quinta-feira, 28 de março de 2019

Pedras rolando

há sempre o que esperar
por trás dos muros
do último segundo.
todo o tempo
é de partida e chegada.

parti do último segundo,
cheguei no próximo
e o tempo, corrente,
contínuo por convenção,
é o porto onde atracam
todas as nossas expectativas.
o devir é o destino
de todas as pessoas vivas.

Alex Moura

terça-feira, 19 de março de 2019

os pés são naturais (haja haja)

nunca consegui
pisar descalço
terrenos acidentados
com pedrinhas.
a sola dos pés
que sustentam
minha vida,
sempre me pareceram
sensíveis.

ficava pra trás
nas disputas
pela bola
nos campos
de terra batida.

precisava fazer forte
minha alma,
mas não sabia
que precisava
e por conta disso
recorri aos sapatos.

triste recurso
me privar dos contatos
com o chão do mundo
julgando que calçado
eu duraria mais.

ledo engano:
nunca tive um sapato
que acompanhasse
o visceral crescimento
dos meus pés.

Alex Moura


domingo, 17 de março de 2019

Physico

poeta,
esse ser maldito
que julga
viver nas palavras,
mas ocupa somente
o espaço
entre aquilo que foi dito.

não é o verbo,
mas a retomada de ar
pra poder falar.

o barulho
do poema no mundo
é preciso
pra que percebam
aquilo
que já existia em silêncio.

Alex Moura

segunda-feira, 11 de março de 2019

proibidão (haja haja)

há sonhos
que carregam
uma sentença,
como se fosse
uma crença,
que só pra trás
dos olhos fechados
sua sanha acontece.

mas o que
a gente esquece
é que olhos abertos,
urgência acordada,
nos revelam
o mundo de fora.
e olhos fechados,
relaxo de sonho,
realizam
o proibido de dentro.

Alex Moura
a voz passiva

sem entender bem
a natureza de tudo
ou de qualquer coisa,
avisto montanhas
que me escalam,
labirintos
que me percorrem,
lágrimas
que me choram.

abandonei o abandono
na noite que me anoiteceu
e que fiz adormecer o sono.

subversivo,
morto é quando mais vivo.

Alex Moura
ignorantia

se um dia eu morrer
sem admitir quem fui
morro em dobro.

se morrer
sem saber quem fui
não sei qual vivo
e nem qual morro.

a ignorância transita
entre a dúvida
e o socorro.

Alex Moura
Entre o quando e o onde

o início e o fim
limitam no espaço
um tempo forjado,
tão errado
quanto julgar
que o Big-Bang
explodiu atrasado.

a necessidade do início
é um vício humano
que recorta em um ano
aquilo que é onde
e que nós, temporais,
julgamos ser quando.

Alex Moura