domingo, 5 de novembro de 2017

ponto cego (trombando em jeitos)

antes a imagem
a voz o cheiro
as manias
os elogios e as críticas
tão cítricas quanto doce
tudo isso antes que fosse

antes o pisar
e antes do pisar
o andar
que cada um
anda de um jeito
antes ocupando espaço
a forma pensante e a extensa
antes a vida a fala o olhar
o toque a presença

agora o vácuo
o tempo
o espaço desocupado
abrigando silêncio
agora vazio antes extenso

vão-se os momentos
daquilo que era
ficam os números
daquilo que foi
e um punhado de documento
identidade óbito e nascimento
envelhecendo em pasta de cartolina

agora as fotos
os discos os livros
os rótulos
que empalideceram
na falência da esperança
o sonho a memória
o quase a lembrança

aquilo que foi
transmutado naquilo
que coube ter sido
o cumprido a urgência
a saudade a ausência
o partido.


alex moura