Por onde anda a poesia? (Ser das cidades)
Na rua,
a curtos passos,
vi um balão de gás
vermelho
ziguezagueando
entre os carros
no meio da pista.
Procurei ali a poesia.
Vi um senhor
de suspensórios
conferir tristemente
o obtuso da conta bancária.
Procurei ali a poesia.
Vi um camelô pegar,
ainda no ar,
o papel que voou
da pasta do executivo.
Procurei ali a poesia.
Vi as folhas
caídas ao chão
fugindo insistentemente,
como um pequeno furacão,
da vassoura que um senhor
trazia na mão.
Procurei ali a poesia.
Vi o sinal abrir
para o pedestre
quando não havia
ninguém na calçada,
obrigando a rua
a ficar parada.
Procurei ali a poesia.
Fracassei!
Em nenhum dos casos
achei.
Sinto uma pena
quando me escapa um poema.
Alex Moura
sábado, 10 de dezembro de 2016
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
O limite da metamorfose
Urgência
pra que tudo aconteça
ainda que não se saiba
o que é tudo.
Mas se existe devir
nunca teremos vivido tudo,
porque terá sempre mais
por vir.
O complexo da lagarta:
viver sempre esperando
o casulo
que garantirá uma vida melhor.
Melhor?
Há uma borboleta na lagarta,
mas lagarta alguma
na borboleta, sequer casulo.
Não há devir pra borboleta,
ela sim já viveu tudo.
Alex Moura
Urgência
pra que tudo aconteça
ainda que não se saiba
o que é tudo.
Mas se existe devir
nunca teremos vivido tudo,
porque terá sempre mais
por vir.
O complexo da lagarta:
viver sempre esperando
o casulo
que garantirá uma vida melhor.
Melhor?
Há uma borboleta na lagarta,
mas lagarta alguma
na borboleta, sequer casulo.
Não há devir pra borboleta,
ela sim já viveu tudo.
Alex Moura
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
Corpos quebram (Trombando em jeitos)
faltam detalhes nessa casa
que a esvazia de mim
não há edgar allan poe exposto
demorando seu rosto
nas paredes amarelas e frias
faltam detalhes nesse corpo
que o esvazia de mim
não há bergman tatuado no corte
com a dança da morte
num antebraço cansado
jogo de xadrez que joguei errado
não há todas as bandas
faltam poetas
um mario quintana
que perdi por aí
na contracapa
tinha um haikai que escrevi
falta tanto de mim pra cumprir
vou andando incompleto
faltando pedaço e me convencendo
que realização é ilusão que vendem
pra gente em uma embalagem
que deus fechou
escrito primeiro de abril.
Alex Moura
faltam detalhes nessa casa
que a esvazia de mim
não há edgar allan poe exposto
demorando seu rosto
nas paredes amarelas e frias
faltam detalhes nesse corpo
que o esvazia de mim
não há bergman tatuado no corte
com a dança da morte
num antebraço cansado
jogo de xadrez que joguei errado
não há todas as bandas
faltam poetas
um mario quintana
que perdi por aí
na contracapa
tinha um haikai que escrevi
falta tanto de mim pra cumprir
vou andando incompleto
faltando pedaço e me convencendo
que realização é ilusão que vendem
pra gente em uma embalagem
que deus fechou
escrito primeiro de abril.
Alex Moura
Demoramento
O que havia antes do tempo
era o próprio tempo,
posto que é antes.
Pra trás
o eterno também
se demora em instantes.
O tempo enquanto criador,
nunca enquanto criatura.
Nada é antes,
porque antes é ele,
é nele que a realidade dura.
Criaturas passam.
Lembra semana passada
quando conversamos
sobre chorar de saudade?
Mas o tempo não.
O tempo sempre existiu.
Sempre existiu.
S e m p r e.
Alex Moura
O que havia antes do tempo
era o próprio tempo,
posto que é antes.
Pra trás
o eterno também
se demora em instantes.
O tempo enquanto criador,
nunca enquanto criatura.
Nada é antes,
porque antes é ele,
é nele que a realidade dura.
Criaturas passam.
Lembra semana passada
quando conversamos
sobre chorar de saudade?
Mas o tempo não.
O tempo sempre existiu.
Sempre existiu.
S e m p r e.
Alex Moura
domingo, 20 de novembro de 2016
No seu tempo
Quanto há pra viver
nos dias que levantamos
sem querer saber as horas?
Como podemos ser
sem controlar o tempo
que nos inventaram?
Dormir quando for
e não porque o céu desceu.
E se tiver que acordar
quando somente lojas
de conveniência respiram,
viva a partir dali.
O ponteiro do relógio arbitrário
passa sempre duas vezes
no mesmo lugar durante o
que nos ensinaram ser dia.
E tudo bem
se dormir quando acordava.
E tudo bem se acordar quando dormia.
Alex Moura
Quanto há pra viver
nos dias que levantamos
sem querer saber as horas?
Como podemos ser
sem controlar o tempo
que nos inventaram?
Dormir quando for
e não porque o céu desceu.
E se tiver que acordar
quando somente lojas
de conveniência respiram,
viva a partir dali.
O ponteiro do relógio arbitrário
passa sempre duas vezes
no mesmo lugar durante o
que nos ensinaram ser dia.
E tudo bem
se dormir quando acordava.
E tudo bem se acordar quando dormia.
Alex Moura
sábado, 19 de novembro de 2016
Domesticamos o tempo (Trombando em jeitos)
os dias têm personalidade
hoje terça-feira tem pegada
de segunda marcha
já houve o arranque
em velocidade baixa
o percurso temporal dispara
enquanto cortamos a estrada
diz para enquanto cortamos
os pulsos na segunda metade
de uma quinta-feira
besteira! fomos nós quem
batizamos os dias e fatiamos
o tempo
a noite não é antes
e nem depois, só é escura
as voltas que o ponteiro dá
são forjadas
girar no sentido horário
sempre me pareceu arbitrário
leva o mesmo tempo
girar ao contrário
solstício equinócio eclipse lunar
mais do que trazer um novo dia
o sol se encarrega de clarear.
nunca houve um sétimo dia
para deus descansar.
Alex Moura
os dias têm personalidade
hoje terça-feira tem pegada
de segunda marcha
já houve o arranque
em velocidade baixa
o percurso temporal dispara
enquanto cortamos a estrada
diz para enquanto cortamos
os pulsos na segunda metade
de uma quinta-feira
besteira! fomos nós quem
batizamos os dias e fatiamos
o tempo
a noite não é antes
e nem depois, só é escura
as voltas que o ponteiro dá
são forjadas
girar no sentido horário
sempre me pareceu arbitrário
leva o mesmo tempo
girar ao contrário
solstício equinócio eclipse lunar
mais do que trazer um novo dia
o sol se encarrega de clarear.
nunca houve um sétimo dia
para deus descansar.
Alex Moura
terça-feira, 15 de novembro de 2016
Da terra à graxa (Ser das cidades)
A força muscular
que faz o pé pedalar
as correntes da bicicleta
corta a resistência do ar.
A corrente e o músculo.
A bicicleta e o ar.
O pé e o pedal.
Conflito eufêmico
entre o mundo de ferro
e o natural.
A coexistência
entre o que já estava
e o que foi criado.
A dialética in natura
contradita à arquitetura.
Quando venta o ventilador
o mecânico ficou selvagem
ou a natureza domesticou?
Numa constante
disputa de espaço
passeiam os dias
cheios de flor e cimento,
entulho e excremento
habitando realidade.
Pedalei pelas veias
da cidade,
chuva molhando
descalço e calçado,
tanto que ao entrar molhado
no banco mais perto de casa
a porta-giratória calou-se
para a parte de céu e de mar
que eu trouxe.
Alex Moura
A força muscular
que faz o pé pedalar
as correntes da bicicleta
corta a resistência do ar.
A corrente e o músculo.
A bicicleta e o ar.
O pé e o pedal.
Conflito eufêmico
entre o mundo de ferro
e o natural.
A coexistência
entre o que já estava
e o que foi criado.
A dialética in natura
contradita à arquitetura.
Quando venta o ventilador
o mecânico ficou selvagem
ou a natureza domesticou?
Numa constante
disputa de espaço
passeiam os dias
cheios de flor e cimento,
entulho e excremento
habitando realidade.
Pedalei pelas veias
da cidade,
chuva molhando
descalço e calçado,
tanto que ao entrar molhado
no banco mais perto de casa
a porta-giratória calou-se
para a parte de céu e de mar
que eu trouxe.
Alex Moura
terça-feira, 8 de novembro de 2016
vendaval (trombando em jeitos)
para que
controlar ímpeto?
deixem as crianças
gritarem suas grandes
ideias de gente grande.
poeira só assenta
em mente vazia
em mente ocupada
sonho e realidade
permanecem
tanto um quanto outro
acontecem
dependendo
da ordem vigente
melhor pra gente
é bagunçar.
ocupar e arrumar
de outro jeito.
errado pra eles
pra gente é direito
atmosfera de mar revoltado
errado era o lado
que o vento ventava
sempre pra onde
a gente não estava.
mas agora
quem venta o vento
é a gente
que zune à janela
um som diferente:
- ocupa tuuuuuuudo! -
até ontem
esse vento era mudo
mas agora
ele zuniu mais forte
ventar é preciso
de conta-gotas
não saem maremotos.
Alex Moura
para que
controlar ímpeto?
deixem as crianças
gritarem suas grandes
ideias de gente grande.
poeira só assenta
em mente vazia
em mente ocupada
sonho e realidade
permanecem
tanto um quanto outro
acontecem
dependendo
da ordem vigente
melhor pra gente
é bagunçar.
ocupar e arrumar
de outro jeito.
errado pra eles
pra gente é direito
atmosfera de mar revoltado
errado era o lado
que o vento ventava
sempre pra onde
a gente não estava.
mas agora
quem venta o vento
é a gente
que zune à janela
um som diferente:
- ocupa tuuuuuuudo! -
até ontem
esse vento era mudo
mas agora
ele zuniu mais forte
ventar é preciso
de conta-gotas
não saem maremotos.
Alex Moura
sábado, 5 de novembro de 2016
A santa barca pro inferno (Ser das cidades)
A passos largos
correm os atrasados
do embarque.
Um xis vermelho
pisca sua última
urgência alarmada,
mas parece uma
cruz tombada,
assim como tombam
as esperanças
de quem queria
logo cruzar o mar.
Não corri,
um dos poucos,
e o velho marujo do cais,
julgando trazer
um alento
que me satisfaz,
balbuciou
para poucos ouvidos
que era aquela
a barca do inferno,
e que depois
do horizonte,
lá onde
reside a utopia,
ela despencaria
do mar.
Que inveja!
Dado o paraíso
moderno,
era na barca
que eu queria estar.
Alex Moura
A passos largos
correm os atrasados
do embarque.
Um xis vermelho
pisca sua última
urgência alarmada,
mas parece uma
cruz tombada,
assim como tombam
as esperanças
de quem queria
logo cruzar o mar.
Não corri,
um dos poucos,
e o velho marujo do cais,
julgando trazer
um alento
que me satisfaz,
balbuciou
para poucos ouvidos
que era aquela
a barca do inferno,
e que depois
do horizonte,
lá onde
reside a utopia,
ela despencaria
do mar.
Que inveja!
Dado o paraíso
moderno,
era na barca
que eu queria estar.
Alex Moura
quando dioniso gritou (Trombando em jeitos)
apolo que fui
por um momento
organizei
caguei regra limpei
e quando baguncei
fui livre pra não arrumar.
gastei meu tempo
com o que mais preciso
livre da ordem fui dioniso.
quem manda em mim
é o meu eu corporal
que submete à espera
o racional
nunca vesti
um par de meia igual
minhas frases terminam
com etcetera e tal
deixo no ar
e do bacanal
vou direto pro bar.
