terça-feira, 15 de dezembro de 2020

latifúndio (as várias noites de um mesmo dia)


não há

a menor diferença

de onde eu esteja.

hoje

habito exclusivamente

em mim.

não reconheço

meu começo ou fim. 

a revelia e a esmo,

caminho

nos limites exaustos

de mim mesmo.


não se trata

de ter um lugar

para ir,

mas de ter

um lugar para estar.

viver, agora,

esse dilema

espaço-temporal

nos dá a chancela

de especialistas

em filosofia aplicada.


(e nós julgamos

que isso não servia

pra nada.)


Alex Moura

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

toc (as várias noites de um mesmo dia)


ser

reduzido

a estranho


por

um sofrimento

tamanho


de gastar

um sabonete

inteiro


no tempo

de um banho.


Alex Moura

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

pra dentro (as várias noites de um mesmo dia)


a decisão

sobre minha vida

não é minha.

há algum tempo

o poder

sobre quem vive

e quem morre

reside no anonimato.

a loteria sobre

morro ou mato.


é estar isolado

e andar

com os pés dos outros

um caminho

que eu não percorri,

e viver decrescendo

catorze como se eu

mesmo estivesse ali.


a curva

do meu contágio

já não demonstra

ascensão

ou achatamento,

se confunde

numa espiral

entre o inicio, o fim

e o demoramento.


lamento

de quem já

morreu por dentro

e não abandona

o isolamento

por ter certeza

que aquilo que tinha

não resistiria

ao menor pé-de-vento.


Alex Moura

terça-feira, 20 de outubro de 2020

aporia (as várias noites de um mesmo dia)


melhor seria

se entregar,

se as pernas

não alcançam

o tamanho

do passo

necessário.


correndo

atrás do sol,

percebi

como era pequena

minha sombra

projetada

pelos refletores

que passaram

a iluminar

as minhas dores

por não me mover

de onde estou.


a pequena parte

do mundo

que guardei comigo

expirou.

somente a mim

não entusiasma

tocar de novo

o desejo de vida,

talvez porque

não caibam

mais planos

àquilo que já está

meio morto.


talvez seja

essa a

minha completude.

avancei até

onde pude

e quando me julguei

paralisado,

me transformei

nas reticências

do meu inacabado...


Alex Moura

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

treze de março (as várias noites de um mesmo dia)


e no meio

de uma tarde

de sexta

precisamos

urgentemente

guardar o mundo.


recolhemos,

de fora

pra dentro,

aquilo

que nos faria

viver.


e entre ansiedade,

memória e saudade

recorri à capacidade

de saber sofrer.


Alex Moura

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

rem (as várias noites do mesmo dia) 


disposto

a contestar

o real,

cerrei os olhos

pra não

te perder de vista.


subvertido

da ordem atual,

sonho,

utopia da insônia,

contigo,

no seu profundo

que me distraía.


e nesse improvável

sono que me acometia,

nos amamos o suficiente

para a noite permitir o dia.


Alex Moura

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

de dentro (as várias noites de um mesmo dia)


os objetos não mudaram

o que mudou foi o sentir,

um empirismo revelado,

a observação de dentro,

guardado do outro lado.


cada vez mais sozinho,

errado,

ouvindo de dentro

o baile que torci

pra não ser convidado.

eu não sei

dançar essa música,

me falta ar

pra acompanhar o compasso.


e sem saber

muito bem o que faço,

vou vivendo

um esforço hercúleo

pra evitar julgamento,

transitando entre

memória, saudade e testamento.


Alex Moura

quarentenum (as várias noites de um mesmo dia)

(à Cecilia)


onde quis mundo,

guardada.

quando se quis rua,

parada,

ou não,

alada, sem pé no chão.


pra que razão

do mundo pra dentro?

presa num apartamento,

julgando que não seria

nada demais,

foi todas que faltavam ser

e não parou de ser mais:


forte,

mas quer se poder fraca.

cuida, mas se quer cuidada.

determinada,

quando precisa ser tudo,

ou nada.


sempre mulher.

