sábado, 10 de dezembro de 2016

Por onde anda a poesia? (Ser das cidades)

Na rua,
a curtos passos,
vi um balão de gás
vermelho
ziguezagueando
entre os carros
no meio da pista.
Procurei ali a poesia.

Vi um senhor
de suspensórios
conferir tristemente
o obtuso da conta bancária.
Procurei ali a poesia.

Vi um camelô pegar,
ainda no ar,
o papel que voou
da pasta do executivo.
Procurei ali a poesia.

Vi as folhas
caídas ao chão
fugindo insistentemente,
como um pequeno furacão,
da vassoura que um senhor
trazia na mão.
Procurei ali a poesia.

Vi o sinal abrir
para o pedestre
quando não havia
ninguém na calçada,
obrigando a rua
a ficar parada.
Procurei ali a poesia.

Fracassei!
Em nenhum dos casos
achei.

Sinto uma pena
quando me escapa um poema.

Alex Moura

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O limite da metamorfose 

Urgência
pra que tudo aconteça
ainda que não se saiba
o que é tudo.
Mas se existe devir
nunca teremos vivido tudo,
porque terá sempre mais
por vir.

O complexo da lagarta:
viver sempre esperando
o casulo
que garantirá uma vida melhor.

Melhor?

Há uma borboleta na lagarta,
mas lagarta alguma
na borboleta, sequer casulo.
Não há devir pra borboleta,
ela sim já viveu tudo.

Alex Moura

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Corpos quebram (Trombando em jeitos)

faltam detalhes nessa casa
que a esvazia de mim
não há edgar allan poe exposto
demorando seu rosto
nas paredes amarelas e frias

faltam detalhes nesse corpo
que o esvazia de mim
não há bergman tatuado no corte
com a dança da morte
num antebraço cansado
jogo de xadrez que joguei errado

não há todas as bandas
faltam poetas
um mario quintana
que perdi por aí
na contracapa
tinha um haikai que escrevi

falta tanto de mim pra cumprir
vou andando incompleto
faltando pedaço e me convencendo
que realização é ilusão que vendem
pra gente em uma embalagem
que deus fechou
escrito primeiro de abril.

Alex Moura
Demoramento

O que havia antes do tempo
era o próprio tempo,
posto que é antes.
Pra trás
o eterno também
se demora em instantes.

O tempo enquanto criador,
nunca enquanto criatura.
Nada é antes,
porque antes é ele,
é nele que a realidade dura.

Criaturas passam.
Lembra semana passada
quando conversamos
sobre chorar de saudade?

Mas o tempo não.
O tempo sempre existiu.
Sempre existiu.
S     e     m     p     r     e.

Alex Moura

domingo, 20 de novembro de 2016

No seu tempo 

Quanto há pra viver
nos dias que levantamos
sem querer saber as horas?
Como podemos ser
sem controlar o tempo
que nos inventaram?

Dormir quando for
e não porque o céu desceu.
E se tiver que acordar
quando somente lojas
de conveniência respiram,
viva a partir dali.
O ponteiro do relógio arbitrário
passa sempre duas vezes
no mesmo lugar durante o
que nos ensinaram ser dia.

E tudo bem
se dormir quando acordava.
E tudo bem se acordar quando dormia.

Alex Moura

sábado, 19 de novembro de 2016

Domesticamos o tempo (Trombando em jeitos)

os dias têm personalidade
hoje terça-feira tem pegada
de segunda marcha
já houve o arranque
em velocidade baixa

o percurso temporal dispara
enquanto cortamos a estrada
diz para enquanto cortamos
os pulsos na segunda metade
de uma quinta-feira
besteira! fomos nós quem
batizamos os dias e fatiamos
o tempo

a noite não é antes
e nem depois, só é escura

as voltas que o ponteiro dá
são forjadas
girar no sentido horário
sempre me pareceu arbitrário
leva o mesmo tempo
girar ao contrário

solstício equinócio eclipse lunar
mais do que trazer um novo dia
o sol se encarrega de clarear.
nunca houve um sétimo dia
para deus descansar.

Alex Moura

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Da terra à graxa (Ser das cidades)

A força muscular
que faz o pé pedalar
as correntes da bicicleta
corta a resistência do ar.

A corrente e o músculo.

A bicicleta e o ar.

O pé e o pedal.

Conflito eufêmico
entre o mundo de ferro
e o natural.

A coexistência
entre o que já estava
e o que foi criado.
A dialética in natura
contradita à arquitetura.
Quando venta o ventilador
o mecânico ficou selvagem
ou a natureza domesticou?

Numa constante
disputa de espaço
passeiam os dias
cheios de flor e cimento,
entulho e excremento
habitando realidade.

Pedalei pelas veias
da cidade,
chuva molhando
descalço e calçado,
tanto que ao entrar molhado
no banco mais perto de casa
a porta-giratória calou-se
para a parte de céu e de mar
que eu trouxe.

Alex Moura

terça-feira, 8 de novembro de 2016

vendaval (trombando em jeitos)

para que
controlar ímpeto?
deixem as crianças
gritarem suas grandes
ideias de gente grande.
poeira só assenta
em mente vazia
em mente ocupada
sonho e realidade
permanecem
tanto um quanto outro
acontecem

dependendo
da ordem vigente
melhor pra gente
é bagunçar.
ocupar e arrumar
de outro jeito.
errado pra eles
pra gente é direito

atmosfera de mar revoltado
errado era o lado
que o vento ventava
sempre pra onde
a gente não estava.
mas agora
quem venta o vento
é a gente
que zune à janela
um som diferente:
- ocupa tuuuuuuudo! -
até ontem
esse vento era mudo
mas agora
ele zuniu mais forte

ventar é preciso
de conta-gotas
não saem maremotos.

Alex Moura

sábado, 5 de novembro de 2016

A santa barca pro inferno (Ser das cidades)

A passos largos
correm os atrasados
do embarque.
Um xis vermelho
pisca sua última
urgência alarmada,
mas parece uma
cruz tombada,
assim como tombam
as esperanças
de quem queria
logo cruzar o mar.

Não corri,
um dos poucos,
e o velho marujo do cais,
julgando trazer
um alento
que me satisfaz,
balbuciou
para poucos ouvidos
que era aquela
a barca do inferno,
e que depois
do horizonte,
lá onde
reside a utopia,
ela despencaria
do mar.
Que inveja!
Dado o paraíso
moderno,
era na barca
que eu queria estar.

Alex Moura
quando dioniso gritou (Trombando em jeitos)

apolo que fui
por um momento
organizei
caguei regra limpei
e quando baguncei
fui livre pra não arrumar.
gastei meu tempo
com o que mais preciso
livre da ordem fui dioniso.

quem manda em mim
é o meu eu corporal
que submete à espera
o racional
nunca vesti
um par de meia igual
minhas frases terminam
com etcetera e tal
deixo no ar
e do bacanal
vou direto pro bar.

Alex Moura

terça-feira, 1 de novembro de 2016

privado (Trombando em jeitos)

prisão domiciliar
quando sou
meu próprio domicílio.
sujeito apenas
às brisas que
me entram pelos olhos
quando estão abertos
se venta muito fecho.
perco a paisagem.
fora de mim há o mundo
que não poderei
mais vislumbrar.
dentro de mim
cama por fazer
louça na pia
cinzeiro cheio
e cheiro de lata vazia
comida vencida
na geladeira
copo vazio na mesa
na beira
um solavanco cai

durmo no meio
de um filme
desmarco a página
de um livro.
quando me perdi
pela última vez?
essa chuva
parece que vai durar
um mês.
para evitar que alague
abro minhas janelas
para não encharcar
tudo o que não fiz
e o peso da chuva de mim
transborda e escorre
por cima do meu nariz

preciso sair daqui
abandonar o que resta
de mim antes do fim.
apostar ir embora
apesar de gostar
mais de chuva
do que do sol
que queima lá fora.

