domingo, 26 de abril de 2020

lá em casa (as várias noites de um mesmo dia)
(ao Leco)

por
nos entendermos
mortais,
o eterno
reside
na nossa mente
e é
ao passado
que recorremos
quando tentamos
nos entender
como gente.

quem diria
que em meio
à quarentena
havia possibilidade,
mesmo
que pequena,
de reencontrar
os meus
primeiros amigos?
aqueles que,
inconscientemente,
começaram
a nossa vida
com a gente?

o mundo
está guardado,
recluso, fechado,
voltamos
para dentro de nós,
e no nosso
mais remoto
pensamento,
aquele amontoado
de apartamento
ressurgiu.
quem te vê?
quem te viu?

voltamos
para o prédio
de dentro da gente,
reencontramos
a segurança no berço
daquilo que nos é
mais urgente.

Alex Moura

domingo, 19 de abril de 2020

erro primo (as várias noites de um mesmo dia)

pinto
um quadro
complexo
de mim.

aparo
as arestas,
elimino
os excessos.

entre
esboços
e sucessos,
descarto
a obra
e exponho
o erro.

Alex Moura
menos (as várias noites de um mesmo dia)

dentro
de um
pensamento
não cabe
o mundo
inteiro.
pensar
em você
é renunciar
ao mundo.

é nesse
frame
de segundo
que tudo
à volta
é menos.

não
que o
mundo
se torne
pequeno,

mas
é que
ninguém
vai
me achar
atrás
daquela dor.

Alex Moura

sábado, 18 de abril de 2020

ainda (as várias noites de ume mesmo dia)
(ao Leon)

tirar
os gatos
do quarto
é a medida
entre o amor
e a alergia.

a espera
de que
algo aconteça,
o intervalo
entre a certeza
e o talvez.

gelar
uma lata
por vez:
a ilusão
do equilíbrio
entre sobriedade
e embriaguês.


há mais de um mês. 

Alex Moura 

domingo, 12 de abril de 2020

we have a problem (as várias noites do mesmo dia)

tenho passos
e pensamentos
ensaiados.
nunca sobro.
nunca falto.
no chão
em que percorro
o mundo
meus pés pisam
exatamente
o espaço
da minha pegada.

salvo
os excessos,
controlo,
quase ascético,
os meus vícios.

demando
o que posso
e o que não
posso.
quanto a estes,
penso podê-los,
que é uma forma
mais romântica
de perdê-los.

mas
minha frágil
onipotência
sucumbe
com a consciência
da sua presença,
e na esperança
de causar
boa impressão,
a segurança
do meu rigor
já não é
tão forte assim,
e falho miseravelmente
na tentativa
de ser pra você
a melhor versão de mim.

Alex Moura

sexta-feira, 10 de abril de 2020

dentro (as várias noites de um mesmo dia)

estou
agora mutilado,
lá fora
ficou aquilo
que faltou
de mim.
inconsciente
do que viria,
não me guardei
por inteiro,
montei confinamento
com o que
a urgência permitiu.

agora,
meio eu
meio não,
não sei
se sou
o que não veio
ou o que lavo
em minhas mãos.

esse que estou
parece
não me bastar,
ou se sou eu
esse de fato,
nunca fui
o bastante pra mim.

queria juntar
comigo
aquele que de mim
ficou fora,
muito embora
não faça ideia do fim.

Alex Moura