Alex Moura
apolo que fui
por um momento
organizei
caguei regra limpei
e quando baguncei
fui livre pra não arrumar.
gastei meu tempo
com o que mais preciso
livre da ordem fui dioniso.
quem manda em mim
é o meu eu corporal
que submete à espera
o racional
nunca vesti
um par de meia igual
minhas frases terminam
com etcetera e tal
deixo no ar
e do bacanal
vou direto pro bar.
Alex Moura
terça-feira, 1 de novembro de 2016
privado (Trombando em jeitos)
prisão domiciliar
quando sou
meu próprio domicílio.
sujeito apenas
às brisas que
me entram pelos olhos
quando estão abertos
se venta muito fecho.
perco a paisagem.
fora de mim há o mundo
que não poderei
mais vislumbrar.
dentro de mim
cama por fazer
louça na pia
cinzeiro cheio
e cheiro de lata vazia
comida vencida
na geladeira
copo vazio na mesa
na beira
um solavanco cai
durmo no meio
de um filme
desmarco a página
de um livro.
quando me perdi
pela última vez?
essa chuva
parece que vai durar
um mês.
para evitar que alague
abro minhas janelas
para não encharcar
tudo o que não fiz
e o peso da chuva de mim
transborda e escorre
por cima do meu nariz
preciso sair daqui
abandonar o que resta
de mim antes do fim.
apostar ir embora
apesar de gostar
mais de chuva
do que do sol
que queima lá fora.
Alex Moura
prisão domiciliar
quando sou
meu próprio domicílio.
sujeito apenas
às brisas que
me entram pelos olhos
quando estão abertos
se venta muito fecho.
perco a paisagem.
fora de mim há o mundo
que não poderei
mais vislumbrar.
dentro de mim
cama por fazer
louça na pia
cinzeiro cheio
e cheiro de lata vazia
comida vencida
na geladeira
copo vazio na mesa
na beira
um solavanco cai
durmo no meio
de um filme
desmarco a página
de um livro.
quando me perdi
pela última vez?
essa chuva
parece que vai durar
um mês.
para evitar que alague
abro minhas janelas
para não encharcar
tudo o que não fiz
e o peso da chuva de mim
transborda e escorre
por cima do meu nariz
preciso sair daqui
abandonar o que resta
de mim antes do fim.
apostar ir embora
apesar de gostar
mais de chuva
do que do sol
que queima lá fora.
Alex Moura
É a primavera que já começou (Cozinhando o golpe)
Primaveras
são promissoras,
no entanto,
há umas tais
que são ainda mais
do que outras.
Primaveras
em que flores
brotam das pontas
dos dedos,
de todos os lados.
Sufocam medos
que receiam
o mais do mesmo
e a estagnação.
Se primavera é renovação
a semente oculta
brota num processo
de fertilidade,
que garante
a diversidade das cores.
Flores que nascem
de boa raiz
fazem tão bem ao nariz
que até o aroma
é visível.
Se primavera
é estação de mudança,
plante:
porque mudar é possível.
Alex Moura
Primaveras
são promissoras,
no entanto,
há umas tais
que são ainda mais
do que outras.
Primaveras
em que flores
brotam das pontas
dos dedos,
de todos os lados.
Sufocam medos
que receiam
o mais do mesmo
e a estagnação.
Se primavera é renovação
a semente oculta
brota num processo
de fertilidade,
que garante
a diversidade das cores.
Flores que nascem
de boa raiz
fazem tão bem ao nariz
que até o aroma
é visível.
Se primavera
é estação de mudança,
plante:
porque mudar é possível.
Alex Moura
terça-feira, 25 de outubro de 2016
eu vi o tempo (Trombando em jeitos)
tive uma experiência
com o tempo:
por um momento
fiquei parado
entre aquele que
acabei de ser
e aquele
que ainda seria.
preso na letargia
tentando me perceber
no instantâneo
underground de mim
subterrâneo
percebia quem já me existia.
difícil se compreender
no presente
quando julgamos que sim
já estamos à frente
fluxo que não se prende
o tempo passa
não fica.
sempre!
o tempo que fica
já passou
e se passa é tempo.
passa
tempo.
Alex Moura
tive uma experiência
com o tempo:
por um momento
fiquei parado
entre aquele que
acabei de ser
e aquele
que ainda seria.
preso na letargia
tentando me perceber
no instantâneo
underground de mim
subterrâneo
percebia quem já me existia.
difícil se compreender
no presente
quando julgamos que sim
já estamos à frente
fluxo que não se prende
o tempo passa
não fica.
sempre!
o tempo que fica
já passou
e se passa é tempo.
passa
tempo.
Alex Moura
Entre o sol, a chuva e a lua (Trombando em jeitos)
Durante toda minha vida
julguei gostar de sol.
Descobri aí
que julgar é errado,
porque, de fato, nunca gostei,
sempre vivi da chuva.
Paisagem turva,
que não se apresenta
de uma só vez,
você vai descobrindo
durante um dia, semana, um mês.
Dependendo do vento, três.
Carioca que sou,
o verão sempre
me foi imposto:
- Bora pra praia!
- Qual praia?
- Qual posto?
E sempre fui indo,
me construindo
aquele que nunca fui,
mas os dias passam,
meses e anos,
e mais seguro
já esboço meus planos.
Dado à boêmia
ninguém desconfia
do meu apreço pela reclusão.
É proibido, no Rio, ter depressão?
Sou morno à temperatura quente,
diferente, na rua busco o abrigo.
Abrigado busco a rua.
Para além da chuva,
minha treta com sol é a lua.
Alex Moura
Durante toda minha vida
julguei gostar de sol.
Descobri aí
que julgar é errado,
porque, de fato, nunca gostei,
sempre vivi da chuva.
Paisagem turva,
que não se apresenta
de uma só vez,
você vai descobrindo
durante um dia, semana, um mês.
Dependendo do vento, três.
Carioca que sou,
o verão sempre
me foi imposto:
- Bora pra praia!
- Qual praia?
- Qual posto?
E sempre fui indo,
me construindo
aquele que nunca fui,
mas os dias passam,
meses e anos,
e mais seguro
já esboço meus planos.
Dado à boêmia
ninguém desconfia
do meu apreço pela reclusão.
É proibido, no Rio, ter depressão?
Sou morno à temperatura quente,
diferente, na rua busco o abrigo.
Abrigado busco a rua.
Para além da chuva,
minha treta com sol é a lua.
Alex Moura
domingo, 23 de outubro de 2016
A verdade é dura... (Cozinhando o golpe)
Há uma cortina de fumaça
entre as sinapses do cidadão
e a paisagem
de janela de televisão.
Realidade com horário
e programação.
Há quem julgue
que a posse do controle remoto
seja conceito de liberdade
e o domínio de um botão
te leve à verdade.
Mentira!
Precisamos te contar
um segredo:
o medo de descobrir
que esse deus mentiu
não permite confirmar
que o mundo exibido
nunca existiu.
Andarilho que vagueia
entre o intervalo
de canal aberto e fechado:
você passeou pelo globo errado.
Arrebenta a corrente,
sai da caverna e mire o sol
com seus próprios olhos,
entolhos não resistem à liberdade.
A realidade, agora,
é o que você quer que seja.
Não veja! Não!
Não veja realidade
em capa de revista,
ela nunca esteve lá,
nunca te quis protagonista.
Insista na sua transmissão.
Em um mundo mediado por razão
é você quem define
as cenas do próximo capítulo.
Alex Moura
Há uma cortina de fumaça
entre as sinapses do cidadão
e a paisagem
de janela de televisão.
Realidade com horário
e programação.
Há quem julgue
que a posse do controle remoto
seja conceito de liberdade
e o domínio de um botão
te leve à verdade.
Mentira!
Precisamos te contar
um segredo:
o medo de descobrir
que esse deus mentiu
não permite confirmar
que o mundo exibido
nunca existiu.
Andarilho que vagueia
entre o intervalo
de canal aberto e fechado:
você passeou pelo globo errado.
Arrebenta a corrente,
sai da caverna e mire o sol
com seus próprios olhos,
entolhos não resistem à liberdade.
A realidade, agora,
é o que você quer que seja.
Não veja! Não!
Não veja realidade
em capa de revista,
ela nunca esteve lá,
nunca te quis protagonista.
Insista na sua transmissão.
Em um mundo mediado por razão
é você quem define
as cenas do próximo capítulo.
Alex Moura
a paciência do não-lugar (trombando em jeitos)
ainda existimos
no compasso da espera
no trânsito congestionado
em cima da guanabara
pra chegar do outro lado.
tenho uma vida
nesse lado da ponte
que continua no lado de lá
mas como existir
no caminho parado
disfarçado de não-lugar?
tenho o mundo
ao alcance da mão
na insistência ociosa
do celular
mas no meio da ponte
eu não posso vivê-lo
só se eu chegar ou voltar.
desisto da ansiedade
considero o entorno
e observo que existe
um pouco de mim
nesse eu que vive na ponte
que aguarda estoico assim
brincando de juntar o cinza
do céu e do mar no horizonte
como é bom me encontrar
comigo que vim
comigo que estou
e com o que vai chegar.
o que estou agora
não poderá mais escrever
porque o trânsito começou a andar.
Alex Moura
ainda existimos
no compasso da espera
no trânsito congestionado
em cima da guanabara
pra chegar do outro lado.
tenho uma vida
nesse lado da ponte
que continua no lado de lá
mas como existir
no caminho parado
disfarçado de não-lugar?
tenho o mundo
ao alcance da mão
na insistência ociosa
do celular
mas no meio da ponte
eu não posso vivê-lo
só se eu chegar ou voltar.
desisto da ansiedade
considero o entorno
e observo que existe
um pouco de mim
nesse eu que vive na ponte
que aguarda estoico assim
brincando de juntar o cinza
do céu e do mar no horizonte
como é bom me encontrar
comigo que vim
comigo que estou
e com o que vai chegar.
o que estou agora
não poderá mais escrever
porque o trânsito começou a andar.
Alex Moura
quinta-feira, 20 de outubro de 2016
ser ou não ser (Trombando em jeitos)
levei décadas
até agora quatro
para ser mais exato
para me tornar quem sou
e as mesmas quatro
para me tornar quem não sou
há muito de nós
em quem não somos
sou eu
no meu café sem açúcar
mas sou pela falta do açúcar
e não sou na sua presença
não estar no café doce
também me faz ser eu
mesmo que não fosse.
ser e não ser
mais unidos que separados
distância que amarra
um laço forte
eu sou e não sou.
i am not!
haverá sempre sua ausência de ser
quando eu for à américa
e não lembrar de você.
Alex Moura
levei décadas
até agora quatro
para ser mais exato
para me tornar quem sou
e as mesmas quatro
para me tornar quem não sou
há muito de nós
em quem não somos
sou eu
no meu café sem açúcar
mas sou pela falta do açúcar
e não sou na sua presença
não estar no café doce
também me faz ser eu
mesmo que não fosse.
ser e não ser
mais unidos que separados
distância que amarra
um laço forte
eu sou e não sou.
i am not!
haverá sempre sua ausência de ser
quando eu for à américa
e não lembrar de você.
