terça-feira, 27 de setembro de 2016

inconstante (Trombando em jeitos)

pé de vento
barco a reboque de vela até não
porque maré é de lua
às vezes de um jeito
às vezes de outro

se hoje pacífico
amanhã choro
um atlântico bravo

depois rio rio rio
até desaguar num mar
nunca navegado por mim.

Alex Moura
Andando chãos (Ser das cidades)

Sou produto do cuspe do mar,
que rejeita pedra e concreto.
Mar é abstrato,
tem trato com metafísica
e contemplação.

Urbano que sou,
esfumaço mais
do que espumo,
ando em calçadas mais
do que em areia,
não deixo pegadas,
quase nunca descalço-me.

Vez por outra,
ao invés de conchas,
piso em merda,
não por pessimismo,
mas naturalidade.
Mais opacos do que úmidos
são os chãos das cidades.

Alex Moura

terça-feira, 20 de setembro de 2016

precisamos falar das chuvas (Trombando em jeitos)

é preciso falar sobre chuvas
e na mesma proporção
senti-las em seus balés
de rasga-céu

na janela do apartamento
experimento
cochichos de nuvem

sentir chuva
não aquela de braços abertos
rodando na praça
mas a de olhos fechados
do mundo pra dentro

daquelas que quando caem
eu saio correndo
e no pé da porta me grito
pra dentro de mim.

Alex Moura

domingo, 18 de setembro de 2016

Onomatopeia de uma bomba-relógio

Ontem mesmo perdi um dente,
assim por descuido e depreciação.
Estou começando a falir, desaparecer,
confirmando o percurso histórico
até não ser.

Alex Moura
Galilei (Trombando em jeitos)

depois que eu vi
que o mundo é redondo
meus olhos me inquiriram:

será que a pupila dilata
para caber o mundo?

Alex Moura
Dexistencialismo

Respirei fundo segredos de alma
e senti frágil o cheiro da morte,
não sei se veio da alma ou do segredo.
Naturalmente sentiria medo,
mas não senti.

Ora! Natural que respirar forte
traga tudo entre vida e morte.
Minha fé é reconhecer o cheiro
no lugar de disfarçar não existir.

Alex Moura

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Notas de um camaleão (Trombando em jeitos)

a inúmeras
interpretações resisto
existo a partir
da conclusão que sou
e vou trombando em jeitos
em aspirações, em agora vai
não vai ou que não sei se foi

tudo é possibilidade de ser
e por ser possibilidade
também não é
mas quando for
um de mim há de saber que é
em detrimento dos outros
que não sei quem sou

porque ser
tem dessas dificuldades mesmo
e nas tentativas erradas
eu sou o erro
tentar é minha ação

o que já sou
é o que me forma
menos as coisas que ainda não fui
e que até hoje não sei quais são.

Alex Moura

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A pauta (Cozinhando o golpe)

Ano a ano
me vem à cabeça Galeano
justificando a existência da utopia.
Rebelde sem doma, o danado dizia
que servia pra caminhar.

Senhor dos dizeres sonhados
e dos sonhos ditos
não imaginava, acredito,
a existência da AEN
que já é utopia que nos faz andar.

Soberano, há sempre pra Galeano
nossa sincera concessão de desculpa;
sem culpa, mestre que era, não sabia
que a AEN está para além da utopia.

Alex Moura
Refúgios elétricos (Ser das cidades)

A periferia como coisa que sobra,
obra em camada de valência,
distante do núcleo
à margem das aparências.

Atônitos, átomos que somos,
perdendo aquilo que tínhamos
nos resta o êxodo dos restos,
refugiados elétricos.
Partimos de um porto de cátions
e embarcamos futuros
em nosso mar de elétrons.

Alex Moura

terça-feira, 6 de setembro de 2016

d(g)ramático (poemas ruins)

Acredito que o poeta
seja um sujeito
que já esteja meio morto,
e aquilo que entende
por vida plena
seja apenas a peleja
entre morte e vida.

No lugar de agente
e senhor da razão,
sofre a ação
dos seus substantivos,
que mortos ganham formas
de verbos vivos:
sua pedra o apedreja,
o mosquito o mosquiteia,
o tempo entempando
enteiando-o na sua teia.

A poesia é o grito
da sobrevida sobre a morte,
com sorte
sobrevive à meia-vida
enquanto os substantivos
suicidam ele.

Alex Moura
devir de cecilia (Trombando em jeitos)

não somos simbiose entre nós
porque simbiose é dependente
e o que me move
é a surpresa de enxergar você
quando não acho a mim

assim, você é mais em você
do que pode ser em mim
e o viço impetuoso reside aí
ter sempre você a descobrir

quando me falto sei que acabo ali
busco você em você mesma
conhecedor de parte de ti
exploro tudo aquilo que você permitir
e me completo com a excitação de saber
que tem mais de você por vir.

Alex Moura