Alex Moura
É a primavera que já começou (Cozinhando o golpe)

Primaveras
são promissoras,
no entanto,
há umas tais
que são ainda mais
do que outras.

Primaveras
em que flores
brotam das pontas
dos dedos,
de todos os lados.
Sufocam medos
que receiam
o mais do mesmo
e a estagnação.
Se primavera é renovação
a semente oculta
brota num processo
de fertilidade,
que garante
a diversidade das cores.

Flores que nascem
de boa raiz
fazem tão bem ao nariz
que até o aroma
é visível.
Se primavera
é estação de mudança,
plante:
porque mudar é possível.

Alex Moura

terça-feira, 25 de outubro de 2016

eu vi o tempo (Trombando em jeitos)

tive uma experiência
com o tempo:
por um momento
fiquei parado
entre aquele que
acabei de ser
e aquele
que ainda seria.
preso na letargia
tentando me perceber
no instantâneo
underground de mim
subterrâneo
percebia quem já me existia.

difícil se compreender
no presente
quando julgamos que sim
já estamos à frente
fluxo que não se prende
o tempo passa
não fica.
sempre!
o tempo que fica
já passou
e se passa é tempo.

passa
             tempo.

Alex Moura
Entre o sol, a chuva e a lua (Trombando em jeitos)

Durante toda minha vida
julguei gostar de sol.
Descobri aí
que julgar é errado,
porque, de fato, nunca gostei,
sempre vivi da chuva.
Paisagem turva,
que não se apresenta
de uma só vez,
você vai descobrindo
durante um dia, semana, um mês.
Dependendo do vento, três.

Carioca que sou,
o verão sempre
me foi imposto:
- Bora pra praia!
- Qual praia?
- Qual posto?
E sempre fui indo,
me construindo
aquele que nunca fui,
mas os dias passam,
meses e anos,
e mais seguro
já esboço meus planos.
Dado à boêmia
ninguém desconfia
do meu apreço pela reclusão.
É proibido, no Rio, ter depressão?

Sou morno à temperatura quente,
diferente, na rua busco o abrigo.
Abrigado busco a rua.
Para além da chuva,
minha treta com sol é a lua.

Alex Moura

domingo, 23 de outubro de 2016

A verdade é dura... (Cozinhando o golpe)

Há uma cortina de fumaça
entre as sinapses do cidadão
e a paisagem
de janela de televisão.
Realidade com horário
e programação.
Há quem julgue
que a posse do controle remoto
seja conceito de liberdade
e o domínio de um botão
te leve à verdade.

Mentira!
Precisamos te contar
um segredo:
o medo de descobrir
que esse deus mentiu
não permite confirmar
que o mundo exibido
nunca existiu.

Andarilho que vagueia
entre o intervalo
de canal aberto e fechado:
você passeou pelo globo errado.
Arrebenta a corrente,
sai da caverna e mire o sol
com seus próprios olhos,
entolhos não resistem à liberdade.

A realidade, agora,
é o que você quer que seja.
Não veja! Não!
Não veja realidade
em capa de revista,
ela nunca esteve lá,
nunca te quis protagonista.
Insista na sua transmissão.
Em um mundo mediado por razão
é você quem define
as cenas do próximo capítulo.

Alex Moura
a paciência do não-lugar (trombando em jeitos)

ainda existimos
no compasso da espera
no trânsito congestionado
em cima da guanabara
pra chegar do outro lado.
tenho uma vida
nesse lado da ponte
que continua no lado de lá
mas como existir
no caminho parado
disfarçado de não-lugar?

tenho o mundo
ao alcance da mão
na insistência ociosa
do celular
mas no meio da ponte
eu não posso vivê-lo
só se eu chegar ou voltar.
desisto da ansiedade
considero o entorno
e observo que existe
um pouco de mim
nesse eu que vive na ponte
que aguarda estoico assim
brincando de juntar o cinza
do céu e do mar no horizonte

como é bom me encontrar
comigo que vim
comigo que estou
e com o que vai chegar.

o que estou agora
não poderá mais escrever
porque o trânsito começou a andar.

Alex Moura

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

ser ou não ser (Trombando em jeitos)

levei décadas
até agora quatro
para ser mais exato
para me tornar quem sou
e as mesmas quatro
para me tornar quem não sou

há muito de nós
em quem não somos
sou eu
no meu café sem açúcar
mas sou pela falta do açúcar
e não sou na sua presença

não estar no café doce
também me faz ser eu
mesmo que não fosse.
ser e não ser
mais unidos que separados
distância que amarra
um laço forte
eu sou e não sou.
i am not!

haverá sempre sua ausência de ser
quando eu for à américa
e não lembrar de você.

Alex Moura

terça-feira, 18 de outubro de 2016

o menino e o mundo (Trombando em jeitos)

conhecer o que há
do mundo pra dentro
imerso em tempo
lugar e gente
passado e presente
passados a limpo
olimpo sujo de deuses
sujeira de deuses que eu limpo

agora que perdi o metrô
no subsolo desse mundo
esgotado de passado e presente
de gente e lugar
corro pro lado contrário do trem
fugindo de deuses pra limpar.
esse mundo de agora
anda tão sério
golpe barranco minério.
não tratarei mais
das coisas do mundo
despesa, trabalho, sustento;
da conta de luz fiz cata-vento

dancei na chuva de terno
e gravata...
dos outros, roto,
só tenho roupa barata.
esse mundo de agora
anda tão sério
que mesmo não tendo
mais trato com ele
me submete mesmo assim
minha roupa e minha pele
tão cheias de mundo
e morros e mares
com tão pouco de mim.

Alex Moura
último solo de ian curtis (Trombando em jeitos)

gosto dos dias
que conseguimos
segurar o cinza que está no ar
não me agrada saber
que o sol brilha
para além das nuvens
nos dias de céu trancado

roubei a chave de pedro
e me tranquei
do lado de fora do céu
o sol que brilhe pra lá
hoje só reconheço rumores
das alegrias que tentei preservar.
mais cerveja ansiedade
e cigarro em pista de bar
a epilepsia de curtis
me fez dançar

todos os meus fantasmas
povoam as margens
do espaço que ocupo no mundo
mas só tomei consciência
depois que a fumaça
modelou um vulto
daquilo que sempre esteve oculto

hoje
danço brinco
choro reclamo
pulo e resmungo com eles
sei seus nomes um por um
quando estou só comigo
eles gritam eu apareço
e distante do que forjo ser
me reconheço

sou quem não sabem
um pouco menos
de qualquer coisa
e um pouco mais.
os dias cinzas
sempre me agradaram
como nenhum outro é capaz.

Alex Moura

terça-feira, 11 de outubro de 2016

as luas de Júpiter (Trombando em jeitos)

postei na face da lua
tudo o que eu queria
compartilhar com a rua
de mim de nós
estar eu e o mundo
também é estar a sóis.
sabemos de nada
ao nosso respeito
trombando em jeitos
sempre sou mundo
às vezes sou outros
nunca sou eu

não existe eu universal
incontestável
pleno e imutável.

júpiter tem mais de sessenta luas
mas não tem ruas
sequer esquinas
meu mundo só tem uma lua
mas um de mim
pra cada rua
porque o que eu mais sei
é ser gente
difícil é entender
cada eu diferente
uma gente é abstrata
a outra é concreta.

