segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

temporal (coletânea)

desconfio
que a arte
tem parte
com a
natureza.
há tempos
sem abrigar
artistas,
o coreto
da minha rua
protegeu da chuva
diversos anonimatos,

os artistas mesmo
dançavam e brincavam
nela.

Alex Moura

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

caso reto

tem sido
tão frequente
começar o poema
na primeira pessoa
do singular

egocentrismo,
mediocridade
ou solidão?

Alex Moura

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

paralelo (ser das cidades)

há quem diga
que o prédio
está caindo
porque
os quadros
da parede
estão tortos.

quem no mundo
riscou
a Linha do Equador
pra definir
o que é retidão?

pros deuses
reto nem existe.

Alex Moura

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

vinte e três de novembro

devo ter cruzado
uma das emendas
do tempo
que me transformou
em outro.

o tempo
não é obediente
pra se submeter
à obrigação
de trezentos
e sessenta e cinco
dias
imposta por nós.

o tempo
é que nos conta,
sob seu
ponto de vista
eu nem sei
quantos anos tenho.

Alex Moura

terça-feira, 3 de setembro de 2019

poema dos 40 anos (trombando em jeitos)

demora-se
um tanto de tempo
para nos tornarmos
quem somos
e outro tanto
para nos tornarmos
quem seremos

eu amo aquela
que você foi
justamente porque
foi ela
que fez quem você é
eu amo (como pode?)
aquela que você será
porque será
justamente
dessa que hoje você é

isso não significa
que eu te ame
através do tempo
significa que eu te amo
através do ser

é exatamente
isso que significa

eu não amo
aquela que foi
ou a que virá
eu amo aquela que fica.

Alex Moura

domingo, 1 de setembro de 2019

conversa sobre botas batidas

subverter a ordem
e consumar
sua vontade
dos beijos que quem pode
não te deu.

foi assim
que meu mundo recente
cresceu,

mas há esperança
na subversão
de consumar
vontades que são minhas
e que não tenho permissão

e, pelo menos,
por um breve instante
da temporalidade
viver, consumado,
no demorado
do seu abraço.

Alex Moura


sábado, 17 de agosto de 2019

ontologia (Reflito)

não somos
aqueles que dizemos
nem os que mostramos.
o ser revelado
é um quase-nós.

imanente, o ser,
só resiste na gente.

esse poema, por exemplo,
não é esse de verdade,
eterno,
foi limitado
pela folha do caderno.

Alex Moura

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

debaixo dos guarda-chuvas (ser das cidades)

nos dias cinzas
a cidade,
encoberta por nuvens,
revela pouco de si.

o que vemos
do alto
dos arranha-céus,
entre esbarrões
e desvios,
são guarda-chuvas
protegendo urgências.

e lá se vão
milhares de mundos
carregando seus medos,
coragens, confissões e segredos.

Alex Moura

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

existencialismo (Reflito)

existir não foi
uma opção,
existimos e isto
é posto.
não lembro do gosto
de não existir,
por isso
vou demorando aqui.

para os que estão
no front,
cada arma
do inimigo no chão
é uma guerra vencida.

será que a bala
que me matará
já foi produzida?

Alex Moura

quinta-feira, 25 de julho de 2019

brisa (trombando em jeitos)

tudo o que falo
parece que vem
de fora de mim

transpasso
o fim daquele
que deveria ser
e assim
me continuo...

sendo
aquele que fui
mais a potência
do que serei
ou do que seria
ou do que não sei.

Alex Moura

cogito ergo sum

já pensei
na pressão da corda
no pescoço,
na pressão da bala
nas têmporas,
na pressão da lâmina
nos pulsos
e continuo vivo.

Descartes,
que já não pensa,
deveria ter lido isso.

Alex Moura

quarta-feira, 24 de julho de 2019

quase epicurismo

não deveria
ser natural
temer
o que é natural.

a morte
deveria ser
encarada
sob o ponto de vista
da morte

e não do mortal.

Alex Moura

quinta-feira, 11 de julho de 2019

passeio público (ser das cidades)

fitou olhos
que não conhecia
e aquilo
foi tão familiar...

encontrou abrigo
nos braços
que não abraçam...

encarava
o desvio dos olhares
que não olham
e reconhecendo-se
naquela ausência
sentiu falta
de se completar.

Alex Moura

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Let it be (Reflito)

toda existência
é espaço.
estar sempre
dependeu de onde.

toda existência
é tempo.
estar sempre
dependeu de quando.

toda existência
é forma.
estar sempre
dependeu de como.

toda existência
é alguém,
estar sempre
dependeu de quem.

