sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

já dizia Elis

não há
uma só teoria,
empírica ou
racionalista,
existencial
ou niilista,
que me faça
parar de
ranger dentes
e quebrar copos.

por
mau comportamento
fui desconvidado
do mundo,
uma festa lotada
que só toca
a música dos outros.

não suporto
mais equilíbrio,
fingi ser artista
só pra me jogar
da corda bamba;

somente na queda,
entre pulo e impacto,
fui quase feliz.

Alex Moura
antígeno

não queria
estar
onde estou,
me equilibrando
entre uma
e outra dimensão,
menos do mundo
que qualquer outro,
cuspido pra fora
dos tratados,
olhado ora de cima
ora de lado,
justificando fracassos
com a ilusão
de ser
mal interpretado.

acontece.

muitos me sabem,
poucos me julgam
e ninguém merece.

Alex Moura

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

reflexão

tenho acordado
sempre no mesmo
dia,
talvez seja essa
a mais terrível
prisão:
a que há um espelho
de frente pro outro,
pro outro, pro outro,
pro outro, pro outro...

Alex Moura

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

um minuto pra meia-noite (coletânea)

uma promessa
de meia-noite
vale mais
do que
qualquer outra.

talvez
seja esse
o critério
daquilo
que vai ser.

ultimamente
as meias-noites
chegam depressa
e as únicas coisas
que cabem amanhã
são promessas.

princípio
da utopia viva,
não o feito,
a tentativa;
entre lágrima,
sangue e saliva
temos nos tornado
especialistas
em inaugurar amanhãs.

Alex Moura
fenômeno

o som
existe em si,
fica aquietado
até que algo
lhe desperte.

o som
não está
no martelo
e nem está
no prego.

o som
é uma terceira
coisa,
que completa
aquilo
que seria
em silêncio.

Alex Moura
o picadeiro do mundo

na impossibilidade
de te saber
por inteira,
me divido
entre o que quero
e o que posso querer,
mesmo
que eu não esteja
tão seguro em dizer.

a humanidade
não percebe
o entorno,
aquilo
que se perde
do mundo
quando a ordem
é focar.
não se identifica
rizoma
e julga ser linear.

fazer o quê?
o que é cultural
nos precede
é às vezes
só nos admite
sonhar.
mas esse limite
que só me permite
o vislumbre
ainda é melhor
do que não vislumbrar.

Alex Moura
primeira turma

contesto
a existência
do tempo,
mas então
que diabos
os levou daqui?

ano que vem,
ao assinar
meus diários
de primeiro bimestre
terei menos dedos
nos dedos
e menos mãos
nas mãos.

eu olharei
dos muros pra dentro
e vocês não estarão.
pela primeira vez
aquilo que sempre
me fez
não estará por aqui.
nunca experimentei
nossa escola
sem vocês por aí.

mas a Aen
é escola ganha-mundo,
aquele segundo
em que percebo
que para tornar a vê-los
preciso olhar
dos muros pra fora.

vocês não cabem
mais em diários
ou pastas,
nem em salas de aula,
a partir de hoje
vocês povoam mundo
e quando eu tentar entender
no que contribuí
para o que cada um
se tornou
vou compreender
que foram vocês,
durante todo esse quando,
que me tornaram o que sou.

Alex Moura