sexta-feira, 27 de outubro de 2017

se todos os dias fossem hoje

surgiu um sei-lá-o-quê
não-sei-de-onde
bem no meio
das minhas sinapses
e agora eu tô de cabeça cheia

de neurônio,

indo e vindo
indo e vindo
trazendo pra mim
um humor de quem
tá sempre sorrindo.

nem fiz por merecer,
satisfação pra mim é tão raro
que parece merecimento,
sou ansioso a contento,
meu lugar comum é angústia,

mas não hoje,

porque eu tô
que não me aguento,
posso tudo,
faço o que eu quero,
tão certo de mim
que saí de casa
sem consultar espelho,
sem passar camisa
e de tênis vermelho,

hoje não tenho medo de nada,
tão confiante quanto pivete
correndo atrás de pipa avoada.

Alex Moura

homem invisível (trombando em jeitos)
quando permaneci em mim
pela última vez
demorei um mês e estava satisfeito
tinha alcançado a minha melhor versão
por que não?
poderia ser assim pra sempre
mas depois cansei
e comecei a tentar ser outros
não somente o que não fui
mas aquele que não sou
não ser eu
já era um bom negócio
como se de repente
eu ficasse fora de moda

ultrapassado na última estação
em ritmo de promoção
até acabar-me do estoque
minha desorganização
meus livros
meus discos
meus poemas
minha voz
meu corpo
minha memória
tudo gaveteado até desaparecer
com uma etiqueta na tranca
escrito: não ser!
fui vivendo assim
sem sequer ser eu
sendo aquilo que não sabia
sendo aquilo que não era
tu
nós
você
só a mim que não conseguia ser


porque ser talvez seja isso
tudo o que já fomos
mais o que não fomos
o que seremos e o que não seremos
num grande espaço chamado tempo
que vai acabando ao passo que somos.

Alex Moura

sábado, 21 de outubro de 2017

Duas vezes ao dia

queria cerveja,
me prescreveram
nimesulida,
coisas da vida,
mas essa porra
faz um mal
para o fígado
que é melhor
ficar só na cerveja
ou na nimesulida.

por Ninkasi
fico com as duas,
meu tornozelo
é a única parte de mim
dada a limites.

Alex Moura
Lugar comum

reclamei,
cuspindo gritos
que estilhaçavam
no sossego fajuto
dos transeuntes,
o meu inalienável
direito de ir e vir.

tinha gente
que acompanhava,
gente que me xingava
e gente que se segurava
pra não rir.

me aquietei,
baixei o tom,
engoli o grito
e digeri uma admissão
constrangedora
quando me dei conta
que há muito tempo
não vou ou venho
de lugar algum.

Alex Moura

sábado, 7 de outubro de 2017

O maior gerúndio do mundo

o compasso da espera,
cratera do tempo
em que acontecer é nada.
ócio improdutivo, ansioso,
olhar pro relógio de novo
e confirmar o ainda.

ficando, partindo,
ando
indo
sempre para o mesmo lugar,
conduzindo o que sou
pelo acostamento,
andando devagar
em pista de gente rápida.

ávida, a vida pede passagem,
pisca farol atrás de mim,
ronca motor,
potente,
de gente que por me ver andando
não desconfia da pane seca
que, obedecendo a inércia,
decretará o meu fim.

o vazio persiste,
também é presença
quando a ausência insiste.
acontecer continua gerúndio
mesmo quando não está
acontecendo mais nada.

Alex Moura
a cidade, dois pombos e um não

da janela
de um coletivo
arrisco um olhar
desinteressado
para o que está
acontecendo
do outro lado.

lá fora dois pombos
pousam juntos
na calçada
e bebem água
da mesma sarjeta,
parece que se conhecem:
chegaram juntos,
dividem água.

um voa pra longe,
o outro,
que chegou junto, não.
fica e bebe;
fica e bebe;
fica e bebe;
e voa para o outro lado.
eu, que sou gente,
julgo que voou
pro lado errado.


estavam juntos,
agora não.
com tanto céu,
com tanto pombo,
ainda se encontrarão?

Alex Moura
Pólen de gente
(para o Guilherme)

só se pode nascer
no início da primavera
uma vez por ano
e esperar mais um ano
para se completar,
exatamente,
mais uma primavera.

e você nasceu.

a primavera,
sempre protagonista,
não se acostumou que,
há doze anos,
a atenção do artista
não é só mais dela.

há quem conte a vida
através dos anos dos aniversários,
através da idade dos calendários,

mas você?

você conta a vida
através das flores
da primavera.

Alex Moura