quinta-feira, 20 de abril de 2017

guardados (Trombando em jeitos)

passei algum tempo
me preparando para
ser eu
não sabia bem
quem seria ou ainda
se seria
até que fui me forjando
alguém sendo eu
sem ser mais ninguém

como poderia ser
tudo o que era
sendo somente eu?
me dei conta que sou
todos os que me lembro
e todo aquele que me
esqueceu

gaveteei gente no tempo
baú de lembranças
daqueles que me viveram
e daquele que fui e já morreu.

Alex Moura
Desconhe ser (Reflito)

Rejeitar a certeza.
Temê-la!
Tal qual ao receio
da negativa à pergunta
no fim da aula:
- Alguma dúvida?

Certezas limitam,
têm muros altos,
nada lhes escapa
às fronteiras.
Empaca!

Mas a dúvida!
A dúvida liberta,
desperta, faz mover,
caminhar o caminho,
tatear, conhecer,
olhar para além do ver.

Ser uma coisa hoje
diferente do que amanhã
vai ser.

Alex Moura

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Edifício Menezes Cortes (Ser das cidades)

Um transpassar,
solados consumindo passos:
um pra lá, um pra cá.
Alguns seguram alça
de bolsa,
outros falam na ligação;
fitam a frente, fitam o chão.
Um zigue-zague humano
levando todas as suas
urgências.
Olham apenas suas
projeções,
não me veem, não me sabem
os vendo, como um deus,
observando um a um,
sabendo.
Ninguém sabe  que os vejo,
todos, a passos firmes
para a borda dos seus
destinos:
homens, mulheres, meninos.

Até que alguém me percebe,
por menos de um segundo
me fita os olhos,
e nesse ínfimo tempo
dois olhares começam
e acabam no mesmo lugar,
uma linha, de retina a retina,
segura dois sabedores de si,
até que se estanca.
Os destinos transbordam,
voltam às urgências
e fitando aquilo que sobra,
seguem.
Já não são mais deuses,
sabem somente de si,
resistem,
olho pra dentro de cada um
dos sete bilhões de mundos
que existem.

Alex Moura
Signos

Tudo o que prolifera
parece dotado de sentido.
Nada pode escapar, escorrer.
Mas sentidos são inatos,
universais?
Uns são menos?
Outros mais?
Tudo o que prolifera
a gente sequer espera,
atribui um sentido.
Nada pode não ser.

Naturalmente
sentidos são direcionados,
posteriores ao ser,
e não sendo
precisam, ao menos, parecer.

Alex Moura

cortina (Trombando em jeitos)

há olhares
que carregam peso
trazem consigo
uma memória
que disfarça a história
das suas faces

esses que não
se entregam no olhar
ocupados em disfarçar
aquilo que povoa a alma
geralmente transmitem
calma na extensão
dos seus limites

as primeiras impressões
não entregam as combustões
das suas fronteiras.

Alex Moura
bloco do nós dois (Trombando em jeitos)

não conto à frente
erradamente
não conto à frente
parte-se o cordão
fica o pingente
lindo lindo lindo
o que era sonho
já virou gente
e vem comigo
o eu sozinho
e ele na frente.

Alex Moura
Trilho (Ser das cidades)

Longe de ser
o dia ideal
a memória é turva.
Até o horizonte
existe uma curva.

A insinuação
é que não chegaremos.
Um pressentimento
deletério
faz jus ao mistério
que povoa o depois
da curva.

Lá existe
cheiro de pecado
e uma consciência suja.

Alex Moura
Sentinela (Ser das cidades)

Ah! Sentinela noite!
A responsabilidade dorme
em berços conjugais.
Os meus olhos, insistentes,
ignoram calendários.
Não há peso sobre minhas pálpebras,
e o decorrer da madrugada
será manchete de manhã.

Surgiu o alarde da noite:
"- Dorme que te faz bem!";
e as horas da insônia
serão folhas esmiuçadas.
Queria uma canção de ninar,
músicas de hélices de ventilador:
constantes, soníferas.

A garganta do mundo é escura
e inflama lá fora,
onde acontecem romances e crimes,
onde escorrem gozo e sangue.
Pronta para me adormecer,
me sinto cuspido da noite,
do seu afago,
refugiado na claridade da sala,
do ego, de mim.

Licores cospem sono,
usá-los é sábio,
ou pelo menos parece ser.
A noite passada já é história
e eu ainda a protagonizo.

Alex Moura