Alex Moura
imobilismo (ser das cidades)

o problema
de sermos
sol de nós mesmos
é que não giramos
ao redor de ninguém.
deve ter sido
isso que aconteceu
com aquele cara
que o Chico falou
que morreu
na contramão
atrapalhando o sábado.

Alex Moura

domingo, 23 de junho de 2019

silêncio de escuro (ser das cidades)

o espaço que ocupamos
no mundo recortado
em tiras de tempo
que tiramos pra nós,
filetinho de feriado a sós.

escuro de quarto
de cortina preta
escondendo o meu mundo
entrando no seu.

o barulho que entregamos
à vizinhança
não permite a desconfiança
de que, muito mais do que grito,
produzimos gemidos de foda
em tamanha elegância
que disfarça a ânsia
dessa nossa trepada
abafada
por rock clássico.

Alex Moura

quarta-feira, 19 de junho de 2019

feriadão (Coletânea)

fadiga de mundo,
planos de ser
somente até onde.
adormecer na duração
de um quando
e despertar na companhia
de um quem.
ficar do lado fraco
da luz
onde o escuro de tudo
nos permite nus.

Alex Moura

terça-feira, 4 de junho de 2019

independência

carência de quietude,
vontade de quebrar
lâmpadas de holofote.
voltar pro dentro de mim,
opaco de tarde escura,
meio morte e meio cura
daquele que nunca
cheguei a ser.

sou agora esse silêncio
do não-dizer
e vou me deixando pra trás,
pra sempre, até nunca mais,
com mais preguiça
do que medo de morrer.
fali aquele que fui
antes daquele que esperava ser.

Alex Moura

domingo, 26 de maio de 2019

científico

o mundo perfeito
de ontem
foi perfeito pra ontem,
o que me ocupa agora
é mudá-lo.

Alex Moura
estava à toa na vida (haja haja)

casa também é
se deslocar, se acomodar,
se acostumar.
ir e estar, ir e estar,
voltar e ficar.
viver pra sempre
no mesmo lugar até mudar.

a potência que a mudança traz
também é meu lar.

Alex Moura

terça-feira, 14 de maio de 2019

poema para apartamentos novos (trombando em jeitos)

esses sentimentos
que desconhecem
limites de parede
transpassam
cômodos e incômodos

o que parte ansioso
da sala
chega otimista
à cozinha
copo cheio
a stout é sua
a ipa é minha

um brinde exalta
que onde quer
que estejamos
com quem quer
que seja
na linha
do novo olhar
estaremos sempre
a sós

prega aqui
esse quadro
arrasta pra lá
o sofá
e abre aquele
vinho pra nós.

Alex Moura

domingo, 12 de maio de 2019

fuga

pensei em
me embriagar
pra ter coragem
de me matar.

no entanto,
embriagado,
não fiz.

bêbado
é quando
eu sou mais feliz.

Alex Moura
estimado

como nutrir
amor-próprio assim?
sem nunca
acreditar no amor?
sem nunca
acreditar em mim?

Alex Moura

sexta-feira, 10 de maio de 2019

PARE (Ser das cidades)

sinal vermelho,
fechado
para o pedestre.
a contagem regressiva
do equipamento
confirma que vidas
pararam por um
momento.

parecer
uma eternidade
confirma
a ansiedade
pela urgência
da necessidade
de retomarem
suas vidas.

quando, enfim,
o sinal indica: siga!
há uma placa
para cada consciência
sinalizando vida que segue.

Alex Moura

terça-feira, 7 de maio de 2019

mudança (Trombando em jeitos)

fazer dobras
no tempo
até se deslocar
para mais perto
de tudo
que ainda será

do ponto
de onde estou
entrego as chaves
do que passou
no ponto
onde vou chegar
recolho as chaves
do que virá

tantos que já fui
em tantos lugares
que já estive
que sou o tanto
de possibilidades
de quem vive

não sei
onde começo
e nem conheço
o meu fim
há muito mais gente
do que eu em mim

Alex Moura

terça-feira, 30 de abril de 2019

quebrando a banca

tem vida
que é assim,
que se vive
em busca
de felicidade,
como se fosse
necessidade
ser feliz.

ser feliz
não é preciso.
nem viver
é preciso.
tudo é uma
grande aposta
em que a vida
é sempre capaz.

nunca soube
quem morreu
dois dias
e só conheço
quem viveu
bem mais.

Alex Moura
eternidade

quem dera
morrer
no meio
de uma
declamação
e viver
dentro
de um poema
pra sempre.

