terça-feira, 28 de julho de 2009

O início

O poema não começa no título,
as palavras são tintas deitadas
na folha.

O poema não começa na estrofe,
as estrofes são albergues verbais,
os quais as palavras dormem e
despertam ao passo em que são lidas,
nessas horas é que tomam vidas.

O poema não começa no início,
nem nos quartetos, nem nos tercetos.

Porém, ao final do poema,
quando acabares de ler o último verso,
prepare-se: é aí que o poema começa.

Alex Moura

Pensei

Pensei.
E por pensar errei,
pois o pensamento era vazio,
só tinha a margem
não tinha o rio.

Alex Moura

Em vão

A porta do mundo bate com força,
a chave cai e seu estrondo é um
canino trovão, explosão com dente
afiado.

Meus passos andam pra trás,
vejo o horizonte, olho pra frente,
mas meus pés insistem em
caminhar ao contrário tal qual
Curupira.

A corrente é forte, inútil nadar
contra, é um esforço com ódio,
enquanto navego na correnteza
desse rio que sobe.

Alex Moura

Tempos

Há tempos (Publicado - Entre o quando e o quase)

A linha do tempo
que passa com suas demarcações,
datas especiais, aniversários
e revoluções cravadas na linha.

Quantas vidas eu já tive dentro dessa mesma vida?
Que passado me foi outra vida,
dessas que só lembro de relances e fisionomias?

Hoje eu penso que agora sim eu tenho a minha vida,
que é só o presente,
mas eu pensava isso no passado recente e não recente
e sempre me esqueço que o poeta legionário avisava
que o “pra sempre” sempre acaba.

Alex Moura

Fazer-te um poema

Você me cobra um poema,
eu sei o quanto de poema
eu te devo.
Eu poderia fazê-lo agora,
mas estou ocupado demais
ao escrever teu nome.
Talvez mais tarde eu faça,
quando deixar de falar-lhe
ao telefone.
No domingo eu faria,
acredite, mas você me veio
como Afrodite e ao menos
que eu não me excite o seu
poema nasce.
Amanhã eu te faço os poemas,
sou poeta sem versos,
lingüista sem tremas,
e quando tivermos as
temperaturas amenas,
pode estar certa; eu te
faço os poemas.

Alex Moura

Entrega

Entrega (Publicado - Ser das cidades) 

Por um tempo desisto
e me entrego a mim mesmo.
Eu já me sinto mais fraco,
atingido por golpes desferidos por mim próprio.

A altura do tombo iminente
assusta ao que procura a segurança do chão.
Pedras, basaltos brancos e pretos,
preveem o final do filme em sangue.

Enquanto não passam os créditos,
a esperança respira.
Sim, agonizantemente respira,
aguarda o milagre humano, não sagrado, profano.

Alex Moura

Atmosfera

Atraquei em teu porto,
foi ontem, cheguei com
estivas pesadas incapaz
de mantê-las erguidas nos
braços e buscava alívio.

A previsão do meu tempo
era nebulosa, céu cinzento
com possibilidade de mágoa
no final do período; a água
cairia do céu à minha previsão.

Vieste a mim e arrancaste
o casaco da insegurança,
felpudo,
cheio,
com mangas enormes;
o medo era meu, só meu,
não seu.

Agarrei-me em suas otimistas previsões,
teu ar era céu claro, dia de sol bem raro
na região da minha vida.

Saí do meio da frente fria que seguia
friamente à frente, mas agora sem mim;

e quando parti minha previsão era boa,
fui tomado de um calor abrasador
notando que agora eu tinha à minha volta
a sua maravilhosa atmosfera.

Alex Moura

Ânsia

Tenho tanta ansiedade,
que não relaxo
até estar ansioso.

Alex Moura

Previsão de angústia

previsão de angústia (Publicado - Ser das cidades)

saltam-me
os olhos de susto,
as nuvens
são mais cinzas
do que os estofados
empoeirados,
e os faustos e as ilíadas,
que não são abertos
há tempo bastante.

os primeiros pingos
me acertam,
caem sorrindo,
seguindo-me,
teleguiados a mim.

não chovia mais,
fazia sol
e eu estava no sol,
olhe como estou corado.
mas agora
a chuva se arma
e o para-raios parece
que foi instalado em mim.

Alex Moura

Inseguro

Um amor que chora,
chora chuva, brada trovões,
um amor tão puro com
medo; medo da água e do
fogo; medo da terra e do mar.

Tal amor se protegendo de
si mesmo, não voa para
não cair, torna-se seguro
na sua insegurança de amar.

Esse amor que não vive,
descarta sua plenitude,
feriu-se e não quer mais
lutar; um amor que é
puro, mas não sente a
pureza dos pés descalços;
o amor existe, mas está calçado.

Alex Moura

Insônia

Um mundo que dorme, inteiro,
não sei se por vício ou necessidade;
ouço a língua dos segundos
enquanto pergunto-me o que faço aqui.

Esta noite tem cheiro de futuras pálpebras pesadas,
humor dos piores, inversão de valores, inversão de horários.

Amanhã dormirei quando quiser acordar,
e passo a noite escrevendo
enquanto embalo o sono do mundo.