Pessoa entendeu todos dele,
mas era poeta.

Alex Moura
o fim do eldorado (Trombando em jeitos)

tirei o peso das costas
de alguém
e joguei na costa atlântica
de mim.
tupiniquim
tem costas pesadas
sertão praia
serras-peladas.
ontem
eu traí o mar
traio o mar
quando não vou vê-lo
na clara tentativa
de esquecê-lo.
da lembrança do mar
me ficou a ressaca
rolha e taça caída
na mesa
uma poça de vinho
apagou a vela acesa.
escureceu o jantar
esfriou a casa
escorreguei
na poça de vinho que vaza.
segurei na esperança
quase caí
esperar cansa
quando não se sabe
pra onde ir.

eu tupiniquim;
eu tu;
tupiniquem?
tupininguém.

fim.

Alex Moura
Calendário

Todos os dias perseguem
o trinta e um de dezembro
e só o alcançam
no último dia do ano.
Encarcerado
no fim do calendário
retoma de novo o plano
no dia primeiro
e foge pra bem longe
de janeiro.

A ideia forjada de tempo
consome vidas,
some com vidas
cobra horas de vidas
que já devem tanto.
Diariamente
toda folha de diário mente.

Alex Moura
o mundo não é tão opaco (Trombando em jeitos)

abrir as cortinas
que nos cobrem os olhos
pode ser somente
a primeira investida
depois livrar-nos de entolhos
que ditam caminho.

entre boi de piranha
e bode expiatório
ilusório é tudo
que parece real:
trabalhar é nobre,
palavra de deus
acumular capital
pros teus filhos,
pros meus

o mundo é o que é
não o que parece ser
verdade absoluta
é criação pra enganar você

pulei do penhasco
chamado medo
e descobri que sabia voar
daqui do alto
o mundo não é tão opaco
como parece ser lá de baixo

bebi a velocidade da luz
e veloz salvei-me para fora de mim
bendita mania
de olhar entre as frestas.

Alex Moura
Ícaro (Trombando em jeitos)

desde que decidi ser pé no chão
percebi que há mais chão
para meus pés percorrerem
do que pés para percorrer chão

trago fragmentos de mundo
para dentro do apartamento
e minha casa é o mundo
que experimento

com pés no chão
sou turista doméstico
embarco domesticado
para um destino
de nada. obrigado

com a cabeça na lua
e os pés longe do chão
arremeto a razão
e livre de bagagem, de alma nua,
minha casa se torna a rua
de qualquer lugar de qualquer cidade
que mostrar que meus pés foram feitos pra voar.

Alex Moura

sábado, 8 de outubro de 2016

retalhos de gente (Trombando em jeitos)

permito vestígios de quem fui outrora
ninguém vem só e é assim que é
hoje mesmo pela manhã
fui um pouco do celso
lá do primário no início dos oitenta

à tarde num misto entre cecilia
e darín em o segredo dos seus olhos
revelei o local de uma rua
a um desconhecido

em casa lavando o dia de mim
desembaçando o espelho
por conta de vapor e fumaça
notei um dos olhos ausente

saí de manhã voltei diferente.

Alex  Moura

terça-feira, 27 de setembro de 2016

inconstante (Trombando em jeitos)

pé de vento
barco a reboque de vela até não
porque maré é de lua
às vezes de um jeito
às vezes de outro

se hoje pacífico
amanhã choro
um atlântico bravo

depois rio rio rio
até desaguar num mar
nunca navegado por mim.

Alex Moura
Andando chãos (Ser das cidades)

Sou produto do cuspe do mar,
que rejeita pedra e concreto.
Mar é abstrato,
tem trato com metafísica
e contemplação.

Urbano que sou,
esfumaço mais
do que espumo,
ando em calçadas mais
do que em areia,
não deixo pegadas,
quase nunca descalço-me.

Vez por outra,
ao invés de conchas,
piso em merda,
não por pessimismo,
mas naturalidade.
Mais opacos do que úmidos
são os chãos das cidades.

Alex Moura

terça-feira, 20 de setembro de 2016

precisamos falar das chuvas (Trombando em jeitos)

é preciso falar sobre chuvas
e na mesma proporção
senti-las em seus balés
de rasga-céu

na janela do apartamento
experimento
cochichos de nuvem

sentir chuva
não aquela de braços abertos
rodando na praça
mas a de olhos fechados
do mundo pra dentro

daquelas que quando caem
eu saio correndo
e no pé da porta me grito
pra dentro de mim.

Alex Moura

domingo, 18 de setembro de 2016

Onomatopeia de uma bomba-relógio

Ontem mesmo perdi um dente,
assim por descuido e depreciação.
Estou começando a falir, desaparecer,
confirmando o percurso histórico
até não ser.

Alex Moura
Galilei (Trombando em jeitos)

depois que eu vi
que o mundo é redondo
meus olhos me inquiriram:

será que a pupila dilata
para caber o mundo?

Alex Moura
Dexistencialismo

Respirei fundo segredos de alma
e senti frágil o cheiro da morte,
não sei se veio da alma ou do segredo.
Naturalmente sentiria medo,
mas não senti.

Ora! Natural que respirar forte
traga tudo entre vida e morte.
Minha fé é reconhecer o cheiro
no lugar de disfarçar não existir.

Alex Moura

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Notas de um camaleão (Trombando em jeitos)

a inúmeras
interpretações resisto
existo a partir
da conclusão que sou
e vou trombando em jeitos
em aspirações, em agora vai
não vai ou que não sei se foi

tudo é possibilidade de ser
e por ser possibilidade
também não é
mas quando for
um de mim há de saber que é
em detrimento dos outros
que não sei quem sou

porque ser
tem dessas dificuldades mesmo
e nas tentativas erradas
eu sou o erro
tentar é minha ação

o que já sou
é o que me forma
menos as coisas que ainda não fui
e que até hoje não sei quais são.

Alex Moura

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A pauta (Cozinhando o golpe)

Ano a ano
me vem à cabeça Galeano
justificando a existência da utopia.
Rebelde sem doma, o danado dizia
que servia pra caminhar.

Senhor dos dizeres sonhados
e dos sonhos ditos
não imaginava, acredito,
a existência da AEN
que já é utopia que nos faz andar.

Soberano, há sempre pra Galeano
nossa sincera concessão de desculpa;
sem culpa, mestre que era, não sabia
que a AEN está para além da utopia.

Alex Moura
Refúgios elétricos (Ser das cidades)

A periferia como coisa que sobra,
obra em camada de valência,
distante do núcleo
à margem das aparências.

Atônitos, átomos que somos,
perdendo aquilo que tínhamos
nos resta o êxodo dos restos,
refugiados elétricos.
Partimos de um porto de cátions
e embarcamos futuros
em nosso mar de elétrons.

Alex Moura

terça-feira, 6 de setembro de 2016

d(g)ramático (poemas ruins)

Acredito que o poeta
seja um sujeito
que já esteja meio morto,
e aquilo que entende
por vida plena
seja apenas a peleja
entre morte e vida.

No lugar de agente
e senhor da razão,
sofre a ação
dos seus substantivos,
que mortos ganham formas
de verbos vivos:
sua pedra o apedreja,
o mosquito o mosquiteia,
o tempo entempando
enteiando-o na sua teia.

A poesia é o grito
da sobrevida sobre a morte,
com sorte
sobrevive à meia-vida
enquanto os substantivos
suicidam ele.