Alex Moura
só o que fica (Reflito)

a esperança
é legalista,
branda
e chapa branca,
sua cara ser
a última que morre.
mas as promessas não,
elas são eternas.
as minhas, pelo menos,
nunca se cumprem.

Alex Moura
varanda

eu precisava,
agora,
fazer um poema
onipotente.
que fosse tão foda
que você esquecesse
até que tá doente.

um poema
que te fizesse levantar,
botasse o dedo
na minha cara
pra me contestar.
eu, que simulo força,
iria amar.

Alex Moura
Boa Viagem (Reflito)

hoje eu parei
para olhar estrelas,
que só podemos
percebê-las
através da luz
refletida há muito.

meu filho
estava comigo,
num misto
de herança
e melhor amigo
percebendo
estrelas no escuro.

eu, ele e estrelas
na simbiose entre
presente, passado e futuro.

Alex Moura

sábado, 20 de abril de 2019

Schopenhauer a vontade

não se trata
só de tratado
filosófico:
esperar
é a maior
ação humana.

tudo é aguardo:
a hora do trem,
a hora do almoço,
resultado do Enem.
tudo é aguardo,
até pra quem
a hora do almoço
nem vem.

inútil
se trancar
no presente,
porque certamente
se espera
algo dele também.

a humanidade
está condenada
à expectativa,
daí meu pavor
de uma consciência
eternamente viva.

Alex Moura
que a força esteja com você

corre pros braços
daquilo que
te faz bem.
corta os braços
que abraços
não precisam deles.
e quando agradecer
pelo suporte que teve,
ouvirá:
mas eu nem te segurei.

Alex Moura
verdades universais

julguei
que ultimamente
me tem faltado
engenho,
coisa que
nem sei se tenho.

já ouvi isso
de tanta gente
logo depois
de declamarem
aquele poema
do Pessoa que diz
que todo poeta mente.

Alex Moura
sem lei

"todo mundo
espera
alguma coisa
de um sábado
à noite...",
mas de uma
segunda-feira não.
prática em dia útil
com sede de álcool
e subversão.

todo dia é dia
de nada, de tudo
e qualquer coisa.
faça como tu queres
porque tudo é nada,
tudo e qualquer coisa
e o mundo
não espera pra ser,
por que ele esperaria você?

Alex Moura
seleção (trombando em jeitos)

horário notícia
story saudade
fascismo apê
espirros mestrado
tese oitenta tiros

viver o mundo
é uma ação
que só
faz sentido
quando alguém
vive tudo isso
contigo

deve ser por isso
que a gente escolhe
um pouquinho
do mundo todo
pra chamar de amigo.

Alex Moura

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Deveres humanos

não devia haver
hora pra tudo,
nem pra nada.
estamos sempre
dentro ou fora
daquilo em que
deveríamos estar.

devemos sempre
estar, fazer,
a ação contínua
de estar fazendo.
não estar, ou não fazer,
é estar, ainda que devendo.

não devia haver
hora pra tudo,
nem pra nada:
hora de cortar as unhas,
de pagar a luz,
de trocar toalha,
de pedir trocado.
nada deveria dever.

para além de tudo
que esperam de mim
eu só deveria ser.

Alex Moura

quinta-feira, 28 de março de 2019

Pedras rolando

há sempre o que esperar
por trás dos muros
do último segundo.
todo o tempo
é de partida e chegada.

parti do último segundo,
cheguei no próximo
e o tempo, corrente,
contínuo por convenção,
é o porto onde atracam
todas as nossas expectativas.
o devir é o destino
de todas as pessoas vivas.

Alex Moura

terça-feira, 19 de março de 2019

os pés são naturais (haja haja)

nunca consegui
pisar descalço
terrenos acidentados
com pedrinhas.
a sola dos pés
que sustentam
minha vida,
sempre me pareceram
sensíveis.

ficava pra trás
nas disputas
pela bola
nos campos
de terra batida.

precisava fazer forte
minha alma,
mas não sabia
que precisava
e por conta disso
recorri aos sapatos.

triste recurso
me privar dos contatos
com o chão do mundo
julgando que calçado
eu duraria mais.

ledo engano:
nunca tive um sapato
que acompanhasse
o visceral crescimento
dos meus pés.

Alex Moura


domingo, 17 de março de 2019

Physico

poeta,
esse ser maldito
que julga
viver nas palavras,
mas ocupa somente
o espaço
entre aquilo que foi dito.

não é o verbo,
mas a retomada de ar
pra poder falar.

o barulho
do poema no mundo
é preciso
pra que percebam
aquilo
que já existia em silêncio.