Alex Moura
terça-feira, 18 de outubro de 2016
o menino e o mundo (Trombando em jeitos)
conhecer o que há
do mundo pra dentro
imerso em tempo
lugar e gente
passado e presente
passados a limpo
olimpo sujo de deuses
sujeira de deuses que eu limpo
agora que perdi o metrô
no subsolo desse mundo
esgotado de passado e presente
de gente e lugar
corro pro lado contrário do trem
fugindo de deuses pra limpar.
esse mundo de agora
anda tão sério
golpe barranco minério.
não tratarei mais
das coisas do mundo
despesa, trabalho, sustento;
da conta de luz fiz cata-vento
dancei na chuva de terno
e gravata...
dos outros, roto,
só tenho roupa barata.
esse mundo de agora
anda tão sério
que mesmo não tendo
mais trato com ele
me submete mesmo assim
minha roupa e minha pele
tão cheias de mundo
e morros e mares
com tão pouco de mim.
Alex Moura
conhecer o que há
do mundo pra dentro
imerso em tempo
lugar e gente
passado e presente
passados a limpo
olimpo sujo de deuses
sujeira de deuses que eu limpo
agora que perdi o metrô
no subsolo desse mundo
esgotado de passado e presente
de gente e lugar
corro pro lado contrário do trem
fugindo de deuses pra limpar.
esse mundo de agora
anda tão sério
golpe barranco minério.
não tratarei mais
das coisas do mundo
despesa, trabalho, sustento;
da conta de luz fiz cata-vento
dancei na chuva de terno
e gravata...
dos outros, roto,
só tenho roupa barata.
esse mundo de agora
anda tão sério
que mesmo não tendo
mais trato com ele
me submete mesmo assim
minha roupa e minha pele
tão cheias de mundo
e morros e mares
com tão pouco de mim.
Alex Moura
último solo de ian curtis (Trombando em jeitos)
gosto dos dias
que conseguimos
segurar o cinza que está no ar
não me agrada saber
que o sol brilha
para além das nuvens
nos dias de céu trancado
roubei a chave de pedro
e me tranquei
do lado de fora do céu
o sol que brilhe pra lá
hoje só reconheço rumores
das alegrias que tentei preservar.
mais cerveja ansiedade
e cigarro em pista de bar
a epilepsia de curtis
me fez dançar
todos os meus fantasmas
povoam as margens
do espaço que ocupo no mundo
mas só tomei consciência
depois que a fumaça
modelou um vulto
daquilo que sempre esteve oculto
hoje
danço brinco
choro reclamo
pulo e resmungo com eles
sei seus nomes um por um
quando estou só comigo
eles gritam eu apareço
e distante do que forjo ser
me reconheço
sou quem não sabem
um pouco menos
de qualquer coisa
e um pouco mais.
os dias cinzas
sempre me agradaram
como nenhum outro é capaz.
Alex Moura
gosto dos dias
que conseguimos
segurar o cinza que está no ar
não me agrada saber
que o sol brilha
para além das nuvens
nos dias de céu trancado
roubei a chave de pedro
e me tranquei
do lado de fora do céu
o sol que brilhe pra lá
hoje só reconheço rumores
das alegrias que tentei preservar.
mais cerveja ansiedade
e cigarro em pista de bar
a epilepsia de curtis
me fez dançar
todos os meus fantasmas
povoam as margens
do espaço que ocupo no mundo
mas só tomei consciência
depois que a fumaça
modelou um vulto
daquilo que sempre esteve oculto
hoje
danço brinco
choro reclamo
pulo e resmungo com eles
sei seus nomes um por um
quando estou só comigo
eles gritam eu apareço
e distante do que forjo ser
me reconheço
sou quem não sabem
um pouco menos
de qualquer coisa
e um pouco mais.
os dias cinzas
sempre me agradaram
como nenhum outro é capaz.
Alex Moura
terça-feira, 11 de outubro de 2016
as luas de Júpiter (Trombando em jeitos)
postei na face da lua
tudo o que eu queria
compartilhar com a rua
de mim de nós
estar eu e o mundo
também é estar a sóis.
sabemos de nada
ao nosso respeito
trombando em jeitos
sempre sou mundo
às vezes sou outros
nunca sou eu
não existe eu universal
incontestável
pleno e imutável.
júpiter tem mais de sessenta luas
mas não tem ruas
sequer esquinas
meu mundo só tem uma lua
mas um de mim
pra cada rua
porque o que eu mais sei
é ser gente
difícil é entender
cada eu diferente
postei na face da lua
tudo o que eu queria
compartilhar com a rua
de mim de nós
estar eu e o mundo
também é estar a sóis.
sabemos de nada
ao nosso respeito
trombando em jeitos
sempre sou mundo
às vezes sou outros
nunca sou eu
não existe eu universal
incontestável
pleno e imutável.
júpiter tem mais de sessenta luas
mas não tem ruas
sequer esquinas
meu mundo só tem uma lua
mas um de mim
pra cada rua
porque o que eu mais sei
é ser gente
difícil é entender
cada eu diferente
uma gente é abstrata
a outra é concreta.
a outra é concreta.
Pessoa entendeu todos dele,
mas era poeta.
Alex Moura
mas era poeta.
Alex Moura
o fim do eldorado (Trombando em jeitos)
tirei o peso das costas
de alguém
e joguei na costa atlântica
de mim.
tupiniquim
tem costas pesadas
sertão praia
serras-peladas.
ontem
eu traí o mar
traio o mar
quando não vou vê-lo
na clara tentativa
de esquecê-lo.
da lembrança do mar
me ficou a ressaca
rolha e taça caída
na mesa
uma poça de vinho
apagou a vela acesa.
escureceu o jantar
esfriou a casa
escorreguei
na poça de vinho que vaza.
segurei na esperança
quase caí
esperar cansa
quando não se sabe
pra onde ir.
eu tupiniquim;
eu tu;
tupiniquem?
tupininguém.
tirei o peso das costas
de alguém
e joguei na costa atlântica
de mim.
tupiniquim
tem costas pesadas
sertão praia
serras-peladas.
ontem
eu traí o mar
traio o mar
quando não vou vê-lo
na clara tentativa
de esquecê-lo.
da lembrança do mar
me ficou a ressaca
rolha e taça caída
na mesa
uma poça de vinho
apagou a vela acesa.
escureceu o jantar
esfriou a casa
escorreguei
na poça de vinho que vaza.
segurei na esperança
quase caí
esperar cansa
quando não se sabe
pra onde ir.
eu tupiniquim;
eu tu;
tupiniquem?
tupininguém.
fim.
Alex Moura
Alex Moura
Calendário
Todos os dias perseguem
o trinta e um de dezembro
e só o alcançam
no último dia do ano.
Encarcerado
no fim do calendário
retoma de novo o plano
no dia primeiro
e foge pra bem longe
de janeiro.
A ideia forjada de tempo
consome vidas,
some com vidas
cobra horas de vidas
que já devem tanto.
Diariamente
toda folha de diário mente.
Alex Moura
Todos os dias perseguem
o trinta e um de dezembro
e só o alcançam
no último dia do ano.
Encarcerado
no fim do calendário
retoma de novo o plano
no dia primeiro
e foge pra bem longe
de janeiro.
A ideia forjada de tempo
consome vidas,
some com vidas
cobra horas de vidas
que já devem tanto.
Diariamente
toda folha de diário mente.
Alex Moura
o mundo não é tão opaco (Trombando em jeitos)
abrir as cortinas
que nos cobrem os olhos
pode ser somente
a primeira investida
depois livrar-nos de entolhos
que ditam caminho.
entre boi de piranha
e bode expiatório
ilusório é tudo
que parece real:
trabalhar é nobre,
palavra de deus
acumular capital
pros teus filhos,
pros meus
o mundo é o que é
não o que parece ser
verdade absoluta
é criação pra enganar você
pulei do penhasco
chamado medo
e descobri que sabia voar
daqui do alto
o mundo não é tão opaco
como parece ser lá de baixo
bebi a velocidade da luz
e veloz salvei-me para fora de mim
bendita mania
de olhar entre as frestas.
Alex Moura
abrir as cortinas
que nos cobrem os olhos
pode ser somente
a primeira investida
depois livrar-nos de entolhos
que ditam caminho.
entre boi de piranha
e bode expiatório
ilusório é tudo
que parece real:
trabalhar é nobre,
palavra de deus
acumular capital
pros teus filhos,
pros meus
o mundo é o que é
não o que parece ser
verdade absoluta
é criação pra enganar você
pulei do penhasco
chamado medo
e descobri que sabia voar
daqui do alto
o mundo não é tão opaco
como parece ser lá de baixo
bebi a velocidade da luz
e veloz salvei-me para fora de mim
bendita mania
de olhar entre as frestas.
Alex Moura
Ícaro (Trombando em jeitos)
desde que decidi ser pé no chão
percebi que há mais chão
para meus pés percorrerem
do que pés para percorrer chão
trago fragmentos de mundo
para dentro do apartamento
e minha casa é o mundo
que experimento
com pés no chão
sou turista doméstico
embarco domesticado
para um destino
de nada. obrigado
com a cabeça na lua
e os pés longe do chão
arremeto a razão
e livre de bagagem, de alma nua,
minha casa se torna a rua
de qualquer lugar de qualquer cidade
que mostrar que meus pés foram feitos pra voar.
Alex Moura
desde que decidi ser pé no chão
percebi que há mais chão
para meus pés percorrerem
do que pés para percorrer chão
trago fragmentos de mundo
para dentro do apartamento
e minha casa é o mundo
que experimento
com pés no chão
sou turista doméstico
embarco domesticado
para um destino
de nada. obrigado
com a cabeça na lua
e os pés longe do chão
arremeto a razão
e livre de bagagem, de alma nua,
minha casa se torna a rua
de qualquer lugar de qualquer cidade
que mostrar que meus pés foram feitos pra voar.
Alex Moura
sábado, 8 de outubro de 2016
retalhos de gente (Trombando em jeitos)
permito vestígios de quem fui outrora
ninguém vem só e é assim que é
hoje mesmo pela manhã
fui um pouco do celso
lá do primário no início dos oitenta
à tarde num misto entre cecilia
e darín em o segredo dos seus olhos
revelei o local de uma rua
a um desconhecido
em casa lavando o dia de mim
desembaçando o espelho
por conta de vapor e fumaça
notei um dos olhos ausente
saí de manhã voltei diferente.
Alex Moura
permito vestígios de quem fui outrora
ninguém vem só e é assim que é
hoje mesmo pela manhã
fui um pouco do celso
lá do primário no início dos oitenta
à tarde num misto entre cecilia
e darín em o segredo dos seus olhos
revelei o local de uma rua
a um desconhecido
em casa lavando o dia de mim
desembaçando o espelho
por conta de vapor e fumaça
notei um dos olhos ausente
saí de manhã voltei diferente.
Alex Moura
terça-feira, 27 de setembro de 2016
Andando chãos (Ser das cidades)
Sou produto do cuspe do mar,
que rejeita pedra e concreto.
Mar é abstrato,
tem trato com metafísica
e contemplação.
Urbano que sou,
esfumaço mais
do que espumo,
ando em calçadas mais
do que em areia,
não deixo pegadas,
quase nunca descalço-me.
Vez por outra,
ao invés de conchas,
piso em merda,
não por pessimismo,
mas naturalidade.
Mais opacos do que úmidos
são os chãos das cidades.
Alex Moura
Sou produto do cuspe do mar,
que rejeita pedra e concreto.
Mar é abstrato,
tem trato com metafísica
e contemplação.
Urbano que sou,
esfumaço mais
do que espumo,
ando em calçadas mais
do que em areia,
não deixo pegadas,
quase nunca descalço-me.
Vez por outra,
ao invés de conchas,
piso em merda,
não por pessimismo,
mas naturalidade.
