eu vi o tempo (Trombando em jeitos)
tive uma experiência
com o tempo:
por um momento
fiquei parado
entre aquele que
acabei de ser
e aquele
que ainda seria.
preso na letargia
tentando me perceber
no instantâneo
underground de mim
subterrâneo
percebia quem já me existia.
difícil se compreender
no presente
quando julgamos que sim
já estamos à frente
fluxo que não se prende
o tempo passa
não fica.
sempre!
o tempo que fica
já passou
e se passa é tempo.
passa
tempo.
Alex Moura
terça-feira, 25 de outubro de 2016
Entre o sol, a chuva e a lua (Trombando em jeitos)
Durante toda minha vida
julguei gostar de sol.
Descobri aí
que julgar é errado,
porque, de fato, nunca gostei,
sempre vivi da chuva.
Paisagem turva,
que não se apresenta
de uma só vez,
você vai descobrindo
durante um dia, semana, um mês.
Dependendo do vento, três.
Carioca que sou,
o verão sempre
me foi imposto:
- Bora pra praia!
- Qual praia?
- Qual posto?
E sempre fui indo,
me construindo
aquele que nunca fui,
mas os dias passam,
meses e anos,
e mais seguro
já esboço meus planos.
Dado à boêmia
ninguém desconfia
do meu apreço pela reclusão.
É proibido, no Rio, ter depressão?
Sou morno à temperatura quente,
diferente, na rua busco o abrigo.
Abrigado busco a rua.
Para além da chuva,
minha treta com sol é a lua.
Alex Moura
Durante toda minha vida
julguei gostar de sol.
Descobri aí
que julgar é errado,
porque, de fato, nunca gostei,
sempre vivi da chuva.
Paisagem turva,
que não se apresenta
de uma só vez,
você vai descobrindo
durante um dia, semana, um mês.
Dependendo do vento, três.
Carioca que sou,
o verão sempre
me foi imposto:
- Bora pra praia!
- Qual praia?
- Qual posto?
E sempre fui indo,
me construindo
aquele que nunca fui,
mas os dias passam,
meses e anos,
e mais seguro
já esboço meus planos.
Dado à boêmia
ninguém desconfia
do meu apreço pela reclusão.
É proibido, no Rio, ter depressão?
Sou morno à temperatura quente,
diferente, na rua busco o abrigo.
Abrigado busco a rua.
Para além da chuva,
minha treta com sol é a lua.
Alex Moura
domingo, 23 de outubro de 2016
A verdade é dura... (Cozinhando o golpe)
Há uma cortina de fumaça
entre as sinapses do cidadão
e a paisagem
de janela de televisão.
Realidade com horário
e programação.
Há quem julgue
que a posse do controle remoto
seja conceito de liberdade
e o domínio de um botão
te leve à verdade.
Mentira!
Precisamos te contar
um segredo:
o medo de descobrir
que esse deus mentiu
não permite confirmar
que o mundo exibido
nunca existiu.
Andarilho que vagueia
entre o intervalo
de canal aberto e fechado:
você passeou pelo globo errado.
Arrebenta a corrente,
sai da caverna e mire o sol
com seus próprios olhos,
entolhos não resistem à liberdade.
A realidade, agora,
é o que você quer que seja.
Não veja! Não!
Não veja realidade
em capa de revista,
ela nunca esteve lá,
nunca te quis protagonista.
Insista na sua transmissão.
Em um mundo mediado por razão
é você quem define
as cenas do próximo capítulo.
Alex Moura
Há uma cortina de fumaça
entre as sinapses do cidadão
e a paisagem
de janela de televisão.
Realidade com horário
e programação.
Há quem julgue
que a posse do controle remoto
seja conceito de liberdade
e o domínio de um botão
te leve à verdade.
Mentira!
Precisamos te contar
um segredo:
o medo de descobrir
que esse deus mentiu
não permite confirmar
que o mundo exibido
nunca existiu.
Andarilho que vagueia
entre o intervalo
de canal aberto e fechado:
você passeou pelo globo errado.
Arrebenta a corrente,
sai da caverna e mire o sol
com seus próprios olhos,
entolhos não resistem à liberdade.
A realidade, agora,
é o que você quer que seja.
Não veja! Não!
Não veja realidade
em capa de revista,
ela nunca esteve lá,
nunca te quis protagonista.
Insista na sua transmissão.
Em um mundo mediado por razão
é você quem define
as cenas do próximo capítulo.