Alex Moura

segunda-feira, 11 de março de 2019

proibidão (haja haja)

há sonhos
que carregam
uma sentença,
como se fosse
uma crença,
que só pra trás
dos olhos fechados
sua sanha acontece.

mas o que
a gente esquece
é que olhos abertos,
urgência acordada,
nos revelam
o mundo de fora.
e olhos fechados,
relaxo de sonho,
realizam
o proibido de dentro.

Alex Moura
a voz passiva

sem entender bem
a natureza de tudo
ou de qualquer coisa,
avisto montanhas
que me escalam,
labirintos
que me percorrem,
lágrimas
que me choram.

abandonei o abandono
na noite que me anoiteceu
e que fiz adormecer o sono.

subversivo,
morto é quando mais vivo.

Alex Moura
ignorantia

se um dia eu morrer
sem admitir quem fui
morro em dobro.

se morrer
sem saber quem fui
não sei qual vivo
e nem qual morro.

a ignorância transita
entre a dúvida
e o socorro.

Alex Moura
Entre o quando e o onde

o início e o fim
limitam no espaço
um tempo forjado,
tão errado
quanto julgar
que o Big-Bang
explodiu atrasado.

a necessidade do início
é um vício humano
que recorta em um ano
aquilo que é onde
e que nós, temporais,
julgamos ser quando.

Alex Moura

domingo, 17 de fevereiro de 2019

catálogo (haja haja)

tudo o que acontece
na minha vida
é simples repetição.
há tempos não me ocorre
nada pela primeira vez,
crise de inéditos.
pra onde o resfolegar
da expectativa?
a ansiedade bem-vinda
do medo do desconhecido?

hoje tudo o que é, já foi,
falsos deuses, velhos amigos.
em tempos de amores líquidos
frio na barriga
se resolve com Omeprazol.

Alex Moura
Domingo

um domingo acabando,
ficando, pra trás do mundo.
se tempo existisse
eu diria que ele
acabou de passar por mim,
mas não me levou
nem trouxe outro de mim
pra ser eu nesse lugar que sou.
o espaço determina o tempo:
fosse maior a Terra, ou o Sol,
quantos anos você teria?

Alex Moura
Essência

nenhum passo dado
permite os dois pés
no mesmo lugar,
um apoia
pro outro andar,
mas tão importante
quanto onde um
vai chegar
é saber onde
o outro vai estar.
pisar é pra dar sustento
e não pra esmagar.

Alex Moura

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Quem manda na mata (Ser das cidades)

em busca das notas
de um piano de cauda
que comanda o coro
des muites
bem no meio da rua,
bem no meio do Rio.

a Folha Seca
que canta em Simas
o seu parabéns pra vocês,
o seu sincretismo
de golzinho feito
de chinelo velho
em rua de terra batida,
depois de escolher
os times no par ou ímpar
entre Oxóssi e Sebastião.
não tem juiz,
mas morubixaba,
que apita o jogo e dá o tom
da roda enquanto o couro come.

avisa lá que esse pagode da gente
é pra ouvidor-mor ouvir, calado.

Alex Moura
Lições de navegação

ter um oceano
à frente,
potência
de navegação.
de onde estou
percorro
com os olhos
todo mar
quanto possível
até a ilusão
do horizonte.

lá,
onde não
chego de todo,
nada alcanço,
me volto
pro tátil da praia
onde não canso
de imaginar
o teu nome na areia.

Alex Moura

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

para onde isso leva?

a prontidão
para aquilo
que não se sabe
que vai ocorrer,
atenção eterna
ao talvez,
ou ao nada,
ao não saber
o que é
ou o que será.

e se um dia
não for,
nunca saber
será idem
a saber
desde sempre.
e se um dia for,
como saber
que já é?

a sabedoria
é algo entre
o oco e o vácuo.
quando faltar
a última
das consciências,
jamais saberemos
que nunca houve
nada a saber.

Alex Moura

domingo, 13 de janeiro de 2019

poema de apartamento (trombando em jeitos)

gato a espreita
na porta
esperando a hora
de entrar
não importa
o quanto vai demorar

eu que observo
julgo que levou
muito tempo
até o gato
alcançar o lado
de dentro
mais do que eu
poderia esperar

o gato
sem sintomas
de ansiedade
não sabe
que perdeu tanto tempo

quem julga que perdeu
somos nós
que inventamos
o demoramento
nunca nos permitimos
a espera
pressa é coisa de gente.

Alex Moura