quarta-feira, 30 de maio de 2018

Tudo está certo (Reflito)

há dias
que nunca nascem,
como se algum
degredado metafísico
segurasse Terra e Sol,
um em cada mão.

e as noites
ganham contorno
de eternidade,
verdade,
reverbera o breu
daquilo que já aconteceu.

a noite
não passa mais,
a noite fica!
o tempo é imóvel
a gente que estica.
há gente que conta,
há gente que espera.
agora nada mais era,
tudo é! tudo está!

lá,
do horizonte
sem alvorada,
o que pode se ver
é o céu da noite
se espalhando
pra tudo que é lado.
não existem mais sentidos,
rosa dos ventos quebrada
na noite
que nunca mais acabou -
continuou, continuou, continuou -
no mundo que não vai mais acabar.

perceberam
como as coisas são?
a finitude
era só um capricho da escuridão.

Alex Moura

terça-feira, 29 de maio de 2018

tanto faz (Trombando em jeitos)


meia-noite e meia
com angústia
do que ainda não fiz
e saudade
do que ainda faria

inevitavelmente
todas as noites acabam
essa também acabou
mas não começou
nenhum dia
nada começou
devo estar preso
entre o amanhã
e o ontem
ocupo aquele silêncio
entre as palavras

estou no não-dito
lá onde nascem
as ideias
que não se consumam
porque nada começou
preso na transição
intercessão de polo nenhum
não sei se no vácuo
ou no oco
naquele não-lugar
meio louco

talvez eu seja agora
aquele destituído
de todas as experiências
sendo só eu
matéria pura
folha em branco
não-sendo
como nunca fui.

Alex Moura
fatality

se a morte
me procurar agora,
que seja rápida
e rasteira.
sábia e certeira,
para que não faça
a besteira
de me fazer sofrer.
mais do que pena
tenho preguiça de morrer.

Alex Moura