Alex Moura
a paciência do não-lugar (trombando em jeitos)
ainda existimos
no compasso da espera
no trânsito congestionado
em cima da guanabara
pra chegar do outro lado.
tenho uma vida
nesse lado da ponte
que continua no lado de lá
mas como existir
no caminho parado
disfarçado de não-lugar?
tenho o mundo
ao alcance da mão
na insistência ociosa
do celular
mas no meio da ponte
eu não posso vivê-lo
só se eu chegar ou voltar.
desisto da ansiedade
considero o entorno
e observo que existe
um pouco de mim
nesse eu que vive na ponte
que aguarda estoico assim
brincando de juntar o cinza
do céu e do mar no horizonte
como é bom me encontrar
comigo que vim
comigo que estou
e com o que vai chegar.
o que estou agora
não poderá mais escrever
porque o trânsito começou a andar.
Alex Moura
ainda existimos
no compasso da espera
no trânsito congestionado
em cima da guanabara
pra chegar do outro lado.
tenho uma vida
nesse lado da ponte
que continua no lado de lá
mas como existir
no caminho parado
disfarçado de não-lugar?
tenho o mundo
ao alcance da mão
na insistência ociosa
do celular
mas no meio da ponte
eu não posso vivê-lo
só se eu chegar ou voltar.
desisto da ansiedade
considero o entorno
e observo que existe
um pouco de mim
nesse eu que vive na ponte
que aguarda estoico assim
brincando de juntar o cinza
do céu e do mar no horizonte
como é bom me encontrar
comigo que vim
comigo que estou
e com o que vai chegar.
o que estou agora
não poderá mais escrever
porque o trânsito começou a andar.
Alex Moura
quinta-feira, 20 de outubro de 2016
ser ou não ser (Trombando em jeitos)
levei décadas
até agora quatro
para ser mais exato
para me tornar quem sou
e as mesmas quatro
para me tornar quem não sou
há muito de nós
em quem não somos
sou eu
no meu café sem açúcar
mas sou pela falta do açúcar
e não sou na sua presença
não estar no café doce
também me faz ser eu
mesmo que não fosse.
ser e não ser
mais unidos que separados
distância que amarra
um laço forte
eu sou e não sou.
i am not!
haverá sempre sua ausência de ser
quando eu for à américa
e não lembrar de você.
Alex Moura
levei décadas
até agora quatro
para ser mais exato
para me tornar quem sou
e as mesmas quatro
para me tornar quem não sou
há muito de nós
em quem não somos
sou eu
no meu café sem açúcar
mas sou pela falta do açúcar
e não sou na sua presença
não estar no café doce
também me faz ser eu
mesmo que não fosse.
ser e não ser
mais unidos que separados
distância que amarra
um laço forte
eu sou e não sou.
i am not!
haverá sempre sua ausência de ser
quando eu for à américa
e não lembrar de você.
Alex Moura
terça-feira, 18 de outubro de 2016
o menino e o mundo (Trombando em jeitos)
conhecer o que há
do mundo pra dentro
imerso em tempo
lugar e gente
passado e presente
passados a limpo
olimpo sujo de deuses
sujeira de deuses que eu limpo
agora que perdi o metrô
no subsolo desse mundo
esgotado de passado e presente
de gente e lugar
corro pro lado contrário do trem
fugindo de deuses pra limpar.
esse mundo de agora
anda tão sério
golpe barranco minério.
não tratarei mais
das coisas do mundo
despesa, trabalho, sustento;
da conta de luz fiz cata-vento
dancei na chuva de terno
e gravata...
dos outros, roto,
só tenho roupa barata.
esse mundo de agora
anda tão sério
que mesmo não tendo
mais trato com ele
me submete mesmo assim
minha roupa e minha pele
tão cheias de mundo
e morros e mares
com tão pouco de mim.
Alex Moura
conhecer o que há
do mundo pra dentro
imerso em tempo
lugar e gente
passado e presente
passados a limpo
olimpo sujo de deuses
sujeira de deuses que eu limpo
agora que perdi o metrô
no subsolo desse mundo
esgotado de passado e presente
de gente e lugar
corro pro lado contrário do trem
fugindo de deuses pra limpar.
esse mundo de agora
anda tão sério
golpe barranco minério.
não tratarei mais
das coisas do mundo
despesa, trabalho, sustento;
da conta de luz fiz cata-vento
dancei na chuva de terno
e gravata...
dos outros, roto,
só tenho roupa barata.
esse mundo de agora
anda tão sério
que mesmo não tendo
mais trato com ele
me submete mesmo assim
minha roupa e minha pele
tão cheias de mundo
e morros e mares
com tão pouco de mim.