Alex Moura
devir de cecilia (Trombando em jeitos)

não somos simbiose entre nós
porque simbiose é dependente
e o que me move
é a surpresa de enxergar você
quando não acho a mim

assim, você é mais em você
do que pode ser em mim
e o viço impetuoso reside aí
ter sempre você a descobrir

quando me falto sei que acabo ali
busco você em você mesma
conhecedor de parte de ti
exploro tudo aquilo que você permitir
e me completo com a excitação de saber
que tem mais de você por vir.

Alex Moura

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Essa gente não quer só comida (Cozinhando o golpe)

Calar rancores,
engoli-los como
sermão mostarda.
Tarda agora
o destempero de outrora.
A indignação,

antes pululante nas varandas,
vela um lento dourar

em banho-maria.

Corrupção?
Agora pode! Antes não podia.

Iguarias se amontoam
em despensas generosas,
enquanto a hipocrisia cozinha
no silêncio das panelas.

Alex Moura

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Lembrança (Publicado - Entre o quando e o quase)

O passo gelado de pés
que perseguem lembranças
caminha pra frente,
porque é lá que elas estão.
Quando lembra a dor,
o lembrador passou da dor.

Em relação ao momento,
a lembrança já é posteridade.
Sentir saudade é coisa pro futuro.

Alex Moura

domingo, 31 de julho de 2016

indumentado (trombando em jeitos)

há algum tempo
tenho evitado festas de casamento
nunca condenei união. não!
no entanto exigem armaduras
que guerreiros elegantes desfilam
entre elmos e capas com os quais
nunca comprariam pão

vestidos que não sustentam rotinas
encantam princesas de quatro horas
cinderelamente desconfortáveis
no meio do salão do castelo alugado
tudo pronto pra não dar errado

eu
plebeu
na falta de armadura e nobreza
deserto a batalha vestindo a pobreza
desse trapo que ainda é meu.

Alex Moura

terça-feira, 26 de julho de 2016

desprincípio universal (trombando em jeitos)

a água vai escorrer
para o lado que o copo pender
a água objetiva que é naturalmente anda
para o lado que a natureza manda
agua é por onde por lá por aqui
é universal pra onde ela deve ir

gente, diferente de água,
deveria ir para onde quisesse
mas há muito tempo isso não acontece
tal qual a margem o cano a fresta
a ideologia dominante se presta
a convencer toda a gente
que o poder determina o que é lado
costas e frente

vontade de gente não é universal
ninguém determina o que é real
se é que existe alguma verdade

diferente de água na margem
vontade de gente é liberdade.

Alex Moura

sexta-feira, 22 de julho de 2016

diversidade (Trombando em jeitos)

lustro universos
filosoficamente
menos científicos
do que cosmológicos
meus argumentos
contemplam realidades paralelas
não a esse mundo
mas entre elas, infinitas,
nunca se encontram

desmontam teorias
umas das outras
mas não sabem disso
sequer sabem delas

se tantos universos
teorias e realidades
cabem dentro de mim
tantas cabem
dentro de outros
que é realidade
que não tem mais fim.

Alex Moura

sábado, 16 de julho de 2016

Entreouvidos (Ser das cidades)


O exercício
de preservar diálogo
é posto a prova
dentro do coletivo
Santa Rosa-Passeio.
Sentado,
procurando colar lembranças,
contemplar existência,
essas coisas
que reflexão digerida provoca,
uma conversa indolente,
entre o motorista
e aquela moça da frente,
me traz de volta
para o mundo da gente.

Ensaio
uma insatisfação egoísta,
anacrônica e pessimista,
mas percebo
que a moça e o motorista
existem mais
e estão mais felizes que eu.

Existir,
na maioria das vezes, é isso:
a sabedoria imanente
de uma conversa sem compromisso.
Alex Moura

terça-feira, 12 de julho de 2016

todo dia (Trombando em jeitos)

sapatos de percorrer rotina
calçam pés no chão
pavimentos decorados
viciados
sempre com a mesma dose de dia

experiente de mim
não desprezo experiências
que me enchem de mundo
à noite volto pra casa
um pouco mais e menos do que era
algumas esquinas dobraram
em minha direção
outras não

e assim se fez tempo
naquilo que batizamos vida

amanhã?
saio de novo
e volto aquele que não fui ainda.

Alex Moura

sábado, 9 de julho de 2016

teoria do conhecimento (Trombando em jeitos)

o limite do observável
está para além do que se vê
tudo aquilo
que os sentidos sentem
imediatamente mentem
o que escapa aos olhos
quando se olha?
metafisicamente
quando não há tempo
para mentir
escutar é sinônimo de ouvir?
viver, muito mais do que ser,
é sentir

dos mistérios que cercam
a experiência humana
profana
mais há para saber
do que se sabe
o que é de fato a saudade?
a esperança?
a mágoa e o calafrio?
pra que serve o átomo?
o arrepio?
a margem de um rio e o tempo?
esgotamos as possibilidades
de conhecimento?
mais há para saber do que se sabe.

carregar pr'aquela pessoa
aquele sublime sentimento
será que não é pra isso
que serve o vento?

Alex Moura

sexta-feira, 1 de julho de 2016

monólogo (Trombando em jeitos)

a face da lua
voltada pra baixo
com semblante
de observação na varanda

só eu pareço notá-la
pétala solta no talo do universo

converso com aqueles
que fui antes distantes
parecem que sequer
me conhecem desviam o olhar

grata, só a lua me nota
com olhares inúteis de cura
de uma pretensa depressão futura.

Alex Moura
Astúcia da razão

Acorda astuta a razão do mundo,
se é que dorme por um segundo
na incansável construção de tudo.

Manipulados,
reivindicamos nossa própria razão
e no mercado de certezas incontestes
não sobrevivem aos mais simples testes
de manutenção.

Quanta convicção se combatendo,
convencendo-se somente a si mesmas
tamanho o grito de opinião a esmo.

Alex Moura

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Ao vivo ou não (Publicado - Ser das cidades)

Vulneráveis a todo instante,
câmeras de segurança
não seguram nada,
transmitem para meio mundo
aquilo que não puderam segurar.

Epifania popular achar
que frames de segundos
garantem proteção.
Não!
Câmeras que miram rua
miram vítimas: seja a que morre,
seja a que mata.

Crime, ameaça, insegurança
nascem nos palácios reservados,
as câmeras miram os seus fins
de costas para os seus guardados.

Alex Moura

domingo, 26 de junho de 2016

o velho e o novo (Trombando em jeitos)

às vezes me pego
falando pausadamente
com meu filho
para dar tom de seriedade
tipo coisa da idade

quando fiquei tão sério?

mistério que se perde
no meio da esteira
das obrigações

na besteira
das minhas decisões
meu filho vendo na poça
um oceano
faz do chinelo caravela
almirante lúdico
me manda içar a vela
enquanto toma
o controle do leme

minha alma
afogada na realidade
treme.

Alex Moura

sábado, 25 de junho de 2016

Quão um ser humano afável
em tão pueril idade
poderia com o tempo
enrabugecer?

De onde a máxima
que traz o tormento
no colo de um velho rabugento
é reprodução de realidade?

Não é de hoje, por exemplo,
que maturo
minha monstruosa idade.

Alex Moura

domingo, 19 de junho de 2016

ensurdecedor silêncio do transporte coletivo (trombando em jeitos)

o impronunciado
aquilo que povoa
o pensamento. dentro.
consciência é permanente
nunca para
reflexão coletiva
não-conceito,
mas de um monte
de gente viva
dentro de um coletivo
emanando um monte
de pensamento vivo

congestionando
o metafísico
na simbiose entre tudo
que não se ouve:
de obrigação a lembrança
de frustração a saudade

de volta à realidade
ouvindo e vendo
tudo o que está acontecendo
alienados naquilo
que o ouvido alcança
ignoramos o quanto é urgente
cultivarmos as mensagens
que habitam o silêncio.