Alex Moura

Livre Arbítrio

O ser humano tem vários sonhos,
síndromes, complexos de Adão e Eva,
tentam a todo instante brincar de deuses.

Na inferioridade do consciente
lançam desejos estapafúrdios como flechas
velozes tentando atingir o inconsciente e bastarem-se.

Na utopia do sonho, mamíferos que falam,
e somente por falarem não raciocinam,
comparam-se e competem entre si.

A desumanização da raça humana
dá-se pela sua alta tecnologia,
construindo pilares do seu egoísmo,
estrutura já morta de canibalismo.

A voz que vem em nós é silenciosa dentro
de cada um para o seu livre arbítrio.
Ouçamos com ouvidos limpos e
entreguemo-nos à poderosa voz,

pois precisamos que escrevam certo por linhas certas
e nós enxergarmos torto.

Alex Moura

Amizade

Eu já ouvi dizer que os
amigos são irmãos que
escolhemos.
Mas eu penso que amigos
são irmãos que involuntariamente
atraímos.

Alex Moura

Um beijo

Eu só queria te pedir
uma coisa. Um beijo.
Sim. Um beijo. Eu sou
completamente apaixonado
por você. Só um beijo.
Não mata ninguém.
Não nasce ninguém.
Um beijo.

Alex Moura

Risos

Do que todos riem com
ares de sábios de coisas
banais? Riem e olham
de canto de olho, tal qual
felino a segundos do ataque.

Não me emprestaram o
sorriso, graça nem sei
que há para tal, não vejo.

Mas o que eles não sabem
é que sorrio bem mais do que
eles, com ou sem motivo
algum eu sorrio por dentro
da boca, com os dentes pra
dentro, enquanto todos me
julgam ser sério.

Alex Moura

Palavra

A palavra é uma navalha
e eu não sei tratar com ela;
as cicatrizes de minha boca
não saram, porque as palavras
não param de nascer em mim.

Eu não sei ser pai da
palavra, o aborto das letras
é inevitável.

Cadê o engenho?
Eu já disse, não tenho!

Eu só sei sofrer com as palavras.
Não! Não espere que eu diga mais
nada, porque decerto eu direi
a errada, eu não sei tratar com a
palavra, eu juro. Palavra.

Alex Moura

Unidade

Eu não poderia, por você,
ter menos do que devoção.
Você me presenteia no seu aniversário,
você chora na minha dor.

Eu não poderia, a você,
dedicar menos que um clássico.
Você ri na minha alegria,
você come na minha fome;
nessa unidade eu já não sei onde começas tu
e termino eu.

Alex Moura

Mesopotâmia

Berço, início, criação;
pós-natal da civilização.

Ameaçada, arriscada, preservada,
seus muros gritam socorro,
mas ninguém ouve,
são abafados por bombas
de precisão cirúrgica.

Às portas da cirurgia
sofrerá uma intervenção
de mísseis-bisturis.

Cortarão-lhe o ventre
sem pré-anestesias,
imprecisão das cirurgias.

Ou médicos-generais preparam
uma eterna anestesia geral.
Mesopotâmia seus descendentes
hão de te matar.

Alex Moura

Não me culpe por isso

Não! Não me culpe por isso,
eu abri o meu peito ao bem-estar,
não aproveite para infrincar o punhal.
O meu tempo não é o seu tempo,
e o seu não é também o meu.
Cobraste-me caro, todo um dia
por algumas horas que tirei para mim.
Não! Não me culpe por isso,
às vezes me sinto tão preterido
que preciso masturbar o meu ego.

Alex Moura

Pecar

O que fazer ao te possuir?
Cometo mil pecados por dia
para te ter em essência como
vapor de água metafisicamente
geométrico se mudando no ar.

Volto com cheiro do pecado
original, dele nunca me livrarei,
bem sei.

Eu acho que peco mais de sete
vezes por dia (eu tanto já devo).
Eu tento parar, mas não consigo,
então largue tudo e vem pra cá
pecar comigo.

Alex Moura

Interpretação

O mundo tem várias visões,
vários olhos, muitos olhares,
o mundo tem definições diversas
dispersas em cada olhar.

Quem vê cara, vê só cara,
não conhece um bom coração,
pois ainda hoje as aparências
continuam enganando.

Não há interpretações idênticas,
seja um texto, uma vida, sentimento,
a interpretação tem suas próprias
impressões digitais.

Interpretando o poema, vários
mundos se criam ou nascem;
dependendo do ponto de vista
o peixe voa na água e o
pássaro nada nos céus.

Alex Moura

Vida contínua

A mercê da vontade do mundo
eu que não era mais mundano
igualei-me de novo, velhas idéias,
sem brilho, sem espírito, pouca
leitura, pouca cultura.

Uma indolência que sempre foi
minha e eu sempre brinquei de
não tê-la; adio inícios, adio os
planos: - podem ficar pra amanhã.

Eu tenho um amanhã enorme,
sempre cabem os meus adiamentos.

Alex Moura

Independência.

Eu não quero idéias independentes,
quero colonizá-las, ser Metrópole do
meu pensamento. Quero explorá-las
ao meu bel-prazer; quero ser o colonizador
de minhas idéias; esta é a única forma de
me ver libertado de mim mesmo.

Alex Moura