Alex Moura
último solo de ian curtis (Trombando em jeitos)
gosto dos dias
que conseguimos
segurar o cinza que está no ar
não me agrada saber
que o sol brilha
para além das nuvens
nos dias de céu trancado
roubei a chave de pedro
e me tranquei
do lado de fora do céu
o sol que brilhe pra lá
hoje só reconheço rumores
das alegrias que tentei preservar.
mais cerveja ansiedade
e cigarro em pista de bar
a epilepsia de curtis
me fez dançar
todos os meus fantasmas
povoam as margens
do espaço que ocupo no mundo
mas só tomei consciência
depois que a fumaça
modelou um vulto
daquilo que sempre esteve oculto
hoje
danço brinco
choro reclamo
pulo e resmungo com eles
sei seus nomes um por um
quando estou só comigo
eles gritam eu apareço
e distante do que forjo ser
me reconheço
sou quem não sabem
um pouco menos
de qualquer coisa
e um pouco mais.
os dias cinzas
sempre me agradaram
como nenhum outro é capaz.
Alex Moura
gosto dos dias
que conseguimos
segurar o cinza que está no ar
não me agrada saber
que o sol brilha
para além das nuvens
nos dias de céu trancado
roubei a chave de pedro
e me tranquei
do lado de fora do céu
o sol que brilhe pra lá
hoje só reconheço rumores
das alegrias que tentei preservar.
mais cerveja ansiedade
e cigarro em pista de bar
a epilepsia de curtis
me fez dançar
todos os meus fantasmas
povoam as margens
do espaço que ocupo no mundo
mas só tomei consciência
depois que a fumaça
modelou um vulto
daquilo que sempre esteve oculto
hoje
danço brinco
choro reclamo
pulo e resmungo com eles
sei seus nomes um por um
quando estou só comigo
eles gritam eu apareço
e distante do que forjo ser
me reconheço
sou quem não sabem
um pouco menos
de qualquer coisa
e um pouco mais.
os dias cinzas
sempre me agradaram
como nenhum outro é capaz.
Alex Moura
terça-feira, 11 de outubro de 2016
as luas de Júpiter (Trombando em jeitos)
postei na face da lua
tudo o que eu queria
compartilhar com a rua
de mim de nós
estar eu e o mundo
também é estar a sóis.
sabemos de nada
ao nosso respeito
trombando em jeitos
sempre sou mundo
às vezes sou outros
nunca sou eu
não existe eu universal
incontestável
pleno e imutável.
júpiter tem mais de sessenta luas
mas não tem ruas
sequer esquinas
meu mundo só tem uma lua
mas um de mim
pra cada rua
porque o que eu mais sei
é ser gente
difícil é entender
cada eu diferente
postei na face da lua
tudo o que eu queria
compartilhar com a rua
de mim de nós
estar eu e o mundo
também é estar a sóis.
sabemos de nada
ao nosso respeito
trombando em jeitos
sempre sou mundo
às vezes sou outros
nunca sou eu
não existe eu universal
incontestável
pleno e imutável.
júpiter tem mais de sessenta luas
mas não tem ruas
sequer esquinas
meu mundo só tem uma lua
mas um de mim
pra cada rua
porque o que eu mais sei
é ser gente
difícil é entender
cada eu diferente
uma gente é abstrata
a outra é concreta.
a outra é concreta.
Pessoa entendeu todos dele,
mas era poeta.
Alex Moura
mas era poeta.
Alex Moura
o fim do eldorado (Trombando em jeitos)
tirei o peso das costas
de alguém
e joguei na costa atlântica
de mim.
tupiniquim
tem costas pesadas
sertão praia
serras-peladas.
ontem
eu traí o mar
traio o mar
quando não vou vê-lo
na clara tentativa
de esquecê-lo.
da lembrança do mar
me ficou a ressaca
rolha e taça caída
na mesa
uma poça de vinho
apagou a vela acesa.
escureceu o jantar
esfriou a casa
escorreguei
na poça de vinho que vaza.
segurei na esperança
quase caí
esperar cansa
quando não se sabe
pra onde ir.
eu tupiniquim;
eu tu;
tupiniquem?
tupininguém.
tirei o peso das costas
de alguém
e joguei na costa atlântica
de mim.
tupiniquim
tem costas pesadas
sertão praia
serras-peladas.
ontem
eu traí o mar
traio o mar
quando não vou vê-lo
na clara tentativa
de esquecê-lo.
da lembrança do mar
me ficou a ressaca
rolha e taça caída
na mesa
uma poça de vinho
apagou a vela acesa.
escureceu o jantar
esfriou a casa
escorreguei
na poça de vinho que vaza.
segurei na esperança
quase caí
esperar cansa
quando não se sabe
pra onde ir.
eu tupiniquim;
eu tu;
tupiniquem?
tupininguém.
fim.