Mais opacos do que úmidos
são os chãos das cidades.
Alex Moura
terça-feira, 20 de setembro de 2016
precisamos falar das chuvas (Trombando em jeitos)
é preciso falar sobre chuvas
e na mesma proporção
senti-las em seus balés
de rasga-céu
na janela do apartamento
experimento
cochichos de nuvem
sentir chuva
não aquela de braços abertos
rodando na praça
mas a de olhos fechados
do mundo pra dentro
daquelas que quando caem
eu saio correndo
e no pé da porta me grito
pra dentro de mim.
Alex Moura
é preciso falar sobre chuvas
e na mesma proporção
senti-las em seus balés
de rasga-céu
na janela do apartamento
experimento
cochichos de nuvem
sentir chuva
não aquela de braços abertos
rodando na praça
mas a de olhos fechados
do mundo pra dentro
daquelas que quando caem
eu saio correndo
e no pé da porta me grito
pra dentro de mim.
Alex Moura
domingo, 18 de setembro de 2016
Dexistencialismo
Respirei fundo segredos de alma
e senti frágil o cheiro da morte,
não sei se veio da alma ou do segredo.
Naturalmente sentiria medo,
mas não senti.
Ora! Natural que respirar forte
traga tudo entre vida e morte.
Minha fé é reconhecer o cheiro
no lugar de disfarçar não existir.
Alex Moura
Respirei fundo segredos de alma
e senti frágil o cheiro da morte,
não sei se veio da alma ou do segredo.
Naturalmente sentiria medo,
mas não senti.
Ora! Natural que respirar forte
traga tudo entre vida e morte.
Minha fé é reconhecer o cheiro
no lugar de disfarçar não existir.
Alex Moura
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
Notas de um camaleão (Trombando em jeitos)
a inúmeras
interpretações resisto
existo a partir
da conclusão que sou
e vou trombando em jeitos
em aspirações, em agora vai
não vai ou que não sei se foi
tudo é possibilidade de ser
e por ser possibilidade
também não é
mas quando for
um de mim há de saber que é
em detrimento dos outros
que não sei quem sou
porque ser
tem dessas dificuldades mesmo
e nas tentativas erradas
eu sou o erro
tentar é minha ação
o que já sou
é o que me forma
menos as coisas que ainda não fui
e que até hoje não sei quais são.
Alex Moura
a inúmeras
interpretações resisto
existo a partir
da conclusão que sou
e vou trombando em jeitos
em aspirações, em agora vai
não vai ou que não sei se foi
tudo é possibilidade de ser
e por ser possibilidade
também não é
mas quando for
um de mim há de saber que é
em detrimento dos outros
que não sei quem sou
porque ser
tem dessas dificuldades mesmo
e nas tentativas erradas
eu sou o erro
tentar é minha ação
o que já sou
é o que me forma
menos as coisas que ainda não fui
e que até hoje não sei quais são.
Alex Moura
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
A pauta (Cozinhando o golpe)
Ano a ano
me vem à cabeça Galeano
justificando a existência da utopia.
Rebelde sem doma, o danado dizia
que servia pra caminhar.
Senhor dos dizeres sonhados
e dos sonhos ditos
não imaginava, acredito,
a existência da AEN
que já é utopia que nos faz andar.
Soberano, há sempre pra Galeano
nossa sincera concessão de desculpa;
sem culpa, mestre que era, não sabia
que a AEN está para além da utopia.
Alex Moura
Ano a ano
me vem à cabeça Galeano
justificando a existência da utopia.
Rebelde sem doma, o danado dizia
que servia pra caminhar.
Senhor dos dizeres sonhados
e dos sonhos ditos
não imaginava, acredito,
a existência da AEN
que já é utopia que nos faz andar.
Soberano, há sempre pra Galeano
nossa sincera concessão de desculpa;
sem culpa, mestre que era, não sabia
que a AEN está para além da utopia.
Alex Moura
Refúgios elétricos (Ser das cidades)
A periferia como coisa que sobra,
obra em camada de valência,
distante do núcleo
à margem das aparências.
Atônitos, átomos que somos,
perdendo aquilo que tínhamos
nos resta o êxodo dos restos,
refugiados elétricos.
Partimos de um porto de cátions
e embarcamos futuros
em nosso mar de elétrons.
Alex Moura
A periferia como coisa que sobra,
obra em camada de valência,
distante do núcleo
à margem das aparências.
Atônitos, átomos que somos,
perdendo aquilo que tínhamos
nos resta o êxodo dos restos,
refugiados elétricos.
Partimos de um porto de cátions
e embarcamos futuros
em nosso mar de elétrons.
Alex Moura
terça-feira, 6 de setembro de 2016
d(g)ramático (poemas ruins)
Acredito que o poeta
seja um sujeito
que já esteja meio morto,
e aquilo que entende
por vida plena
seja apenas a peleja
entre morte e vida.
No lugar de agente
e senhor da razão,
sofre a ação
dos seus substantivos,
que mortos ganham formas
de verbos vivos:
sua pedra o apedreja,
o mosquito o mosquiteia,
o tempo entempando
enteiando-o na sua teia.
A poesia é o grito
da sobrevida sobre a morte,
com sorte
sobrevive à meia-vida
enquanto os substantivos
suicidam ele.
Alex Moura
Acredito que o poeta
seja um sujeito
que já esteja meio morto,
e aquilo que entende
por vida plena
seja apenas a peleja
entre morte e vida.
No lugar de agente
e senhor da razão,
sofre a ação
dos seus substantivos,
que mortos ganham formas
de verbos vivos:
sua pedra o apedreja,
o mosquito o mosquiteia,
o tempo entempando
enteiando-o na sua teia.
A poesia é o grito
da sobrevida sobre a morte,
com sorte
sobrevive à meia-vida
enquanto os substantivos
suicidam ele.
Alex Moura
devir de cecilia (Trombando em jeitos)
não somos simbiose entre nós
porque simbiose é dependente
e o que me move
é a surpresa de enxergar você
quando não acho a mim
assim, você é mais em você
do que pode ser em mim
e o viço impetuoso reside aí
ter sempre você a descobrir
quando me falto sei que acabo ali
busco você em você mesma
conhecedor de parte de ti
exploro tudo aquilo que você permitir
e me completo com a excitação de saber
que tem mais de você por vir.
Alex Moura
não somos simbiose entre nós
porque simbiose é dependente
e o que me move
é a surpresa de enxergar você
quando não acho a mim
assim, você é mais em você
do que pode ser em mim
e o viço impetuoso reside aí
ter sempre você a descobrir
quando me falto sei que acabo ali
busco você em você mesma
conhecedor de parte de ti
exploro tudo aquilo que você permitir
e me completo com a excitação de saber
que tem mais de você por vir.
Alex Moura
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
Essa gente não quer só comida (Cozinhando o golpe)
Calar rancores,
engoli-los como
sermão mostarda.
Tarda agora
o destempero de outrora.
A indignação,
antes pululante nas varandas,
vela um lento dourar
em banho-maria.
Calar rancores,
engoli-los como
sermão mostarda.
Tarda agora
o destempero de outrora.
A indignação,
antes pululante nas varandas,
vela um lento dourar
em banho-maria.
Corrupção?
Agora pode! Antes não podia.
Iguarias se amontoam
em despensas generosas,
enquanto a hipocrisia cozinha
no silêncio das panelas.
Alex Moura
Agora pode! Antes não podia.
Iguarias se amontoam
em despensas generosas,
enquanto a hipocrisia cozinha
no silêncio das panelas.
Alex Moura
terça-feira, 2 de agosto de 2016
domingo, 31 de julho de 2016
indumentado (trombando em jeitos)
há algum tempo
tenho evitado festas de casamento
nunca condenei união. não!
no entanto exigem armaduras
que guerreiros elegantes desfilam
entre elmos e capas com os quais
nunca comprariam pão
vestidos que não sustentam rotinas
encantam princesas de quatro horas
cinderelamente desconfortáveis
no meio do salão do castelo alugado
há algum tempo
tenho evitado festas de casamento
nunca condenei união. não!
no entanto exigem armaduras
que guerreiros elegantes desfilam
entre elmos e capas com os quais
nunca comprariam pão
vestidos que não sustentam rotinas
encantam princesas de quatro horas
cinderelamente desconfortáveis
no meio do salão do castelo alugado
tudo pronto pra não dar errado
eu
plebeu
na falta de armadura e nobreza
deserto a batalha vestindo a pobreza
desse trapo que ainda é meu.
Alex Moura
eu
plebeu
na falta de armadura e nobreza
deserto a batalha vestindo a pobreza
desse trapo que ainda é meu.
Alex Moura
terça-feira, 26 de julho de 2016
desprincípio universal (trombando em jeitos)
a água vai escorrer
para o lado que o copo pender
a água objetiva que é naturalmente anda
para o lado que a natureza manda
agua é por onde por lá por aqui
é universal pra onde ela deve ir
gente, diferente de água,
deveria ir para onde quisesse
mas há muito tempo isso não acontece
tal qual a margem o cano a fresta
a ideologia dominante se presta
a convencer toda a gente
que o poder determina o que é lado
costas e frente
vontade de gente não é universal
ninguém determina o que é real
se é que existe alguma verdade
diferente de água na margem
vontade de gente é liberdade.
Alex Moura
a água vai escorrer
para o lado que o copo pender
a água objetiva que é naturalmente anda
para o lado que a natureza manda
agua é por onde por lá por aqui
é universal pra onde ela deve ir
gente, diferente de água,
deveria ir para onde quisesse
mas há muito tempo isso não acontece
tal qual a margem o cano a fresta
a ideologia dominante se presta
a convencer toda a gente
que o poder determina o que é lado
costas e frente
vontade de gente não é universal
ninguém determina o que é real
se é que existe alguma verdade
diferente de água na margem
vontade de gente é liberdade.
Alex Moura
sexta-feira, 22 de julho de 2016
diversidade (Trombando em jeitos)
lustro universos
filosoficamente
menos científicos
do que cosmológicos
meus argumentos
contemplam realidades paralelas
não a esse mundo
mas entre elas, infinitas,
nunca se encontram
desmontam teorias
umas das outras
mas não sabem disso
sequer sabem delas
se tantos universos
teorias e realidades
cabem dentro de mim
tantas cabem
lustro universos
filosoficamente
menos científicos
do que cosmológicos
meus argumentos
contemplam realidades paralelas
não a esse mundo
mas entre elas, infinitas,
nunca se encontram
desmontam teorias
umas das outras
mas não sabem disso
sequer sabem delas
se tantos universos
teorias e realidades
cabem dentro de mim
tantas cabem
dentro de outros
que é realidade
que não tem mais fim.
Alex Moura
que é realidade
que não tem mais fim.
Alex Moura
sábado, 16 de julho de 2016
Entreouvidos (Ser das cidades)
O exercício
de preservar diálogo
é posto a prova
dentro do coletivo
Santa Rosa-Passeio.
Sentado,
procurando colar lembranças,
contemplar existência,
essas coisas
que reflexão digerida provoca,
uma conversa indolente,
entre o motorista
e aquela moça da frente,
me traz de volta
para o mundo da gente.
Ensaio
uma insatisfação egoísta,
anacrônica e pessimista,
mas percebo
que a moça e o motorista
existem mais
e estão mais felizes que eu.
Existir,
na maioria das vezes, é isso:
a sabedoria imanente
de uma conversa sem compromisso.
Alex Moura
O exercício
de preservar diálogo
é posto a prova
dentro do coletivo
Santa Rosa-Passeio.
