sexta-feira, 23 de outubro de 2020

pra dentro (as várias noites de um mesmo dia)


a decisão

sobre minha vida

não é minha.

há algum tempo

o poder

sobre quem vive

e quem morre

reside no anonimato.

a loteria sobre

morro ou mato.


é estar isolado

e andar

com os pés dos outros

um caminho

que eu não percorri,

e viver decrescendo

catorze como se eu

mesmo estivesse ali.


a curva

do meu contágio

já não demonstra

ascensão

ou achatamento,

se confunde

numa espiral

entre o inicio, o fim

e o demoramento.


lamento

de quem já

morreu por dentro

e não abandona

o isolamento

por ter certeza

que aquilo que tinha

não resistiria

ao menor pé-de-vento.


Alex Moura

terça-feira, 20 de outubro de 2020

aporia (as várias noites de um mesmo dia)


melhor seria

se entregar,

se as pernas

não alcançam

o tamanho

do passo

necessário.


correndo

atrás do sol,

percebi

como era pequena

minha sombra

projetada

pelos refletores

que passaram

a iluminar

as minhas dores

por não me mover

de onde estou.


a pequena parte

do mundo

que guardei comigo

expirou.

somente a mim

não entusiasma

tocar de novo

o desejo de vida,

talvez porque

não caibam

mais planos

àquilo que já está

meio morto.


talvez seja

essa a

minha completude.

avancei até

onde pude

e quando me julguei

paralisado,

me transformei

nas reticências

do meu inacabado...


Alex Moura

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

treze de março (as várias noites de um mesmo dia)


e no meio

de uma tarde

de sexta

precisamos

urgentemente

guardar o mundo.


recolhemos,

de fora

pra dentro,

aquilo

que nos faria

viver.


e entre ansiedade,

memória e saudade

recorri à capacidade

de saber sofrer.


Alex Moura