Cecilia quando precisa,

ou quando quer.


Alex Moura

 niterói, 20 de marçagosto de 2020. (as várias noites de um mesmo dia)


durmo

as várias noites

de um mesmo dia

há cinco meses,

eu,

que costumava ir à rua

só porque não fui.


como ficar

um dia inteiro trancado?

estou dentro do mesmo dia,

do mesmo apartamento,

da mesma ansiedade,

transitando

entre a estagnação

e a velocidade.


só não estou

dentro da mesma vida,

essa

não é mais o que era,

o que foi

e nem é ainda

o que será.


faço o que me é

obrigado fazer,

não faço

o que me é conveniente.

não tenho vivido

por conveniência,

mas por obrigação.


do toc

evito o real

e carrego o risco.

num misto de inveja

e cancelamento,

observo

os já livres de tudo,

enquanto permaneço,

guardado,

do mundo pra dentro,

entre não-ser

e demoramento.


Alex Moura

terça-feira, 11 de agosto de 2020

desolamento social (as várias noites de um mesmo dia)


ocupar o tempo

em que não somos

nem aquilo que éramos

e nem aquilo

que podemos ser.

 

esse vácuo pandêmico

que acometeu o mundo

entre vírus e espera,

ainda distante do que será

e longe bastante do que era.

 

o tempo presente

vai se estendendo,

demoramento

em que vamos sendo

o não-ser.

 

sem ter perspectiva

pra seguir vivendo

e já de saco cheio

de não morrer.



Alex Moura

sexta-feira, 24 de julho de 2020

quarentena II (as várias noites de um mesmo dia)
(ao Guilherme)

quando
existir pra dentro
passa a ser
cotidiano,
o passar do ano
deixa mais clara
a diferença
entre tempo e espaço

na percepção
daqueles
pra quem
o tempo cresce
e daqueles
pra quem
o tempo passa.

Alex Moura

domingo, 19 de julho de 2020

novo normal (as várias noites de um mesmo dia)

se eu
sobreviver
à pandemia,
viverei
o resto
dos meus dias
meio morto
pra sempre.
fui morrendo
junto à morte
dos meus.

ao passo que
me faltará
um pouco de pé
pra andar,
um pouco de olhos
pra ver
e um pouco
de coração pra amar.

ser já não será.

Alex Moura

quinta-feira, 16 de julho de 2020

entre o toc e a covid (as várias noites de um mesmo dia)

difícil manter
as toalhas intactas,
preservar espelhos
de interruptor,
difícil interromper
a dor
num intervalo
que permaneçam
pensamentos bons.

difícil atribuir
valor aos pensamentos
quando o limite
do universo são
as paredes dos apartamentos.

difícil transitar
entre o toc e a covid,
implorar alprazolam
e aturar a cloroquina
carente de sol e serotonina.

difícil preparar
um café da manhã
sem saber se hoje
é ontem ou amanhã,
ou se é os dois,
ou se é nenhum.
dormimos as várias noites
de um mesmo dia.

há tempos não confio
nos compostos
de água sanitária
pra livrar legumes e frutas
do perigo da morte,
mas as bananas
não se descascam sozinhas.

com sorte
sobreviveremos mais um dia.


Alex Moura

quinta-feira, 21 de maio de 2020

presente (as várias noites de um mesmo dia)

lanço
uma flecha
no início
do poema

ela percorre
o tempo
da quarentena

precisamos
saber
quem seremos
sem sequer
entender
quem fomos

o novo normal
não
me resgatará,
serei
velha guarda
daquilo que já foi

não há reabertura,
lenta, gradual ou segura,
que me leve
de volta
pra onde eu estive

a flecha não cairá
e o mundo
voltará menor.