Alex Moura
Alex Moura
Calendário
Todos os dias perseguem
o trinta e um de dezembro
e só o alcançam
no último dia do ano.
Encarcerado
no fim do calendário
retoma de novo o plano
no dia primeiro
e foge pra bem longe
de janeiro.
A ideia forjada de tempo
consome vidas,
some com vidas
cobra horas de vidas
que já devem tanto.
Diariamente
toda folha de diário mente.
Alex Moura
Todos os dias perseguem
o trinta e um de dezembro
e só o alcançam
no último dia do ano.
Encarcerado
no fim do calendário
retoma de novo o plano
no dia primeiro
e foge pra bem longe
de janeiro.
A ideia forjada de tempo
consome vidas,
some com vidas
cobra horas de vidas
que já devem tanto.
Diariamente
toda folha de diário mente.
Alex Moura
o mundo não é tão opaco (Trombando em jeitos)
abrir as cortinas
que nos cobrem os olhos
pode ser somente
a primeira investida
depois livrar-nos de entolhos
que ditam caminho.
entre boi de piranha
e bode expiatório
ilusório é tudo
que parece real:
trabalhar é nobre,
palavra de deus
acumular capital
pros teus filhos,
pros meus
o mundo é o que é
não o que parece ser
verdade absoluta
é criação pra enganar você
pulei do penhasco
chamado medo
e descobri que sabia voar
daqui do alto
o mundo não é tão opaco
como parece ser lá de baixo
bebi a velocidade da luz
e veloz salvei-me para fora de mim
bendita mania
de olhar entre as frestas.
Alex Moura
abrir as cortinas
que nos cobrem os olhos
pode ser somente
a primeira investida
depois livrar-nos de entolhos
que ditam caminho.
entre boi de piranha
e bode expiatório
ilusório é tudo
que parece real:
trabalhar é nobre,
palavra de deus
acumular capital
pros teus filhos,
pros meus
o mundo é o que é
não o que parece ser
verdade absoluta
é criação pra enganar você
pulei do penhasco
chamado medo
e descobri que sabia voar
daqui do alto
o mundo não é tão opaco
como parece ser lá de baixo
bebi a velocidade da luz
e veloz salvei-me para fora de mim
bendita mania
de olhar entre as frestas.
Alex Moura
Ícaro (Trombando em jeitos)
desde que decidi ser pé no chão
percebi que há mais chão
para meus pés percorrerem
do que pés para percorrer chão
trago fragmentos de mundo
para dentro do apartamento
e minha casa é o mundo
que experimento
com pés no chão
sou turista doméstico
embarco domesticado
para um destino
de nada. obrigado
com a cabeça na lua
e os pés longe do chão
arremeto a razão
e livre de bagagem, de alma nua,
minha casa se torna a rua
de qualquer lugar de qualquer cidade
que mostrar que meus pés foram feitos pra voar.
Alex Moura
desde que decidi ser pé no chão
percebi que há mais chão
para meus pés percorrerem
do que pés para percorrer chão
trago fragmentos de mundo
para dentro do apartamento
e minha casa é o mundo
que experimento
com pés no chão
sou turista doméstico
embarco domesticado
para um destino
de nada. obrigado
com a cabeça na lua
e os pés longe do chão
arremeto a razão
e livre de bagagem, de alma nua,
minha casa se torna a rua
de qualquer lugar de qualquer cidade
que mostrar que meus pés foram feitos pra voar.
Alex Moura
sábado, 8 de outubro de 2016
retalhos de gente (Trombando em jeitos)
permito vestígios de quem fui outrora
ninguém vem só e é assim que é
hoje mesmo pela manhã
fui um pouco do celso
lá do primário no início dos oitenta
à tarde num misto entre cecilia
e darín em o segredo dos seus olhos
revelei o local de uma rua
a um desconhecido
em casa lavando o dia de mim
desembaçando o espelho
por conta de vapor e fumaça
notei um dos olhos ausente
saí de manhã voltei diferente.
Alex Moura
permito vestígios de quem fui outrora
ninguém vem só e é assim que é
hoje mesmo pela manhã
fui um pouco do celso
lá do primário no início dos oitenta
à tarde num misto entre cecilia
e darín em o segredo dos seus olhos
revelei o local de uma rua
a um desconhecido
em casa lavando o dia de mim
desembaçando o espelho
por conta de vapor e fumaça
notei um dos olhos ausente
saí de manhã voltei diferente.
Alex Moura
Assinar:
Postagens (Atom)