Alex Moura

terça-feira, 14 de junho de 2016

Questão de química (Publicado - Entre o quando e o quase)

Viver é acidente, reação química,
fator contribuinte, cenário favorável.
Criando deus para nos criar
encobrimos a sorte de existirmos
e nossas merdas que nos destroem.

Entre a meta e o físico,
o início e o fim,
viver é o quando histórico
que chamam de presente.

Quando formos fósseis,
extinção gradual por acidente,
deus e o diabo, imortais que são,
morrerão com a gente.

Alex Moura
Das vezes de tormento
em que é necessário
sentar, falar e ouvir,
precisamos de alguém
que nos entenda.

Canto de ringue
no meio da contenda.

Bom pra isso é solidão,
tem gente que chama de reflexão.

Alex Moura
quem (trombando em jeitos)

dependo de mim, eu outro
submetendo eu outro a sua vontade.
quando eu mesmo?

outra terça que fui obrigado por mim
a embalar palavras em bloco de rascunho
alternando goles de cerveja de preço reduzido
hoje eu não viria. duvido!

penso em não vir mas eu outro vem
não tenho o menor controle sobre mim
e criando outros eus disfarço a
dependência que tenho de mim mesmo.

Alex Moura

quinta-feira, 9 de junho de 2016

perdidas memórias (Trombando em jeitos)

dedos que não realizaram
folheiam páginas que não
aconteceram

vida é coisa que passa
página é coisa que conta
memória é coisa que guarda

metafísica precisa de dedos
que façam, caso contrário
a vida passa
a página não conta
uma memória que se perdeu

o dedo que nada tem a contar
folheou mais do que viveu.

Alex Moura
   V      (Trombando em jeitos)
S O U 
   U      

lá pelas tantas
das horas das doses da vida
serei um que nunca fui

quando eu for, irei só
quando eu for, serei só

o verbo transita direto
e não sei se serei antes de ir
ou se irei antes de ser
condensa a dúvida na mente
que não dilui

a menos que eu vá ou seja
nunca serei ou irei saber
se fui.

Alex Moura

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Imprevisão (Publicado - Entre o quando e o quase)

As noites, as chuvas,
tão esparsas que se mira um poste aceso
para ter certeza delas.

Chove um frio raro e desloca o pensamento
para um lugar que nunca foi,
para um devir que nunca veio,
frustrando como um sonho bom acordado no meio.

O ruído inspirador é grito de dor de água de chuva
sendo arrastada cano abaixo despencando de calha suja.
Aquela água serviu pra inspirar julgando que não serviria.

Achou que era esgoto, virou poesia.

Alex Moura

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A lembrança que tem o mar (Publicado - Ser das cidades)

Na Baía de Guanabara
coisa rara é ver o limite
que liga esse céu e essa água.

Lá defronte, onde seria o horizonte,
nus de regresso dominavam montes.
Esse céu carregado de nuvens
dialoga com a água opaca
que a Baía mostra.

Essa água carregada de história
dialoga com esse céu
carregado de nuvem, testemunho
e memória.

Alex Moura
impessoal (trombando em jeitos)

muita gente!
no metrô olhares adiados
se evitam num misto de
indiferença e ciência de
individualidade

os frames de entreolhares
oferecem o imagético
o cunho estético para aquém
do ser

como saber quem o quê?
para quê?
sermos é o que tem pra saber.

Alex Moura
Eu quero ter sete bilhões de amigos (Trombando em jeitos)

numa contradição
aos meus surtos sempre adiados
de reclusão
tenho vontade de conhecer todas
as pessoas do mundo

chão de planeta sendo rua
de cidade pequena
uma prosa terrena
no mali ou no japão

todo mundo irmão
confirmando presença
num evento pros mais chegados
em que sete bilhões irão.

Alex Moura

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Na medida do certo,
esperto é quem não julga valor.
Seja o que for,
quem com sentença de juiz?
Testemunhas sobram
para acusar réu
que já nasceu condenado.
Nesse caso,
espelho e teto frágil
têm muito mais  em comum
do que vidro.
Perigo é quem está com a pedra na mão.

Alex Moura

terça-feira, 31 de maio de 2016

Compromisso (Publicado - Entre o quando e o quase)

Ultimamente tem sido frequente
esperar terça para que tudo aconteça.

Sozinho adquiro poderes de mesas de bar:
onipotento-me!
Onipresento-me!
Cruzo o portal para o meu submundo
onde sou demônio e salvação.

Adquiro formas concebidas em ponta de caneta:
sou dois, dez, trinta!

Salvo-me, forte que sou, das minhas próprias fraquezas,
quando salvar-me é submergir, para sempre,
num copo de incertezas.

Alex Moura
Nunca (Publicado - Entre o quando e o quase)

Sempre me demorei.
Afeito a adiamentos
sequer renovo documentos.

Faço quando não se pode mais adiar.
Quando faço!
Vadio, até quando não posso adio.

Vivo sempre com e sempre sem pressa;
num misto de quase ir sou promessa.

Alex Moura
A última noite
da vida de alguém
circunscreve relíquias do que foi
e saudades do que poderia ser.

No dia seguinte,
aquilo que foi postera
e o que não foi postuma,
uma a uma,
confirmando uma realidade
que ficou pra depois.

Alex Moura
alteridade clássica (Trombando em jeitos)

tudo é ponto de vista
disse o sofista
cultura de um
cultura de outro

não, sócrates! disse platão
não, platão! disse aristóteles

universalidade
socrática platônica
aristotélica
esgotava-se já mesmo
naquela de cada um?

alteridade se constrói
tanto na diferença
quanto no comum.

Alex Moura
Nunca vi quem tivesse
esse tamanho.
Nem pessoalmente e poucos
nos livros de História.
Memória que me recorda
crescer junto com ela,
privilégio meu, não dela.

Forte de uma força
que segura tantos.
Prantos por ela secados,
gritos por ela abafados.
Quem há de secar o seu pranto?
Quem há de dividir o seu grito?

Tento controlar o poema,
mas ela domina o assunto,
tão plena, que quando morrer
leva uma família junto.

Alex Moura
Roteiro de um golpe (Cozinhando o golpe)

Apesar da quantidade de spoilers
de quem já tinha visto esse filme,
telespectadores manipulados
em frente a televisores ligados
entoavam uma trilha sonora
de fundo de panela. Parecia novela.

Estrelando um golpista canastrão
que falando em corrupção
queria o roteiro mantido.

E a dúvida que agora povoa as mentes
é saber se o Silêncio dos Inocentes
é hipócrita ou constrangido.

Alex Moura, 29/05/2016
Recortei da madrugada
o barulho que fiz
e colei em uma pálida
página dessa escura manhã.
Manhãs escuras talvez
sejam pra isso: destacar desperdício.

Semanticamente, a pena que
escreve a pena que sente
vem ainda úmida e quente
de tanto potencial transbordado.

Acordei, me percebi errado,
preferia nem ter acordado.

Alex Moura

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Bucólico (Publicado - Ser das cidades)

Retalhos de vida
peregrinando chão de cidade.
O frio do dia assusta pés
que geralmente consomem calçadas.

A cidade, esvaziada de ritmo,
obedece preguiças de outono
e deixa evidente na gente
aquela reflexão que atrasamos
tratar sobre incômodo e sofrimento.

