terça-feira, 26 de abril de 2016

Lembranças que percorrem becos (Publicado - Ser das cidades)

Os contornos reais
de uma cidade,
aquilo que de concreto
se vê,
é a cidade em si
ou o que a fez ser?

Concretude!
Até quando pude
considerei cidades
tijolo, avenida, ruela.
Agora, pro bem delas,
olhei-as com olhos-cidade.
Verdades, se existem,
residem no curso da história,
porque cidades são,
mais do que pedra,
memória.

Alex Moura
ser contínuo (Trombando em jeitos)

qual sentido escapa
à consciência?
posso falar e não saber?
posso escutar e não saber?
cheirar, sentir ou ver?

consciência plena
submete ou é submetida?
sente ou é sentida?

quando tudo acabar
minha consciência
não se deve apagar
vai ser atraída pelas
consciências
que ainda estarão a brilhar
e através delas irá ouvir, ver, falar...

Alex Moura

sábado, 23 de abril de 2016

Pseudoausência urbana (Publicado - Ser das cidades)

O que uma sexta
e uma noite reservam:
reservas sociais,
isolamento da verborragia.
Ausente se sente mais
o que presente não seria capaz
pra sentir tudo o que se sentiria.

E o congresso? E a república?
O amor! A paz mundial!
E a semifinal?

Deixa estar. Vamos ver.
Uma mesa de bar
e uma caneta na mão
é o mais ausente
que uma cidade me permite ser.

Alex Moura
Inexorável (Publicado - Entre o quando e o quase)


Toalha
bem no limite
presa na cintura.
Mexendo muito cai.
Eu me vejo me olhando
com essa cara de velho
entrando e saindo do espelho.

Se nunca tivesse me visto
teria consciência de mim?
Às vezes penso que não.
Às vezes penso que sim.

Depressão inútil,
nada disso é preciso,
no fim do reflexo
estamos mais mortos do que Narciso.

Alex Moura
Consciência, pois,
é metafísica?
Meus olhos não veem.
Não cheira. Não pego.
Mas grita, dói
e deixa um puta gosto
de merda na boca.
Consciência pouca
é bobagem,
tem paladar pra te cobrar
qualquer sacanagem.

Alex Moura

terça-feira, 19 de abril de 2016

Sincretismo (Publicado - Entre o quando e o quase)


Eu,
quando cheguei a mim
não sabia o que ia encontrar.
Um eu meu que já me existia
hostilizaria o que iria chegar.

A ideia de Eleia,
de que sou uno, eterno e imutável,
assombra meu eu transmutado,
como se fosse errado dois eus num lugar.

Eu,
sendo rio de Heráclito,
ontem um, hoje outro,
amanhã improvável,
recorro ao sincretismo de mim
pra satisfazer o meu eu imutável.

Alex Moura

terça-feira, 5 de abril de 2016

das lembranças (trombando em jeitos)

Considerando o relativismo,
prefiro falar do lado bom
da saudade.

Linha-rizoma de tempo
que reserva a determinados momentos
urgências de felicidade.

Eu,
estranho no ninho,
peixe fora d'água,
não nego o prazer do momento,
mas ele existe em si e acaba,

no entanto,
mais do que seu instante,
limite que não avança,
prefiro a eterna saudade
do bem-estar que me ficou na lembrança.

Alex Moura

sábado, 2 de abril de 2016

legião (trombando em jeitos)

antes julgava ter uma legião
de mil demônios dentro de mim
e que eles sim determinavam
a minha conduta

hoje
mais sabedor de mim mesmo
tenho certeza que mil demônios
me habitam
mas descobri que sou eu a legião
e é de mim que eles têm medo.

Alex Moura

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Minério (Publicado - Entre o quando e o quase)

Angústia de estar só em mim
e nem assim combater os meus medos,
galopantes tormentos quando limites-represa
transbordam tsunâmicas ansiedades.

Não há como fugir pras montanhas.
Nenhum lugar é alívio seguro.
Não há como subir precipícios,
mas há como deles pular depois de tentar resgatar
lamas de serotonina do meu volume morto.

Absorto, tento extrair a razão,
virtude de aluvião, acalmar o estopim
e voltar pro lugar mais seguro de mim.

Alex Moura