Sentado,
procurando colar lembranças,
contemplar existência,
essas coisas
que reflexão digerida provoca,
uma conversa indolente,
entre o motorista
e aquela moça da frente,
me traz de volta
para o mundo da gente.
Ensaio
uma insatisfação egoísta,
anacrônica e pessimista,
mas percebo
que a moça e o motorista
existem mais
e estão mais felizes que eu.
Existir,
na maioria das vezes, é isso:
a sabedoria imanente
de uma conversa sem compromisso.
Alex Moura
terça-feira, 12 de julho de 2016
todo dia (Trombando em jeitos)
sapatos de percorrer rotina
calçam pés no chão
pavimentos decorados
viciados
sempre com a mesma dose de dia
experiente de mim
não desprezo experiências
que me enchem de mundo
à noite volto pra casa
um pouco mais e menos do que era
algumas esquinas dobraram
em minha direção
outras não
e assim se fez tempo
naquilo que batizamos vida
amanhã?
saio de novo
e volto aquele que não fui ainda.
Alex Moura
sapatos de percorrer rotina
calçam pés no chão
pavimentos decorados
viciados
sempre com a mesma dose de dia
experiente de mim
não desprezo experiências
que me enchem de mundo
à noite volto pra casa
um pouco mais e menos do que era
algumas esquinas dobraram
em minha direção
outras não
e assim se fez tempo
naquilo que batizamos vida
amanhã?
saio de novo
e volto aquele que não fui ainda.
Alex Moura
sábado, 9 de julho de 2016
teoria do conhecimento (Trombando em jeitos)
o limite do observável
está para além do que se vê
tudo aquilo
que os sentidos sentem
imediatamente mentem
o que escapa aos olhos
quando se olha?
metafisicamente
quando não há tempo
para mentir
escutar é sinônimo de ouvir?
viver, muito mais do que ser,
é sentir
dos mistérios que cercam
a experiência humana
profana
mais há para saber
do que se sabe
o que é de fato a saudade?
a esperança?
a mágoa e o calafrio?
pra que serve o átomo?
o arrepio?
a margem de um rio e o tempo?
esgotamos as possibilidades
de conhecimento?
mais há para saber do que se sabe.
carregar pr'aquela pessoa
aquele sublime sentimento
será que não é pra isso
que serve o vento?
Alex Moura
o limite do observável
está para além do que se vê
tudo aquilo
que os sentidos sentem
imediatamente mentem
o que escapa aos olhos
quando se olha?
metafisicamente
quando não há tempo
para mentir
escutar é sinônimo de ouvir?
viver, muito mais do que ser,
é sentir
dos mistérios que cercam
a experiência humana
profana
mais há para saber
do que se sabe
o que é de fato a saudade?
a esperança?
a mágoa e o calafrio?
pra que serve o átomo?
o arrepio?
a margem de um rio e o tempo?
esgotamos as possibilidades
de conhecimento?
mais há para saber do que se sabe.
carregar pr'aquela pessoa
aquele sublime sentimento
será que não é pra isso
que serve o vento?
Alex Moura
sexta-feira, 1 de julho de 2016
monólogo (Trombando em jeitos)
a face da lua
voltada pra baixo
com semblante
de observação na varanda
só eu pareço notá-la
pétala solta no talo do universo
converso com aqueles
que fui antes distantes
parecem que sequer
me conhecem desviam o olhar
grata, só a lua me nota
com olhares inúteis de cura
de uma pretensa depressão futura.Alex Moura
Astúcia da razão
Acorda astuta a razão do mundo,
se é que dorme por um segundo
na incansável construção de tudo.
Manipulados,
reivindicamos nossa própria razão
e no mercado de certezas incontestes
não sobrevivem aos mais simples testes
de manutenção.
Quanta convicção se combatendo,
convencendo-se somente a si mesmas
tamanho o grito de opinião a esmo.
Alex Moura
Acorda astuta a razão do mundo,
se é que dorme por um segundo
na incansável construção de tudo.
Manipulados,
reivindicamos nossa própria razão
e no mercado de certezas incontestes
não sobrevivem aos mais simples testes
de manutenção.
Quanta convicção se combatendo,
convencendo-se somente a si mesmas
tamanho o grito de opinião a esmo.
Alex Moura
quarta-feira, 29 de junho de 2016
Ao vivo ou não (Publicado - Ser das cidades)
Vulneráveis a todo instante,
câmeras de segurança
não seguram nada,
transmitem para meio mundo
aquilo que não puderam segurar.
Epifania popular achar
que frames de segundos
garantem proteção.
Não!
Câmeras que miram rua
miram vítimas: seja a que morre,
seja a que mata.
Crime, ameaça, insegurança
nascem nos palácios reservados,
as câmeras miram os seus fins
de costas para os seus guardados.
Alex Moura
Vulneráveis a todo instante,
câmeras de segurança
não seguram nada,
transmitem para meio mundo
aquilo que não puderam segurar.
Epifania popular achar
que frames de segundos
garantem proteção.
Não!
Câmeras que miram rua
miram vítimas: seja a que morre,
seja a que mata.
Crime, ameaça, insegurança
nascem nos palácios reservados,
as câmeras miram os seus fins
de costas para os seus guardados.
Alex Moura
domingo, 26 de junho de 2016
o velho e o novo (Trombando em jeitos)
às vezes me pego
falando pausadamente
com meu filho
para dar tom de seriedade
tipo coisa da idade
quando fiquei tão sério?
mistério que se perde
no meio da esteira
das obrigações
na besteira
das minhas decisões
meu filho vendo na poça
um oceano
faz do chinelo caravela
almirante lúdico
me manda içar a vela
enquanto toma
o controle do leme
minha alma
afogada na realidade
treme.
Alex Moura
às vezes me pego
falando pausadamente
com meu filho
para dar tom de seriedade
tipo coisa da idade
quando fiquei tão sério?
mistério que se perde
no meio da esteira
das obrigações
na besteira
das minhas decisões
meu filho vendo na poça
um oceano
faz do chinelo caravela
almirante lúdico
me manda içar a vela
enquanto toma
o controle do leme
minha alma
afogada na realidade
treme.
Alex Moura
sábado, 25 de junho de 2016
domingo, 19 de junho de 2016
ensurdecedor silêncio do transporte coletivo (trombando em jeitos)
o impronunciado
aquilo que povoa
o pensamento. dentro.
consciência é permanente
nunca para
reflexão coletiva
não-conceito,
mas de um monte
de gente viva
dentro de um coletivo
emanando um monte
de pensamento vivo
congestionando
o metafísico
na simbiose entre tudo
que não se ouve:
de obrigação a lembrança
de frustração a saudade
de volta à realidade
ouvindo e vendo
tudo o que está acontecendo
alienados naquilo
que o ouvido alcança
ignoramos o quanto é urgente
cultivarmos as mensagens
que habitam o silêncio.
Alex Moura
o impronunciado
aquilo que povoa
o pensamento. dentro.
consciência é permanente
nunca para
reflexão coletiva
não-conceito,
mas de um monte
de gente viva
dentro de um coletivo
emanando um monte
de pensamento vivo
congestionando
o metafísico
na simbiose entre tudo
que não se ouve:
de obrigação a lembrança
de frustração a saudade
de volta à realidade
ouvindo e vendo
tudo o que está acontecendo
alienados naquilo
que o ouvido alcança
ignoramos o quanto é urgente
cultivarmos as mensagens
que habitam o silêncio.
Alex Moura
terça-feira, 14 de junho de 2016
Questão de química (Publicado - Entre o quando e o quase)
Viver é acidente, reação química,
fator contribuinte, cenário favorável.
Criando deus para nos criar
encobrimos a sorte de existirmos
e nossas merdas que nos destroem.
Entre a meta e o físico,
o início e o fim,
viver é o quando histórico
que chamam de presente.
Quando formos fósseis,
extinção gradual por acidente,
deus e o diabo, imortais que são,
morrerão com a gente.
Alex Moura
Viver é acidente, reação química,
fator contribuinte, cenário favorável.
Criando deus para nos criar
encobrimos a sorte de existirmos
e nossas merdas que nos destroem.
Entre a meta e o físico,
o início e o fim,
viver é o quando histórico
que chamam de presente.
Quando formos fósseis,
extinção gradual por acidente,
deus e o diabo, imortais que são,
morrerão com a gente.
Alex Moura
quem (trombando em jeitos)
submetendo eu outro a sua vontade.
quando eu mesmo?
outra terça que fui obrigado por mim
a embalar palavras em bloco de rascunho
alternando goles de cerveja de preço reduzido
hoje eu não viria. duvido!
penso em não vir mas eu outro vem
não tenho o menor controle sobre mim
e criando outros eus disfarço a
dependência que tenho de mim mesmo.
Alex Moura
a embalar palavras em bloco de rascunho
alternando goles de cerveja de preço reduzido
hoje eu não viria. duvido!
penso em não vir mas eu outro vem
não tenho o menor controle sobre mim
e criando outros eus disfarço a
dependência que tenho de mim mesmo.
Alex Moura
quinta-feira, 9 de junho de 2016
perdidas memórias (Trombando em jeitos)
dedos que não realizaram
folheiam páginas que não
aconteceram
vida é coisa que passa
página é coisa que conta
memória é coisa que guarda
metafísica precisa de dedos
que façam, caso contrário
a vida passa
a página não conta
uma memória que se perdeu
o dedo que nada tem a contar
folheou mais do que viveu.
Alex Moura
dedos que não realizaram
folheiam páginas que não
aconteceram
vida é coisa que passa
página é coisa que conta
memória é coisa que guarda
metafísica precisa de dedos
que façam, caso contrário
a vida passa
a página não conta
uma memória que se perdeu
o dedo que nada tem a contar
folheou mais do que viveu.
Alex Moura
V (Trombando em jeitos)
S O U
U
lá pelas tantas
das horas das doses da vida
serei um que nunca fui
quando eu for, irei só
quando eu for, serei só
o verbo transita direto
e não sei se serei antes de ir
ou se irei antes de ser
condensa a dúvida na mente
que não dilui
a menos que eu vá ou seja
nunca serei ou irei saber
se fui.
Alex Moura
S O U
U
lá pelas tantas
das horas das doses da vida
serei um que nunca fui
quando eu for, irei só
quando eu for, serei só
o verbo transita direto
e não sei se serei antes de ir
ou se irei antes de ser
condensa a dúvida na mente
que não dilui
a menos que eu vá ou seja
nunca serei ou irei saber
se fui.
Alex Moura
quarta-feira, 8 de junho de 2016
Imprevisão (Publicado - Entre o quando e o quase)
As noites, as chuvas,
tão esparsas que se mira um poste aceso
para ter certeza delas.
As noites, as chuvas,
tão esparsas que se mira um poste aceso
para ter certeza delas.
Chove um frio raro e desloca o pensamento
para um lugar que nunca foi,
para um devir que nunca veio,
frustrando como um sonho bom acordado no meio.
O ruído inspirador é grito de dor de água de chuva
sendo arrastada cano abaixo despencando de calha suja.
Aquela água serviu pra inspirar julgando que não serviria.
Achou que era esgoto, virou poesia.
Alex Moura
para um lugar que nunca foi,
para um devir que nunca veio,
frustrando como um sonho bom acordado no meio.
O ruído inspirador é grito de dor de água de chuva
sendo arrastada cano abaixo despencando de calha suja.
Aquela água serviu pra inspirar julgando que não serviria.
Achou que era esgoto, virou poesia.
Alex Moura
segunda-feira, 6 de junho de 2016
A lembrança que tem o mar (Publicado - Ser das cidades)
Na Baía de Guanabara
coisa rara é ver o limite
que liga esse céu e essa água.