Alex Moura

domingo, 26 de abril de 2020

lá em casa (as várias noites de um mesmo dia)
(ao Leco)

por
nos entendermos
mortais,
o eterno
reside
na nossa mente
e é
ao passado
que recorremos
quando tentamos
nos entender
como gente.

quem diria
que em meio
à quarentena
havia possibilidade,
mesmo
que pequena,
de reencontrar
os meus
primeiros amigos?
aqueles que,
inconscientemente,
começaram
a nossa vida
com a gente?

o mundo
está guardado,
recluso, fechado,
voltamos
para dentro de nós,
e no nosso
mais remoto
pensamento,
aquele amontoado
de apartamento
ressurgiu.
quem te vê?
quem te viu?

voltamos
para o prédio
de dentro da gente,
reencontramos
a segurança no berço
daquilo que nos é
mais urgente.

Alex Moura

domingo, 19 de abril de 2020

erro primo (as várias noites de um mesmo dia)

pinto
um quadro
complexo
de mim.

aparo
as arestas,
elimino
os excessos.

entre
esboços
e sucessos,
descarto
a obra
e exponho
o erro.

Alex Moura
menos (as várias noites de um mesmo dia)

dentro
de um
pensamento
não cabe
o mundo
inteiro.
pensar
em você
é renunciar
ao mundo.

é nesse
frame
de segundo
que tudo
à volta
é menos.

não
que o
mundo
se torne
pequeno,

mas
é que
ninguém
vai
me achar
atrás
daquela dor.

Alex Moura

sábado, 18 de abril de 2020

ainda (as várias noites de ume mesmo dia)
(ao Leon)

tirar
os gatos
do quarto
é a medida
entre o amor
e a alergia.

a espera
de que
algo aconteça,
o intervalo
entre a certeza
e o talvez.

gelar
uma lata
por vez:
a ilusão
do equilíbrio
entre sobriedade
e embriaguês.


há mais de um mês. 

Alex Moura 

domingo, 12 de abril de 2020

we have a problem (as várias noites do mesmo dia)

tenho passos
e pensamentos
ensaiados.
nunca sobro.
nunca falto.
no chão
em que percorro
o mundo
meus pés pisam
exatamente
o espaço
da minha pegada.

salvo
os excessos,
controlo,
quase ascético,
os meus vícios.

demando
o que posso
e o que não
posso.
quanto a estes,
penso podê-los,
que é uma forma
mais romântica
de perdê-los.

mas
minha frágil
onipotência
sucumbe
com a consciência
da sua presença,
e na esperança
de causar
boa impressão,
a segurança
do meu rigor
já não é
tão forte assim,
e falho miseravelmente
na tentativa
de ser pra você
a melhor versão de mim.

Alex Moura

sexta-feira, 10 de abril de 2020

dentro (as várias noites de um mesmo dia)

estou
agora mutilado,
lá fora
ficou aquilo
que faltou
de mim.
inconsciente
do que viria,
não me guardei
por inteiro,
montei confinamento
com o que
a urgência permitiu.

agora,
meio eu
meio não,
não sei
se sou
o que não veio
ou o que lavo
em minhas mãos.

esse que estou
parece
não me bastar,
ou se sou eu
esse de fato,
nunca fui
o bastante pra mim.

queria juntar
comigo
aquele que de mim
ficou fora,
muito embora
não faça ideia do fim.

Alex Moura

segunda-feira, 9 de março de 2020

semente (trombando em jeitos)

sua vida
sem mim
seria
muito parecida
com essa
que você é hoje

minha vida
sem você
seria
muito parecida
com aquele
que fui ontem

o maior
mérito
que eu tenho
é seu
que fez
do seu jeito
de semear o mundo
o meu

preenchendo
de ti
aquilo
que era oco
em mim
fez do meu
começo vazio
ter um monte
de você no fim.

Alex Moura

domingo, 1 de março de 2020

mais
o piscar
dos olhos
do que o visto,

o respiro
pra falar
do que a fala

e o silêncio
entre as palavras
do que o dito.

