprimentes,
elas se postam entre as
manhãs promissoras e as
noites imprevisíveis.

Enquanto manhãs cheiram
a café, tardes ficam, se demoram,
se arrastam, e desconfio
que seja o motivo das noites
serem tão aguardadas.

Contudo, quando é tarde da noite,
a tarde pode, semanticamente,
ser salva.

Alex Moura.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O oco fora do vácuo

A recorrência de enxergar
os vazios é capacidade extra
de enxergar ou carência visual
ao que vê?

Há tempos enxergo no mundo
perspectivas tão cheias de nada,
expectativas vazias de tudo,
silêncio alto, um berro mudo.

O que entra aos sentidos:
olhos, ouvidos, dependendo de como
digeridos enchem ou esvaziam,
e nesse tráfego entre vazio e cheio,
muito e pouco, transito na dúvida
se meu pensamento é vácuo ou oco.

Alex Moura.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Subjugado o mito
chega a humanidade
à razão.
Solução para as certezas
dos problemas sem solução.

No mundo das soluções,
se a cada pessoa um mundo,
um mundo cheio de razões.

Vendedores de certezas
destilando veredito
hão de concordar
que viver de razão é mito.

Alex Moura.
Corto os pulsos,
sujo a pena,
viver sujo de sangue
envenena.

Enforco-me com minhas fases,
da primeira à última dose
vou vivendo dos meus quases.

Alex Moura.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

naturalistas (Reflito)

uma irritação sintomática
mensalmente pontual
dessa tensão pré-socrática

vem elemento, muda elemento
água fogo terra vento

luz sobre o pensado
breu no pensante
naturalmente humano
só há estudado porque há estudante

luz no pensante, luz no pensado
acharíamos a natureza linda
se ninguém nos tivesse falado?

Alex Moura.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Do mundo todo

Teria que viver mais vidas
pra esgotar o que de vida
tem pra viver.
Vistas que não vi,
sabores que não provei.

Fica muito

de mundo incompleto
quando o mundo
de alguém acaba.
Sons que não ouvi,
cheiros que não cheirei.

Não é melhor para o mundo

que não se acaba,
do que para quem
se acaba o mundo.
Tanto não há quem tenha visto
o mundo todo,
quanto por ninguém
conseguiu ser visto
todo o mundo.

Considerando

que o mundo é redondo,
estamos a um mundo
de distância de nós mesmos.

Alex Moura.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

as frestas (Trombando em jeitos)

nunca foi fácil ver
através do que não existe.
há olhos que cegam claridade,
e olhos que enxergam escuridão.

não ser olho, não ser onde
e não ser tom.
enxergar o tom de onde olha,
é muito mais do que olhar,
é dom.

Alex Moura.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

profeta (Trombando em jeitos)


corto uma veia
do meu braço,
me desconstruo
me construindo.
roupagem de muda,
cobra, coleiro,
cobreiro nobre
que me desnuda.
sem couro, pele,
sem pena, pelo,
apelo ao pelo
que me cubra então.

tudo passa
e nada fica,
e me vem à mente
a obrigação
de ser semente
que não se mente,
que germina
sem ter bom chão,
mas quem não mente no final,
que finalmente diga
se eu sou quem penso ser ou não.

Alex Moura.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Humanas ciências (Publicado - Ser das cidades)

Depois que afrouxei
o nó da gravata,
saí por aí ouvindo bravata,
ganhando o mundo,
enfrentando sistemas,
através de sonho,
história e poemas.


Alex Moura.