São assim esses dias:
a música média,
o café quente
nas janelas fechadas do apartamento.

Alex Moura
Cárcere (Publicado - Entre o quando e o quase)

Ansiei a idade que tenho,
ancião na carona de conhecer o meu fim
estando ainda no meio.

Ansiei a idade que não terei.
Ansiedade: folha vazia da causa que morrerei.

Contei dias nessa prisão.
Parei quando acabou vida, ainda tinha carvão.

Alex Moura

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Da regra (Publicado - Entre o quando e o quase)

Correr contra a multa do tempo é exercício passivo.
Ativo é o tempo que corre sempre.
Correr contra o tempo é subir correnteza que desce.

Parece que o tempo é a regra, salvo a exceção,


despenca.
Subversivo, que se mantém vivo, flutua.

Alex Moura.
Conhecimento definitivo
é presunção de ser-vivo
que se acha o bicho.
Escuto que metafísica
não se aplica aos sentidos,
talvez só submetida à utopia.
Subversivo que somos
sentimos cheiro de esperança.

Alex Moura
Quem escondeu minha alegria
não sabia que escondia
uma projeção tardia.
Minha alegria, mesmo,
residia na infância.

Protegida pela confiança
nunca se sentiu roubada.

Alex Moura

sábado, 21 de maio de 2016

Inspiração (Publicado - Entre o quando e o quase)

Pálpebra pesada boicota poema
e jogo no peso dos olhos, no tempo das pernas
e na coluna encolhida a culpa que o fim da vida
pede pra si pela carência de inspiração.

Vivo dizendo não pro fim da vida que me refiro;
é lá que mais inspiro, inspiro, inspiro...

Alex Moura

terça-feira, 17 de maio de 2016

Nada a temer (Cozinhando o golpe)

O fio fino da faca do golpe
corta na carne de quem não devia.
Não que antes não houvesse ferida,
mas se foi escolhida,
que se curasse sozinha.

O fio poroso da faca do golpe
corta com ferro de panela vazia,
que para quem quis foi questão
de acústica abafando o grito
da maioria.

Não existe plano ideal,
mas ideal é que se escolha o plano.
Mudar para o plano
de quem não quer planos
é alimentar raposa de barriga vazia.

Não há o que temer, eu ouvi, mas havia.

Alex Moura
imoral (trombando em jeitos)

foi
estudar filosofia
pra cismar
que tenho virtude
saúde? nem ligo
persigo
uma tal de moral
que falaram
que é universal

nunca achei

sofrista que sou
desisti da universalidade
e sigo inventando realidades
pra sonhar mais bonito.

alex moura
Nas leituras,
pra quem tem olhos de ler,
que se faz eventualmente da vida,
há a vida como se quer
e a vida como se é.

Se meu amor por você
depende da realização entre ser e querer
para a exata medida de vida feliz,
apesar da temporalidade do verbo,
nessa vida eu sou o que quis.

Alex Moura
Imprevisto (Publicado - Ser das cidades)

Na insegurança
do mundo moderno
a cigana carente
perguntou para a gente
se havia letras em sua mão.

Alex Moura

sexta-feira, 13 de maio de 2016

quebrando a corrente (trombando em jeitos)

a linha arrebenta
um elo subversivo
deixa a corrente
que continua sem ele
enquanto ele continua elo

o duelo de força entre
elo e corrente
para muita gente
é pior para ele do que para ela

balela!
que quem acha isso
é um monte de elo dela
de olhos no chão
e a cara amarela
inseguros de ser só elo
assim como ele.

Alex Moura
Sentindo a existência (Publicado - Ser das cidades)

Venta na varanda,
tanto que a superfície
da cerveja no copo
se inquieta em espasmos.
Noite posta,
no entanto, nos prédios
que consomem céu
há mais janelas apagadas
do que acesas.
Quieto, quero só observar,
observo, me querendo invisível,
pequeno, imperceptível,
tal qual gato em caixa de sapato.
Tanto não me movo,
que posso me sentir existindo.
Fali na pretensão de grandeza
e foi essa minha maior virtude.

Alex Moura
Meço pressão pra não morrer
e me chamam de demagogo,
suicida sem convicção,
desses que tomam remédios
e deixam o frasco no chão.

Tenho por nada moderação,
dissimulo e ajo como se nada
pudesse me acontecer.
Nunca quis me matar.
Sempre quis morrer.

Alex Moura

terça-feira, 3 de maio de 2016

Conclusão (Publicado - Entre o quando e o quase)

Tive muitas intenções no mundo.
Concluí poucas.
Esse que vocês veem por aí,
grosso modo,
é produto de tudo que concluí.

Triste ideia me olhar no espelho
e concluir que o que vejo
é a imagem daquele que me formou.
Olho nos olhos dele
e vejo que tem pouco de mim no que sou.

Alex Moura
utopia (trombando em jeitos)

A via que não existe
era somente a que a gente via
possível de caminhar.
Muita gente vinha nos alertar:
- Por aí vocês não vão chegar!
Nunca paramos! Firmamos passo!
Segurança de trem em trilho,
disparo de leoa,
que quem caça é ela!

Pouco tempo e já nos seguiam,
com aquela cara de quem tá
com a mão amarela.

Alex Moura
Traçado o plano de ação.
De traçar planos ele era bom.
Só no último
inaugurou dez novidades,
não tinha como dar errado.
Não deu porque não foi testado.
Nunca saberemos se daria ou não.
Ele era bom de planos, não de ação.

Alex Moura
Palavra
que dá trabalho
de pronúncia
é aquela cujo prenúncio
é não trabalhar.
Trava a língua,
ambígua,
sugere um devir
que vai demorar,
enquanto a prática
aperfeiçoa a minha arte
de procrastinar.

Alex Moura

terça-feira, 26 de abril de 2016

Lembranças que percorrem becos (Publicado - Ser das cidades)

Os contornos reais
de uma cidade,
aquilo que de concreto
se vê,
é a cidade em si
ou o que a fez ser?

Concretude!
Até quando pude
considerei cidades
tijolo, avenida, ruela.
Agora, pro bem delas,
olhei-as com olhos-cidade.
Verdades, se existem,
residem no curso da história,
porque cidades são,
mais do que pedra,
memória.

Alex Moura
ser contínuo (Trombando em jeitos)

qual sentido escapa
à consciência?
posso falar e não saber?
posso escutar e não saber?
cheirar, sentir ou ver?

consciência plena
submete ou é submetida?
sente ou é sentida?

quando tudo acabar
minha consciência
não se deve apagar
vai ser atraída pelas
consciências
que ainda estarão a brilhar
e através delas irá ouvir, ver, falar...

Alex Moura

sábado, 23 de abril de 2016

Pseudoausência urbana (Publicado - Ser das cidades)

O que uma sexta
e uma noite reservam:
reservas sociais,
isolamento da verborragia.
Ausente se sente mais
o que presente não seria capaz
pra sentir tudo o que se sentiria.

E o congresso? E a república?
O amor! A paz mundial!
E a semifinal?

Deixa estar. Vamos ver.
Uma mesa de bar
e uma caneta na mão
é o mais ausente
que uma cidade me permite ser.

Alex Moura
Inexorável (Publicado - Entre o quando e o quase)


Toalha
bem no limite
presa na cintura.
Mexendo muito cai.
Eu me vejo me olhando
com essa cara de velho
entrando e saindo do espelho.

Se nunca tivesse me visto
teria consciência de mim?
Às vezes penso que não.
Às vezes penso que sim.