Alex Moura

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

ribalta (coletânea)

se estrelas
fossem lustradas
a luz de lustrar
luziria estrelas,
mas ao vê-las
notamos que estrelas
são soberanas,
e as luzes que luzem
vêm mesmo delas.

eu,
que não sou estrela,
opaco, de brilho fraco,
me aproveito
da luz de lustrar
e me torno
satélite natural
do verbo
que me faz brilhar.

Alex Moura

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

eu que lute (coletânea)

nunca
me dei conta
se a luz
de fato apagou
ou se me tornei
incapaz
de perceber o brilho

não sei mais
se estou com frio
ou se
não retenho calor,
se qualquer
bem-estar
é ausência de dor

precisamos
daquilo
que faz doer,
porque
ainda são dores
que nos garantem
resistência a morrer.

Alex Moura

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

já dizia Elis

não há
uma só teoria,
empírica ou
racionalista,
existencial
ou niilista,
que me faça
parar de
ranger dentes
e quebrar copos.

por
mau comportamento
fui desconvidado
do mundo,
uma festa lotada
que só toca
a música dos outros.

não suporto
mais equilíbrio,
fingi ser artista
só pra me jogar
da corda bamba;

somente na queda,
entre pulo e impacto,
fui quase feliz.

Alex Moura
antígeno

não queria
estar
onde estou,
me equilibrando
entre uma
e outra dimensão,
menos do mundo
que qualquer outro,
cuspido pra fora
dos tratados,
olhado ora de cima
ora de lado,
justificando fracassos
com a ilusão
de ser
mal interpretado.

acontece.

muitos me sabem,
poucos me julgam
e ninguém merece.

Alex Moura

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

reflexão

tenho acordado
sempre no mesmo
dia,
talvez seja essa
a mais terrível
prisão:
a que há um espelho
de frente pro outro,
pro outro, pro outro,
pro outro, pro outro...

Alex Moura

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

um minuto pra meia-noite (coletânea)

uma promessa
de meia-noite
vale mais
do que
qualquer outra.

talvez
seja esse
o critério
daquilo
que vai ser.

ultimamente
as meias-noites
chegam depressa
e as únicas coisas
que cabem amanhã
são promessas.

princípio
da utopia viva,
não o feito,
a tentativa;
entre lágrima,
sangue e saliva
temos nos tornado
especialistas
em inaugurar amanhãs.

Alex Moura
fenômeno

o som
existe em si,
fica aquietado
até que algo
lhe desperte.

o som
não está
no martelo
e nem está
no prego.

o som
é uma terceira
coisa,
que completa
aquilo
que seria
em silêncio.

Alex Moura
o picadeiro do mundo

na impossibilidade
de te saber
por inteira,
me divido
entre o que quero
e o que posso querer,
mesmo
que eu não esteja
tão seguro em dizer.

a humanidade
não percebe
o entorno,
aquilo
que se perde
do mundo
quando a ordem
é focar.
não se identifica
rizoma
e julga ser linear.

fazer o quê?
o que é cultural
nos precede
é às vezes
só nos admite
sonhar.
mas esse limite
que só me permite
o vislumbre
ainda é melhor
do que não vislumbrar.

Alex Moura
primeira turma

contesto
a existência
do tempo,
mas então
que diabos
os levou daqui?

ano que vem,
ao assinar
meus diários
de primeiro bimestre
terei menos dedos
nos dedos
e menos mãos
nas mãos.

eu olharei
dos muros pra dentro
e vocês não estarão.
pela primeira vez
aquilo que sempre
me fez
não estará por aqui.
nunca experimentei
nossa escola
sem vocês por aí.

mas a Aen
é escola ganha-mundo,
aquele segundo
em que percebo
que para tornar a vê-los
preciso olhar
dos muros pra fora.

vocês não cabem
mais em diários
ou pastas,
nem em salas de aula,
a partir de hoje
vocês povoam mundo
e quando eu tentar entender
no que contribuí
para o que cada um
se tornou
vou compreender
que foram vocês,
durante todo esse quando,
que me tornaram o que sou.

Alex Moura