Lá defronte, onde seria o horizonte,
nus de regresso dominavam montes.
Esse céu carregado de nuvens
dialoga com a água opaca
que a Baía mostra.
Essa água carregada de história
dialoga com esse céu
carregado de nuvem, testemunho
e memória.
Alex Moura
Na Baía de Guanabara
coisa rara é ver o limite
que liga esse céu e essa água.
Lá defronte, onde seria o horizonte,
nus de regresso dominavam montes.
Esse céu carregado de nuvens
dialoga com a água opaca
que a Baía mostra.
Essa água carregada de história
dialoga com esse céu
carregado de nuvem, testemunho
e memória.
Alex Moura
Eu quero ter sete bilhões de amigos (Trombando em jeitos)
numa contradição
aos meus surtos sempre adiados
de reclusão
tenho vontade de conhecer todas
as pessoas do mundo
chão de planeta sendo rua
de cidade pequena
uma prosa terrena
no mali ou no japão
todo mundo irmão
confirmando presença
num evento pros mais chegados
em que sete bilhões irão.
Alex Moura
numa contradição
aos meus surtos sempre adiados
de reclusão
tenho vontade de conhecer todas
as pessoas do mundo
chão de planeta sendo rua
de cidade pequena
uma prosa terrena
no mali ou no japão
todo mundo irmão
confirmando presença
num evento pros mais chegados
em que sete bilhões irão.
Alex Moura
sexta-feira, 3 de junho de 2016
terça-feira, 31 de maio de 2016
Compromisso (Publicado - Entre o quando e o quase)
Ultimamente tem sido frequente
esperar terça para que tudo aconteça.
Sozinho adquiro poderes de mesas de bar:
onipotento-me!
Onipresento-me!
Cruzo o portal para o meu submundo
onde sou demônio e salvação.
Adquiro formas concebidas em ponta de caneta:
sou dois, dez, trinta!
Salvo-me, forte que sou, das minhas próprias fraquezas,
quando salvar-me é submergir, para sempre,
num copo de incertezas.
Alex Moura
Ultimamente tem sido frequente
esperar terça para que tudo aconteça.
Sozinho adquiro poderes de mesas de bar:
onipotento-me!
Onipresento-me!
Cruzo o portal para o meu submundo
onde sou demônio e salvação.
Adquiro formas concebidas em ponta de caneta:
sou dois, dez, trinta!
Salvo-me, forte que sou, das minhas próprias fraquezas,
quando salvar-me é submergir, para sempre,
num copo de incertezas.
Alex Moura
alteridade clássica (Trombando em jeitos)
tudo é ponto de vista
disse o sofista
cultura de um
cultura de outro
não, sócrates! disse platão
não, platão! disse aristóteles
universalidade
socrática platônica
aristotélica
esgotava-se já mesmo
naquela de cada um?
alteridade se constrói
tanto na diferença
quanto no comum.
Alex Moura
tudo é ponto de vista
disse o sofista
cultura de um
cultura de outro
não, sócrates! disse platão
não, platão! disse aristóteles
universalidade
socrática platônica
aristotélica
esgotava-se já mesmo
naquela de cada um?
alteridade se constrói
tanto na diferença
quanto no comum.
Alex Moura
Nunca vi quem tivesse
esse tamanho.
Nem pessoalmente e poucos
nos livros de História.
Memória que me recorda
crescer junto com ela,
privilégio meu, não dela.
Forte de uma força
que segura tantos.
Prantos por ela secados,
gritos por ela abafados.
Quem há de secar o seu pranto?
Quem há de dividir o seu grito?
Tento controlar o poema,
mas ela domina o assunto,
tão plena, que quando morrer
leva uma família junto.
Alex Moura
esse tamanho.
Nem pessoalmente e poucos
nos livros de História.
Memória que me recorda
crescer junto com ela,
privilégio meu, não dela.
Forte de uma força
que segura tantos.
Prantos por ela secados,
gritos por ela abafados.
Quem há de secar o seu pranto?
Quem há de dividir o seu grito?
Tento controlar o poema,
mas ela domina o assunto,
tão plena, que quando morrer
leva uma família junto.
Alex Moura
Roteiro de um golpe (Cozinhando o golpe)
Apesar da quantidade de spoilers
de quem já tinha visto esse filme,
telespectadores manipulados
em frente a televisores ligados
entoavam uma trilha sonora
de fundo de panela. Parecia novela.
Estrelando um golpista canastrão
que falando em corrupção
queria o roteiro mantido.
E a dúvida que agora povoa as mentes
é saber se o Silêncio dos Inocentes
é hipócrita ou constrangido.
Alex Moura, 29/05/2016
Apesar da quantidade de spoilers
de quem já tinha visto esse filme,
telespectadores manipulados
em frente a televisores ligados
entoavam uma trilha sonora
de fundo de panela. Parecia novela.
Estrelando um golpista canastrão
que falando em corrupção
queria o roteiro mantido.
E a dúvida que agora povoa as mentes
é saber se o Silêncio dos Inocentes
é hipócrita ou constrangido.
Alex Moura, 29/05/2016
Recortei da madrugada
o barulho que fiz
e colei em uma pálida
página dessa escura manhã.
Manhãs escuras talvez
sejam pra isso: destacar desperdício.
Semanticamente, a pena que
escreve a pena que sente
vem ainda úmida e quente
de tanto potencial transbordado.
Acordei, me percebi errado,
preferia nem ter acordado.
Alex Moura
o barulho que fiz
e colei em uma pálida
página dessa escura manhã.
Manhãs escuras talvez
sejam pra isso: destacar desperdício.
Semanticamente, a pena que
escreve a pena que sente
vem ainda úmida e quente
de tanto potencial transbordado.
Acordei, me percebi errado,
preferia nem ter acordado.
Alex Moura
quarta-feira, 25 de maio de 2016
Bucólico (Publicado - Ser das cidades)
Retalhos de vida
peregrinando chão de cidade.
O frio do dia assusta pés
que geralmente consomem calçadas.
A cidade, esvaziada de ritmo,
obedece preguiças de outono
e deixa evidente na gente
aquela reflexão que atrasamos
tratar sobre incômodo e sofrimento.
São assim esses dias:
a música média,
o café quente
nas janelas fechadas do apartamento.
Alex Moura
Retalhos de vida
peregrinando chão de cidade.
O frio do dia assusta pés
que geralmente consomem calçadas.
A cidade, esvaziada de ritmo,
obedece preguiças de outono
e deixa evidente na gente
aquela reflexão que atrasamos
tratar sobre incômodo e sofrimento.
São assim esses dias:
a música média,
o café quente
nas janelas fechadas do apartamento.
Alex Moura
segunda-feira, 23 de maio de 2016
sábado, 21 de maio de 2016
Inspiração (Publicado - Entre o quando e o quase)
Pálpebra pesada boicota poema
e jogo no peso dos olhos, no tempo das pernas
e na coluna encolhida a culpa que o fim da vida
pede pra si pela carência de inspiração.
Vivo dizendo não pro fim da vida que me refiro;
é lá que mais inspiro, inspiro, inspiro...
Alex Moura
Pálpebra pesada boicota poema
e jogo no peso dos olhos, no tempo das pernas
e na coluna encolhida a culpa que o fim da vida
pede pra si pela carência de inspiração.
Vivo dizendo não pro fim da vida que me refiro;
é lá que mais inspiro, inspiro, inspiro...
Alex Moura
terça-feira, 17 de maio de 2016
Nada a temer (Cozinhando o golpe)
O fio fino da faca do golpe
corta na carne de quem não devia.
Não que antes não houvesse ferida,
mas se foi escolhida,
que se curasse sozinha.
O fio poroso da faca do golpe
corta com ferro de panela vazia,
que para quem quis foi questão
de acústica abafando o grito
da maioria.
Não existe plano ideal,
mas ideal é que se escolha o plano.
Mudar para o plano
de quem não quer planos
é alimentar raposa de barriga vazia.
Não há o que temer, eu ouvi, mas havia.
Alex Moura
O fio fino da faca do golpe
corta na carne de quem não devia.
Não que antes não houvesse ferida,
mas se foi escolhida,
que se curasse sozinha.
O fio poroso da faca do golpe
corta com ferro de panela vazia,
que para quem quis foi questão
de acústica abafando o grito
da maioria.
Não existe plano ideal,
mas ideal é que se escolha o plano.
Mudar para o plano
de quem não quer planos
é alimentar raposa de barriga vazia.
Não há o que temer, eu ouvi, mas havia.
Alex Moura
sexta-feira, 13 de maio de 2016
quebrando a corrente (trombando em jeitos)
a linha arrebenta
um elo subversivo
deixa a corrente
que continua sem ele
enquanto ele continua elo
o duelo de força entre
elo e corrente
para muita gente
é pior para ele do que para ela
balela!
que quem acha isso
é um monte de elo dela
a linha arrebenta
um elo subversivo
deixa a corrente
que continua sem ele
enquanto ele continua elo
o duelo de força entre
elo e corrente
para muita gente
é pior para ele do que para ela
balela!
que quem acha isso
é um monte de elo dela
de olhos no chão
e a cara amarela
inseguros de ser só elo
assim como ele.
Alex Moura
inseguros de ser só elo
assim como ele.
Alex Moura
Sentindo a existência (Publicado - Ser das cidades)
Venta na varanda,
tanto que a superfície
da cerveja no copo
se inquieta em espasmos.
Noite posta,
no entanto, nos prédios
que consomem céu
há mais janelas apagadas
do que acesas.
Quieto, quero só observar,
observo, me querendo invisível,
pequeno, imperceptível,
tal qual gato em caixa de sapato.
Tanto não me movo,
que posso me sentir existindo.
Fali na pretensão de grandeza
e foi essa minha maior virtude.
Alex Moura
Venta na varanda,
tanto que a superfície
da cerveja no copo
se inquieta em espasmos.
Noite posta,
no entanto, nos prédios
que consomem céu
há mais janelas apagadas
do que acesas.
Quieto, quero só observar,
observo, me querendo invisível,
pequeno, imperceptível,
tal qual gato em caixa de sapato.
Tanto não me movo,
que posso me sentir existindo.
Fali na pretensão de grandeza
e foi essa minha maior virtude.
Alex Moura
terça-feira, 3 de maio de 2016
Conclusão (Publicado - Entre o quando e o quase)
Tive muitas intenções no mundo.
Concluí poucas.
Esse que vocês veem por aí,
grosso modo,
é produto de tudo que concluí.
Triste ideia me olhar no espelho
e concluir que o que vejo
é a imagem daquele que me formou.
Olho nos olhos dele
e vejo que tem pouco de mim no que sou.
Alex Moura
Tive muitas intenções no mundo.
Concluí poucas.
Esse que vocês veem por aí,
grosso modo,
é produto de tudo que concluí.
Triste ideia me olhar no espelho
e concluir que o que vejo
é a imagem daquele que me formou.
Olho nos olhos dele
e vejo que tem pouco de mim no que sou.
Alex Moura
utopia (trombando em jeitos)
A via que não existe
era somente a que a gente via
possível de caminhar.
Muita gente vinha nos alertar:
- Por aí vocês não vão chegar!
Nunca paramos! Firmamos passo!
Segurança de trem em trilho,
disparo de leoa,
que quem caça é ela!
Pouco tempo e já nos seguiam,
com aquela cara de quem tá
com a mão amarela.
Alex Moura
A via que não existe
era somente a que a gente via
possível de caminhar.
Muita gente vinha nos alertar:
- Por aí vocês não vão chegar!
Nunca paramos! Firmamos passo!