Depressão inútil,
nada disso é preciso,
no fim do reflexo
estamos mais mortos do que Narciso.

Alex Moura
Consciência, pois,
é metafísica?
Meus olhos não veem.
Não cheira. Não pego.
Mas grita, dói
e deixa um puta gosto
de merda na boca.
Consciência pouca
é bobagem,
tem paladar pra te cobrar
qualquer sacanagem.

Alex Moura

terça-feira, 19 de abril de 2016

Sincretismo (Publicado - Entre o quando e o quase)


Eu,
quando cheguei a mim
não sabia o que ia encontrar.
Um eu meu que já me existia
hostilizaria o que iria chegar.

A ideia de Eleia,
de que sou uno, eterno e imutável,
assombra meu eu transmutado,
como se fosse errado dois eus num lugar.

Eu,
sendo rio de Heráclito,
ontem um, hoje outro,
amanhã improvável,
recorro ao sincretismo de mim
pra satisfazer o meu eu imutável.

Alex Moura

terça-feira, 5 de abril de 2016

das lembranças (trombando em jeitos)

Considerando o relativismo,
prefiro falar do lado bom
da saudade.

Linha-rizoma de tempo
que reserva a determinados momentos
urgências de felicidade.

Eu,
estranho no ninho,
peixe fora d'água,
não nego o prazer do momento,
mas ele existe em si e acaba,

no entanto,
mais do que seu instante,
limite que não avança,
prefiro a eterna saudade
do bem-estar que me ficou na lembrança.

Alex Moura

sábado, 2 de abril de 2016

legião (trombando em jeitos)

antes julgava ter uma legião
de mil demônios dentro de mim
e que eles sim determinavam
a minha conduta

hoje
mais sabedor de mim mesmo
tenho certeza que mil demônios
me habitam
mas descobri que sou eu a legião
e é de mim que eles têm medo.

Alex Moura

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Minério (Publicado - Entre o quando e o quase)

Angústia de estar só em mim
e nem assim combater os meus medos,
galopantes tormentos quando limites-represa
transbordam tsunâmicas ansiedades.

Não há como fugir pras montanhas.
Nenhum lugar é alívio seguro.
Não há como subir precipícios,
mas há como deles pular depois de tentar resgatar
lamas de serotonina do meu volume morto.

Absorto, tento extrair a razão,
virtude de aluvião, acalmar o estopim
e voltar pro lugar mais seguro de mim.

Alex Moura

quinta-feira, 31 de março de 2016

Paradoxo (Publicado - Entre o quando e o quase)

Tempos perpétuos passageiros
que sempre chegam ao infinito.
Demoram-se tão rapidamente
que todos os seus nenhum minutos
duram mais de sessenta segundos imediatos.

Ora tudo demora.
Ora tudo é tão rápido.

Espaço, dê espaço ao tempo,
que ele quer, só por um momento, demorar.

Cedo ou nunca;
Agora ou tarde;
é sempre questão de perspectiva.

Alex Moura

quarta-feira, 30 de março de 2016

Contender (Publicado - Entre  o quando e o quase)

Tenho pálpebras ansiosas,
permanecerem abertas
é um pesar demoramento.
Mas eu, sem ser somente pálpebras,
quase que por ironia,
as mantenho abertas durante a noite
tal qual fosse de dia.

Porque mais do que minhas pálpebras
sou viço torto, sinapse combustão,
respiração curta da ansiedade
que me cobra o coração.

- Dormir é luxo quase infantil.
Debocha assim meu eu mais sujo
daquele eu que já dormiu.

Alex Moura

segunda-feira, 28 de março de 2016

Tardio (Publicado - Entre o quando e o quase)

O ócio que agora nos negam.
Placas em led piscando: - Não parem!
O nosso precioso tempo,
quanto mais precioso menos nosso.

Tentamos unir nossas forças,
mas alguém botou preço e as chamou
de trabalho.

Saudade da Antiguidade Clássica,
quando precioso era o tempo ocioso,
que de herança só nos deixaram a rima.

Alex Moura
Confusão (Publicado - Entre o quando e o quase)

O tom que transpassa
a opacidade dos meus concretos,
que já foram secretos,
hoje se sabem mais publicados.

Cansados, os sentidos sentem
o peso de uma metafísica urgente,
gritando clemente: - Acredita em mim!
Os ouvidos, físicos,
não ouvem os metafísicos gritos,
mas aquilo que julgo intuição

ora sim, ora não.

Alex Moura

quinta-feira, 24 de março de 2016

Das falsas virtudes (Publicado - Entre o quando e o quase)

Tive virtudes que ninguém conheceu,
que levaram-me a virtuosos atos
que ninguém viu.

Ter, conhecer, levar ou ver
são ações que não me fizeram
mais virtuoso do que julguei ser.

Sim! Julguei!
Minha virtude é arbitrária,
somente eu acredito tê-la.
Sou mais quem outros viram
do que quem mesmo fui.

Alex Moura

quarta-feira, 23 de março de 2016

E de repente o parto (Trombando em jeitos)

livrei-me das perfeições
oxalá!
que agora sou um velho homem
não terei mais o mundo
que nunca quis conquistar
abdiquei do trono da felicidade
tirei o peso do mundo das costas

vivendo entre perfumes e bostas
vivo como se um fosse outro
perfume não é perfume em si
mas a condição que a ele é dada
bosta só é bosta se assim a vir
senão não é nada

livrei-me das expectativas
que eram depositadas em mim
e negando a condição de feliz
da felicidade dos outros, fui feliz.

Alex Moura

domingo, 20 de março de 2016

Refração (Publicado - Entre o quando e o quase)

Há árvores que dão frutos,
há árvores que dão sombra.
Há, ainda, as que dão frutos e sombra.

Há, também, as árvores que nada dão.
Não dar frutos é mais comum,
não dar sombra não.

Considerando que sombras
dependem de um brilho externo,
em árvores que não dão sombra
eterno é o breu em sua volta que nada reluz.

Repousam aí suas raridades,
que no lugar de sombra, dão luz.

Alex Moura

Subversivos (Publicado - Entre o quando e o quase)

Viver contigo todo dia
como se encontrasse a palavra
mais difícil de uma poesia.

Pular de surpresa no barco de Caronte,
roubar-lhe o remo, vivos,
e remar pro horizonte.

Alex Moura
Pensamentos de um amigo no Além-mar? (Publicado - Entre o quando e o quase)


Notas do Além-mar.
Notícias esparsas e frequentes.
Penso em gente
enquanto trato só com vozes.
Algozes, carência e excesso,
transitam entre carência de estar
e excesso de ser.

Na dialética
entre o ser e o estar,
sou e estou só,
do lado contrário do mar.
Meu celular é o Atlântico,
mas não faz mal, eu hei de voltar;
Sebastião tropical.

Alex Moura
tudo posso na mulher que me fortalece

e por falar em sexo
o frágil não era eu
ou era?
cecilia que sempre teve
um sexo forte
rearranjou paradigmas

deixa que eu faço! fazia
hoje eu não faço! cagava
deixa que eu vou! e ia
hoje eu não vou! não estava

minha matéria
rearranjada pela forma
que cecilia deu
entendeu que o forte não era eu
mas tudo que de mulher havia em mim.

Alex Moura.

sábado, 5 de março de 2016

TOC II

Das trágicas lembranças
neuróticas sinapses,
demoramentos constantes
que secam chão.

"Do que que tu tá falando,
irmão?"

Assim é o não-acontecer
das mentes,
neurônios transamazonicamente
distantes uns dos outros.

