terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Quem manda na mata (Ser das cidades)

em busca das notas
de um piano de cauda
que comanda o coro
des muites
bem no meio da rua,
bem no meio do Rio.

a Folha Seca
que canta em Simas
o seu parabéns pra vocês,
o seu sincretismo
de golzinho feito
de chinelo velho
em rua de terra batida,
depois de escolher
os times no par ou ímpar
entre Oxóssi e Sebastião.
não tem juiz,
mas morubixaba,
que apita o jogo e dá o tom
da roda enquanto o couro come.

avisa lá que esse pagode da gente
é pra ouvidor-mor ouvir, calado.

Alex Moura
Lições de navegação

ter um oceano
à frente,
potência
de navegação.
de onde estou
percorro
com os olhos
todo mar
quanto possível
até a ilusão
do horizonte.

lá,
onde não
chego de todo,
nada alcanço,
me volto
pro tátil da praia
onde não canso
de imaginar
o teu nome na areia.

Alex Moura

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

para onde isso leva?

a prontidão
para aquilo
que não se sabe
que vai ocorrer,
atenção eterna
ao talvez,
ou ao nada,
ao não saber
o que é
ou o que será.

e se um dia
não for,
nunca saber
será idem
a saber
desde sempre.
e se um dia for,
como saber
que já é?

a sabedoria
é algo entre
o oco e o vácuo.
quando faltar
a última
das consciências,
jamais saberemos
que nunca houve
nada a saber.

Alex Moura

domingo, 13 de janeiro de 2019

poema de apartamento (trombando em jeitos)

gato a espreita
na porta
esperando a hora
de entrar
não importa
o quanto vai demorar

eu que observo
julgo que levou
muito tempo
até o gato
alcançar o lado
de dentro
mais do que eu
poderia esperar

o gato
sem sintomas
de ansiedade
não sabe
que perdeu tanto tempo

quem julga que perdeu
somos nós
que inventamos
o demoramento
nunca nos permitimos
a espera
pressa é coisa de gente.

Alex Moura