Segurança de trem em trilho,
disparo de leoa,
que quem caça é ela!
Pouco tempo e já nos seguiam,
com aquela cara de quem tá
com a mão amarela.
Alex Moura
terça-feira, 26 de abril de 2016
Lembranças que percorrem becos (Publicado - Ser das cidades)
Os contornos reais
de uma cidade,
aquilo que de concreto
se vê,
é a cidade em si
ou o que a fez ser?
Concretude!
Até quando pude
considerei cidades
tijolo, avenida, ruela.
Agora, pro bem delas,
olhei-as com olhos-cidade.
Verdades, se existem,
residem no curso da história,
porque cidades são,
mais do que pedra,
memória.
Alex Moura
Os contornos reais
de uma cidade,
aquilo que de concreto
se vê,
é a cidade em si
ou o que a fez ser?
Concretude!
Até quando pude
considerei cidades
tijolo, avenida, ruela.
Agora, pro bem delas,
olhei-as com olhos-cidade.
Verdades, se existem,
residem no curso da história,
porque cidades são,
mais do que pedra,
memória.
Alex Moura
ser contínuo (Trombando em jeitos)
qual sentido escapa
à consciência?
posso falar e não saber?
posso escutar e não saber?
cheirar, sentir ou ver?
consciência plena
submete ou é submetida?
sente ou é sentida?
quando tudo acabar
minha consciência
não se deve apagar
vai ser atraída pelas
consciências
que ainda estarão a brilhar
e através delas irá ouvir, ver, falar...
Alex Moura
qual sentido escapa
à consciência?
posso falar e não saber?
posso escutar e não saber?
cheirar, sentir ou ver?
consciência plena
submete ou é submetida?
sente ou é sentida?
quando tudo acabar
minha consciência
não se deve apagar
vai ser atraída pelas
consciências
que ainda estarão a brilhar
e através delas irá ouvir, ver, falar...
Alex Moura
sábado, 23 de abril de 2016
Pseudoausência urbana (Publicado - Ser das cidades)
O que uma sexta
e uma noite reservam:
reservas sociais,
isolamento da verborragia.
Ausente se sente mais
o que presente não seria capaz
pra sentir tudo o que se sentiria.
E o congresso? E a república?
O amor! A paz mundial!
E a semifinal?
Deixa estar. Vamos ver.
Uma mesa de bar
e uma caneta na mão
é o mais ausente
que uma cidade me permite ser.
Alex Moura
O que uma sexta
e uma noite reservam:
reservas sociais,
isolamento da verborragia.
Ausente se sente mais
o que presente não seria capaz
pra sentir tudo o que se sentiria.
E o congresso? E a república?
O amor! A paz mundial!
E a semifinal?
Deixa estar. Vamos ver.
Uma mesa de bar
e uma caneta na mão
é o mais ausente
que uma cidade me permite ser.
Alex Moura
Inexorável (Publicado - Entre o quando e o quase)
Toalha
bem no limite
presa na cintura.
Mexendo muito cai.
Eu me vejo me olhando
com essa cara de velho
entrando e saindo do espelho.
Se nunca tivesse me visto
teria consciência de mim?
Às vezes penso que não.
Às vezes penso que sim.
Depressão inútil,
nada disso é preciso,
no fim do reflexo
estamos mais mortos do que Narciso.
Alex Moura
Toalha
bem no limite
presa na cintura.
Mexendo muito cai.
Eu me vejo me olhando
com essa cara de velho
entrando e saindo do espelho.
Se nunca tivesse me visto
teria consciência de mim?
Às vezes penso que não.
Às vezes penso que sim.
Depressão inútil,
nada disso é preciso,
no fim do reflexo
estamos mais mortos do que Narciso.
Alex Moura
terça-feira, 19 de abril de 2016
Sincretismo (Publicado - Entre o quando e o quase)
Eu,
quando cheguei a mim
não sabia o que ia encontrar.
Um eu meu que já me existia
hostilizaria o que iria chegar.
A ideia de Eleia,
de que sou uno, eterno e imutável,
assombra meu eu transmutado,
como se fosse errado dois eus num lugar.
Eu,
sendo rio de Heráclito,
ontem um, hoje outro,
amanhã improvável,
recorro ao sincretismo de mim
pra satisfazer o meu eu imutável.
Alex Moura
Eu,
quando cheguei a mim
não sabia o que ia encontrar.
Um eu meu que já me existia
hostilizaria o que iria chegar.
A ideia de Eleia,
de que sou uno, eterno e imutável,
assombra meu eu transmutado,
como se fosse errado dois eus num lugar.
Eu,
sendo rio de Heráclito,
ontem um, hoje outro,
amanhã improvável,
recorro ao sincretismo de mim
pra satisfazer o meu eu imutável.
Alex Moura
terça-feira, 5 de abril de 2016
das lembranças (trombando em jeitos)
Considerando o relativismo,
prefiro falar do lado bom
da saudade.
Linha-rizoma de tempo
que reserva a determinados momentos
urgências de felicidade.
Eu,
estranho no ninho,
peixe fora d'água,
não nego o prazer do momento,
mas ele existe em si e acaba,
no entanto,
mais do que seu instante,
limite que não avança,
prefiro a eterna saudade
do bem-estar que me ficou na lembrança.
Alex Moura
Considerando o relativismo,
prefiro falar do lado bom
da saudade.
Linha-rizoma de tempo
que reserva a determinados momentos
urgências de felicidade.
Eu,
estranho no ninho,
peixe fora d'água,
não nego o prazer do momento,
mas ele existe em si e acaba,
no entanto,
mais do que seu instante,
limite que não avança,
prefiro a eterna saudade
do bem-estar que me ficou na lembrança.
Alex Moura
sábado, 2 de abril de 2016
sexta-feira, 1 de abril de 2016
Minério (Publicado - Entre o quando e o quase)
Angústia de estar só em mim
e nem assim combater os meus medos,
galopantes tormentos quando limites-represa
transbordam tsunâmicas ansiedades.
Não há como fugir pras montanhas.
Nenhum lugar é alívio seguro.
Não há como subir precipícios,
mas há como deles pular depois de tentar resgatar
lamas de serotonina do meu volume morto.
Absorto, tento extrair a razão,
virtude de aluvião, acalmar o estopim
e voltar pro lugar mais seguro de mim.
Alex Moura
Angústia de estar só em mim
e nem assim combater os meus medos,
galopantes tormentos quando limites-represa
transbordam tsunâmicas ansiedades.
Não há como fugir pras montanhas.
Nenhum lugar é alívio seguro.
Não há como subir precipícios,
mas há como deles pular depois de tentar resgatar
lamas de serotonina do meu volume morto.
Absorto, tento extrair a razão,
virtude de aluvião, acalmar o estopim
e voltar pro lugar mais seguro de mim.
Alex Moura
quinta-feira, 31 de março de 2016
Paradoxo (Publicado - Entre o quando e o quase)
Tempos perpétuos passageiros
que sempre chegam ao infinito.
Demoram-se tão rapidamente
que todos os seus nenhum minutos
duram mais de sessenta segundos imediatos.
Ora tudo demora.
Ora tudo é tão rápido.
Espaço, dê espaço ao tempo,
que ele quer, só por um momento, demorar.
Cedo ou nunca;
Agora ou tarde;
é sempre questão de perspectiva.
Alex Moura
Tempos perpétuos passageiros
que sempre chegam ao infinito.
Demoram-se tão rapidamente
que todos os seus nenhum minutos
duram mais de sessenta segundos imediatos.
Ora tudo demora.
Ora tudo é tão rápido.
Espaço, dê espaço ao tempo,
que ele quer, só por um momento, demorar.
Cedo ou nunca;
Agora ou tarde;
é sempre questão de perspectiva.
Alex Moura
quarta-feira, 30 de março de 2016
Contender (Publicado - Entre o quando e o quase)
Tenho pálpebras ansiosas,
permanecerem abertas
é um pesar demoramento.
Mas eu, sem ser somente pálpebras,
quase que por ironia,
as mantenho abertas durante a noite
tal qual fosse de dia.
Porque mais do que minhas pálpebras
sou viço torto, sinapse combustão,
respiração curta da ansiedade
que me cobra o coração.
- Dormir é luxo quase infantil.
Debocha assim meu eu mais sujo
daquele eu que já dormiu.
Alex Moura
Tenho pálpebras ansiosas,
permanecerem abertas
é um pesar demoramento.
Mas eu, sem ser somente pálpebras,
quase que por ironia,
as mantenho abertas durante a noite
tal qual fosse de dia.
Porque mais do que minhas pálpebras
sou viço torto, sinapse combustão,
respiração curta da ansiedade
que me cobra o coração.
- Dormir é luxo quase infantil.
Debocha assim meu eu mais sujo
daquele eu que já dormiu.
Alex Moura
segunda-feira, 28 de março de 2016
Tardio (Publicado - Entre o quando e o quase)
O ócio que agora nos negam.
Placas em led piscando: - Não parem!
O nosso precioso tempo,
quanto mais precioso menos nosso.
Tentamos unir nossas forças,
mas alguém botou preço e as chamou
de trabalho.
Saudade da Antiguidade Clássica,
quando precioso era o tempo ocioso,
que de herança só nos deixaram a rima.
Alex Moura
O ócio que agora nos negam.
Placas em led piscando: - Não parem!
O nosso precioso tempo,
quanto mais precioso menos nosso.
Tentamos unir nossas forças,
mas alguém botou preço e as chamou
de trabalho.
Saudade da Antiguidade Clássica,
quando precioso era o tempo ocioso,
que de herança só nos deixaram a rima.
Alex Moura
Confusão (Publicado - Entre o quando e o quase)
O tom que transpassa
a opacidade dos meus concretos,
que já foram secretos,
hoje se sabem mais publicados.
Cansados, os sentidos sentem
o peso de uma metafísica urgente,
gritando clemente: - Acredita em mim!
Os ouvidos, físicos,
não ouvem os metafísicos gritos,
mas aquilo que julgo intuição
ora sim, ora não.
Alex Moura
O tom que transpassa
a opacidade dos meus concretos,
que já foram secretos,
hoje se sabem mais publicados.
Cansados, os sentidos sentem
o peso de uma metafísica urgente,
gritando clemente: - Acredita em mim!
Os ouvidos, físicos,
não ouvem os metafísicos gritos,
mas aquilo que julgo intuição
ora sim, ora não.
Alex Moura
quinta-feira, 24 de março de 2016
Das falsas virtudes (Publicado - Entre o quando e o quase)
Tive virtudes que ninguém conheceu,
que levaram-me a virtuosos atos
que ninguém viu.
Ter, conhecer, levar ou ver
são ações que não me fizeram
mais virtuoso do que julguei ser.
Sim! Julguei!
Minha virtude é arbitrária,
somente eu acredito tê-la.
Sou mais quem outros viram
do que quem mesmo fui.
Alex Moura
Tive virtudes que ninguém conheceu,
que levaram-me a virtuosos atos
que ninguém viu.
Ter, conhecer, levar ou ver
são ações que não me fizeram
mais virtuoso do que julguei ser.
Sim! Julguei!
Minha virtude é arbitrária,
somente eu acredito tê-la.
Sou mais quem outros viram
do que quem mesmo fui.
Alex Moura
quarta-feira, 23 de março de 2016
E de repente o parto (Trombando em jeitos)
livrei-me das perfeições
oxalá!
que agora sou um velho homem
não terei mais o mundo
que nunca quis conquistar
abdiquei do trono da felicidade
tirei o peso do mundo das costas
vivendo entre perfumes e bostas
vivo como se um fosse outro
perfume não é perfume em si
mas a condição que a ele é dada
bosta só é bosta se assim a vir
senão não é nada
livrei-me das expectativas
que eram depositadas em mim
e negando a condição de feliz
da felicidade dos outros, fui feliz.
