sábado, 26 de setembro de 2015

Arqueo Lógica (Publicado - Entre o quando e o quase)

Há uma raiva tamanha na caneta,
que o vestígio que sua ponta espeta
será capaz de ser visto em cem folhas.

Há uma raiva tamanha na garganta,
que o vestígio que sua gana canta
será capaz de ser ouvido em cem mundos.

E quem sabe quando escavadas,
essas raivas fossilizadas
revelem os segredos que dão a tônica,
arqueológica ou arquitetônica,
dos meus medos?

Alex Moura

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Dez anos (Publicado - Entre o quando e o quase)

A década da metamorfose
que me fez de filho, pai.
Ano vem. Ano vai.
Eu não sou só eu,
agora eu sou mais.
Não sou eu que só me faço,
você também me faz.
Sou mármore tomando forma
daquela que você me traz.
Fez do passado, futuro.
Fez sensível quem foi duro.
Contemplativo, surpreendente
me indagou recentemente
enquanto ouvia boys don't cry:
Meninos choram?
Sobretudo quando pai.

Alex Moura.

domingo, 13 de setembro de 2015

O caminho tortuoso das gotas (Publicado - Ser das cidades)

A beleza de um dia cinza,
introspectivo,
o amuramento natural,
recluso,
nos envolve na atmosfera
dos julgamentos reflexivos.


Consciências escorrem
pelo lado de fora das janelas.
Frias, janelas e consciências,
se abrem em meio ao
recolhimento passivo,
e o que chega de fora e de dentro
é o termômetro que mede a
justa medida do quanto ainda
estamos vivos.

Alex Moura
Dor
dói pra todo mundo igual?
Tenho a impressão,
às vezes,
que é cultural.
Dor mesmo,
dessas que doem bem fundo,
são dores que só doem
no mundo real?

Alex Moura

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Andando a ermo (Publicado - Ser das cidades)

O barulho que falta à cidade
num terno dia de feriado
esconde-se nas bocas caladas
dos apartamentos
e nos motores desligados
dos automóveis.

Ansioso por despertar,
o ruído, que se encontra
escondido,
povoa somente a cabeça do
poeta,
que com a cidade na mente,
vomita à caneta o ruído ausente.

Ninguém ouve,
ninguém lê,
ninguém vai saber
como o poeta se sente.

Alex Moura
Hoje ainda não falei
eu te amo.
Amor não fica na boca,
nem na que diz,
nem na que cala.
Amor é outra coisa,
coração não fala.

Alex Moura
Do conceito de movimento
que dá liga à experiência humana,
só o que emana enquanto eterno
é renovação mundana.

Ao passo que se confirmam meus
sucessos,
um ciclo de transformações
produz novas ilusões.
E nesse quando, o devir se encarrega
de produzir meus fracassos futuros.

Alex Moura

domingo, 6 de setembro de 2015

Entre a Caverna e a Maiêutica (Publicado - Entre o quando e o quase)

Em busca de algo
nunca me procurei.
Em busca de mim
me interpretei e não entendi.
Em busca de entendimento
me comparei particular e universalmente,
e percebi que o que via na frente
era o reflexo do que chegava em mim;

daí quebrei o espelho
e me enxerguei pela primeira vez.

Alex Moura

M-15-05 (Publicado - Ser das cidades)

Não há revolução
sem transmutação da ordem,
virar do avesso, jazido o fim
nasce o começo.
Se a vida é um processo histórico,
tudo bem você com essa história
de rebelar minha vida.


Não há revolução
sem devir, sem coragem,
sem derrubar muros
e sem bater poeira.
O movimento precisa de amor:
Presente, companheira!


Alex Moura
Os planos de quem? (Publicado - Ser das cidades)

No calendário um dia qualquer
de um mês entre um e outro.
Tanta conta pra pagar,
uma tese a defender,
dois filhos pra criar
e um emprego a perder.

Levantou da mesa do café
e caiu fulminado no chão,
de lá não levantou mais;
deus é mesmo um irresponsável.

Alex Moura