Refúgio é pouco,
não se pode se esconder
de pensamentos quando você
é o próprio refúgio deles.

Alex Moura
Eu não me entendo,
assim como não entendo nada.
Às vezes algo faz algum sentido,
daí espocam sorrisos e entusiasmo,
mas é um sentido breve,
crisálida ávida pra se destruir.
Um sentido desconfiado,
uma desconfiança de que fazer
sentido não faz sentido.
Não que a vida só valha a pena
quando tudo é mesmo acaso,
mas nesse caso é quando eu
mais me aguento, e minha vida
deixa de ser demoramento.

Alex Moura
Pré-socrático (Publicado - Ser das cidades)

Foi outro dia
que eu bem vi a Lua,
assim, por trás de um prédio,
que eu vi a Lua.
Ela não me viu, só eu a ela,
foi nesse dia
que eu fui mais que o universo.

Alex Moura
Transmutação 

escamas que escalam peixe
descolam do facão e retomam o mar
antes peixe havia, agora peixe há

ideias que escalam mentes
descolam do passado e retomam já
antes ideia havia, agora ideia há

transmutação da ordem
hora de descolar mentes
pescar ideias e escalar o mar.

Alex Moura

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Tempo (Publicado - Entre o quando e o quase)

O erro do traçado,
a linha imaginária habitada na ideia,
cheia de datas, acertos e erratas.
Viver não é linear, é rizoma.
Não é fila indiana, mas abraço coletivo:
viver assim é o que deixa vivo.

Não é, e assim sabemos,
aquela eterna experiência linda,
mas é contínua e resiste.

Viver tá no gerúndio,
porque estar morrendo é viver ainda.

Alex Moura
Triste é a vida
que é só feliz:
graça, riso, sucesso.
A vida só pode ser
totalmente feliz
com uma tristeza aqui,
um fracasso lá.

Alivia mais do que só respirar
estar sôfrego, recuperar o fôlego
e retomar o ar.

Alex Moura
Unidade de pronto atendimento (Publicado - Ser das cidades)

Abaixo da placa de silêncio,
gritos no hospital público,
de uma criança cuja mãe
não deixa ir ao chão;
enquanto a população,
resignada, indefesa à demora,
continua calada, sem falar nada,
aguardando a sua hora.

Alex Moura
De tristeza ninguém mais chora (Publicado - Ser das cidades)

Já tem som de sonho
vindo do alto desse cordão.
Vestir a fantasia na realidade
e transformar, em majestade,
minorias,
pelo menos por quatro dias.

E quando ao fim
desse sonho cadente
o canto encantado
de um folião contente
atravessa a realidade
e vai propagando,
o cordão segue pra sempre
cantando entre as vielas
de um universo que já
lhe fez muito mal,
e a partir desse dia
as cinzas voaram
e nunca mais deixou
de ser carnaval.

Alex Moura
Todos os mundos (Publicado - Ser das cidades)

O móvel e o estático,
vidas atravessando ruas,
tristezas subindo elevadores.
Alegrias tomando ônibus
e desejos descendo dele.
Preocupações se amontoam
em balcão de bar
e esperanças aguardam
fechar o sinal.

Tudo numa pressa cotidiana,
num andar a mais,
num passo à frente,
dureza de coisa
esmagando gente.

De repente sim e não de repente,
o mundo de cada um é diferente.

Alex Moura
normal (trombando em jeitos)

parto da ideia
que se demora
em contrações
para estar formada

objeto
justificativa
hipótese
conclusão
tudo em formação

demora mesmo
não faz mal
respiro de novo
e parto normal.

Alex Moura

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

limites (trombando em jeitos)

linha doce
dialética entre o real
e o imaginário
linha amarga
simbiose entre a imaginação
e a realidade

que para esconder
seus nomes de verdade
se apelida: vida!

Alex Moura
lapso (poemas ruins)

um pequeno menino
lá daqueles idos distantes
leu tudo o que na vida pode
de leminski a bukowski;
de nietzsche a maiakovski;

dostoiévski? leu
joão cabral? leu
ana cristina cesar? leu

tanto leu
tanto leu
tanto leu
que quando foi escrever
morreu.


Alex Moura

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Das memórias (Publicado - Entre o quando e o quase)

Perdido no inconsciente
pisando em lembranças
que não lembro vivê-las.

Ao vê-las
conheço-me quem nunca fui:
passado, trem, chuva,
tudo desarrumado
em um grande baú de instantes.

Como posso lembrar de antes,
se nem agora me reconheço quem sou?

Recorro às memórias
para lembrar-me o que é viver
e acabo esquecendo que consciência
é muito mais do que ver.

Alex Moura

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Um mal-estar galopante,
a evolução dos sintomas
é mais intensa a cada dia.
Procuro, entre paliativos,
aliviar minha dor
desse mal que não sei qual é.
Para quê?
Seria melhor não saber?

Foi quando, resignado,
me entreguei ao destino,
esqueci o mal e relaxei, enfim.
A partir de então, mais relaxado,
me percebi curado e não senti
mais mal nenhum em mim.

Alex Moura

sábado, 16 de janeiro de 2016

Do processo (Publicado - Entre o quando e o quase)

Produto
de observação,
bruta,
sem limites
que possam domá-la.
Amá-la
depois de depurada
é tão fácil,
que parece errado.
Perfeição
se constrói,
por isso sou dado
à desconstrução,
ao processo,
ao inacabado
sem necessidade
da busca pela coisa
bem feita.

Talvez o fim
não seja o já,
mas o quando,
e nos limites
da arte a amo
ainda imperfeita.

Alex Moura
Não faz sentido
correr contra o tempo
pra realizar imortalidade.
Corre-se contra
a ideia forjada de tempo,
o que não se faz, por exemplo,
também é idade.

Alex Moura
A mira (Cozinhando o golpe)

Se tua ação é definida
pela situação vigie-se
com a possibilidade
de oposição a si mesmo.

A esmo são disparadas
as mais perigosas setas.
Partam de nós,
partam de outros,
diretas e precisas,
só não perfuram poucos.

Quem estaria salvo?
A maioria de nós é alvo.

Alex Moura

sábado, 9 de janeiro de 2016

ser quem for (trombando em jeitos)

sem sucesso nos projetos
que me fariam melhor
desvio-me deles

consciente e inconscientemente

o que no último caso
me priva da dor

e me dedico aos projetos
que simplesmente me fazem
seja como for.

Alex Moura

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

estranho (trombando em jeitos)

nunca quis
quem me entendesse
nunca quis
que me entendessem

mas já que perguntou

sempre fui
sem saber muito
bem quem era
como pode agora
alguém saber quem sou?

Alex Moura

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Fiz pouco
tudo o que tinha
pra fazer na vida.

Essa é a impressão que tenho.
O que não tenho é mais tempo
pra fazer tudo o que tinha pra
fazer na vida.

Enquanto isso vou fazendo
o que, na vida, ainda dá tempo,
e passos os dias, meses e anos
tentando fazer eternos o que são planos.

Alex Moura
Carregando (Publicado - Entre o quando e o quase)


Cheiro de chuva se transforma em promessa:
hoje chove; hoje não;
e esse demoramento só se demora quando se espera.
Quando se esquece,
só vai se dar conta quando sente a chuva que era.

Mas não é assim que é a vida?
Se imagina uma eterna espera
quando na verdade é uma atenção distraída.

Em busca do quase se vive o quando
em meio à espera, atenção e à pressa,
e viver passa a ser confiar
naquele cheiro de chuva como promessa.

Alex Moura