Alex Moura
livrei-me das perfeições
oxalá!
que agora sou um velho homem
não terei mais o mundo
que nunca quis conquistar
abdiquei do trono da felicidade
tirei o peso do mundo das costas
vivendo entre perfumes e bostas
vivo como se um fosse outro
perfume não é perfume em si
mas a condição que a ele é dada
bosta só é bosta se assim a vir
senão não é nada
livrei-me das expectativas
que eram depositadas em mim
e negando a condição de feliz
da felicidade dos outros, fui feliz.
Alex Moura
domingo, 20 de março de 2016
Refração (Publicado - Entre o quando e o quase)
Há árvores que dão frutos,
há árvores que dão sombra.
Há, ainda, as que dão frutos e sombra.
Há, também, as árvores que nada dão.
Não dar frutos é mais comum,
não dar sombra não.
Considerando que sombras
dependem de um brilho externo,
em árvores que não dão sombra
eterno é o breu em sua volta que nada reluz.
Repousam aí suas raridades,
que no lugar de sombra, dão luz.
Alex Moura
Há árvores que dão frutos,
há árvores que dão sombra.
Há, ainda, as que dão frutos e sombra.
Há, também, as árvores que nada dão.
Não dar frutos é mais comum,
não dar sombra não.
Considerando que sombras
dependem de um brilho externo,
em árvores que não dão sombra
eterno é o breu em sua volta que nada reluz.
Repousam aí suas raridades,
que no lugar de sombra, dão luz.
Alex Moura
Pensamentos de um amigo no Além-mar? (Publicado - Entre o quando e o quase)
Notas do Além-mar.
Notícias esparsas e frequentes.
Penso em gente
enquanto trato só com vozes.
Algozes, carência e excesso,
transitam entre carência de estar
e excesso de ser.
Na dialética
entre o ser e o estar,
sou e estou só,
do lado contrário do mar.
Meu celular é o Atlântico,
mas não faz mal, eu hei de voltar;
Sebastião tropical.
Alex Moura
Notas do Além-mar.
Notícias esparsas e frequentes.
Penso em gente
enquanto trato só com vozes.
Algozes, carência e excesso,
transitam entre carência de estar
e excesso de ser.
Na dialética
entre o ser e o estar,
sou e estou só,
do lado contrário do mar.
Meu celular é o Atlântico,
mas não faz mal, eu hei de voltar;
Sebastião tropical.
Alex Moura
tudo posso na mulher que me fortalece
e por falar em sexo
o frágil não era eu
ou era?
cecilia que sempre teve
um sexo forte
rearranjou paradigmas
deixa que eu faço! fazia
hoje eu não faço! cagava
deixa que eu vou! e ia
hoje eu não vou! não estava
minha matéria
rearranjada pela forma
que cecilia deu
entendeu que o forte não era eu
mas tudo que de mulher havia em mim.
Alex Moura.
e por falar em sexo
o frágil não era eu
ou era?
cecilia que sempre teve
um sexo forte
rearranjou paradigmas
deixa que eu faço! fazia
hoje eu não faço! cagava
deixa que eu vou! e ia
hoje eu não vou! não estava
minha matéria
rearranjada pela forma
que cecilia deu
entendeu que o forte não era eu
mas tudo que de mulher havia em mim.
Alex Moura.
sábado, 5 de março de 2016
TOC II
Das trágicas lembranças
neuróticas sinapses,
demoramentos constantes
que secam chão.
"Do que que tu tá falando,
irmão?"
Assim é o não-acontecer
das mentes,
neurônios transamazonicamente
distantes uns dos outros.
Refúgio é pouco,
não se pode se esconder
de pensamentos quando você
é o próprio refúgio deles.
Alex Moura
Das trágicas lembranças
neuróticas sinapses,
demoramentos constantes
que secam chão.
"Do que que tu tá falando,
irmão?"
Assim é o não-acontecer
das mentes,
neurônios transamazonicamente
distantes uns dos outros.
Refúgio é pouco,
não se pode se esconder
de pensamentos quando você
é o próprio refúgio deles.
Alex Moura
Eu não me entendo,
assim como não entendo nada.
Às vezes algo faz algum sentido,
daí espocam sorrisos e entusiasmo,
mas é um sentido breve,
crisálida ávida pra se destruir.
Um sentido desconfiado,
uma desconfiança de que fazer
sentido não faz sentido.
Não que a vida só valha a pena
quando tudo é mesmo acaso,
mas nesse caso é quando eu
mais me aguento, e minha vida
deixa de ser demoramento.
Alex Moura
assim como não entendo nada.
Às vezes algo faz algum sentido,
daí espocam sorrisos e entusiasmo,
mas é um sentido breve,
crisálida ávida pra se destruir.
Um sentido desconfiado,
uma desconfiança de que fazer
sentido não faz sentido.
Não que a vida só valha a pena
quando tudo é mesmo acaso,
mas nesse caso é quando eu
mais me aguento, e minha vida
deixa de ser demoramento.
Alex Moura
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
Tempo (Publicado - Entre o quando e o quase)
O erro do traçado,
a linha imaginária habitada na ideia,
cheia de datas, acertos e erratas.
Viver não é linear, é rizoma.
Não é fila indiana, mas abraço coletivo:
viver assim é o que deixa vivo.
Não é, e assim sabemos,
aquela eterna experiência linda,
mas é contínua e resiste.
Viver tá no gerúndio,
porque estar morrendo é viver ainda.
Alex Moura
O erro do traçado,
a linha imaginária habitada na ideia,
cheia de datas, acertos e erratas.
Viver não é linear, é rizoma.
Não é fila indiana, mas abraço coletivo:
viver assim é o que deixa vivo.
Não é, e assim sabemos,
aquela eterna experiência linda,
mas é contínua e resiste.
Viver tá no gerúndio,
porque estar morrendo é viver ainda.
Alex Moura
De tristeza ninguém mais chora (Publicado - Ser das cidades)
Já tem som de sonho
vindo do alto desse cordão.
Vestir a fantasia na realidade
e transformar, em majestade,
minorias,
pelo menos por quatro dias.
E quando ao fim
desse sonho cadente
o canto encantado
de um folião contente
atravessa a realidade
e vai propagando,
o cordão segue pra sempre
cantando entre as vielas
de um universo que já
lhe fez muito mal,
e a partir desse dia
as cinzas voaram
e nunca mais deixou
de ser carnaval.
Alex Moura
Já tem som de sonho
vindo do alto desse cordão.
Vestir a fantasia na realidade
e transformar, em majestade,
minorias,
pelo menos por quatro dias.
E quando ao fim
desse sonho cadente
o canto encantado
de um folião contente
atravessa a realidade
e vai propagando,
o cordão segue pra sempre
cantando entre as vielas
de um universo que já
lhe fez muito mal,
e a partir desse dia
as cinzas voaram
e nunca mais deixou
de ser carnaval.
Alex Moura
Todos os mundos (Publicado - Ser das cidades)
O móvel e o estático,
vidas atravessando ruas,
tristezas subindo elevadores.
Alegrias tomando ônibus
e desejos descendo dele.
Preocupações se amontoam
em balcão de bar
e esperanças aguardam
fechar o sinal.
Tudo numa pressa cotidiana,
num andar a mais,
num passo à frente,
dureza de coisa
esmagando gente.
De repente sim e não de repente,
o mundo de cada um é diferente.
Alex Moura
O móvel e o estático,
vidas atravessando ruas,
tristezas subindo elevadores.
Alegrias tomando ônibus
e desejos descendo dele.
Preocupações se amontoam
em balcão de bar
e esperanças aguardam
fechar o sinal.
Tudo numa pressa cotidiana,
num andar a mais,
num passo à frente,
dureza de coisa
esmagando gente.
De repente sim e não de repente,
o mundo de cada um é diferente.
Alex Moura
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
Das memórias (Publicado - Entre o quando e o quase)
Perdido no inconsciente
pisando em lembranças
que não lembro vivê-las.
Ao vê-las
conheço-me quem nunca fui:
passado, trem, chuva,
tudo desarrumado
em um grande baú de instantes.
Como posso lembrar de antes,
se nem agora me reconheço quem sou?
Recorro às memórias
para lembrar-me o que é viver
e acabo esquecendo que consciência
é muito mais do que ver.
Alex Moura
Perdido no inconsciente
pisando em lembranças
que não lembro vivê-las.
Ao vê-las
conheço-me quem nunca fui:
passado, trem, chuva,
tudo desarrumado
em um grande baú de instantes.
Como posso lembrar de antes,
se nem agora me reconheço quem sou?
Recorro às memórias
para lembrar-me o que é viver
e acabo esquecendo que consciência
é muito mais do que ver.
Alex Moura
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
Um mal-estar galopante,
a evolução dos sintomas
é mais intensa a cada dia.
Procuro, entre paliativos,
aliviar minha dor
desse mal que não sei qual é.
Para quê?
Seria melhor não saber?
Foi quando, resignado,
me entreguei ao destino,
esqueci o mal e relaxei, enfim.
A partir de então, mais relaxado,
me percebi curado e não senti
mais mal nenhum em mim.
Alex Moura
a evolução dos sintomas
é mais intensa a cada dia.
Procuro, entre paliativos,
aliviar minha dor
desse mal que não sei qual é.
Para quê?
Seria melhor não saber?
Foi quando, resignado,
me entreguei ao destino,
esqueci o mal e relaxei, enfim.
A partir de então, mais relaxado,
me percebi curado e não senti
mais mal nenhum em mim.
Alex Moura
sábado, 16 de janeiro de 2016
Do processo (Publicado - Entre o quando e o quase)
Produto
de observação,
bruta,
sem limites
que possam domá-la.
Amá-la
depois de depurada
é tão fácil,
que parece errado.
Perfeição
se constrói,
por isso sou dado
à desconstrução,
ao processo,
ao inacabado
sem necessidade
da busca pela coisa
bem feita.
Talvez o fim
não seja o já,
mas o quando,
e nos limites
da arte a amo
ainda imperfeita.
Alex Moura
Produto
de observação,
bruta,
sem limites
que possam domá-la.
Amá-la
depois de depurada
é tão fácil,
que parece errado.
Perfeição
se constrói,
por isso sou dado
à desconstrução,
ao processo,
ao inacabado
sem necessidade
da busca pela coisa
bem feita.
Talvez o fim
não seja o já,
mas o quando,
e nos limites
da arte a amo
ainda imperfeita.
Alex Moura
sábado, 9 de janeiro de 2016
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
Carregando (Publicado - Entre o quando e o quase)
Cheiro de chuva se transforma em promessa:
hoje chove; hoje não;
e esse demoramento só se demora quando se espera.
Quando se esquece,
só vai se dar conta quando sente a chuva que era.
Cheiro de chuva se transforma em promessa:
hoje chove; hoje não;
e esse demoramento só se demora quando se espera.
Quando se esquece,
só vai se dar conta quando sente a chuva que era.
Mas não é assim que é a vida?
Se imagina uma eterna espera
quando na verdade é uma atenção distraída.
Em busca do quase se vive o quando
em meio à espera, atenção e à pressa,
e viver passa a ser confiar
naquele cheiro de chuva como promessa.
Alex Moura
Se imagina uma eterna espera
quando na verdade é uma atenção distraída.
Em busca do quase se vive o quando
em meio à espera, atenção e à pressa,
e viver passa a ser confiar
naquele cheiro de chuva como promessa.
Alex Moura
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