domingo, 17 de dezembro de 2017

Prisão perpétua

prende vigas
no pensamento
mobilidade de hábito
é coisa difícil
o mundo nunca girou
duas vezes iguais
a cada giro
todos têm um dia
a menos ou a mais

e a menos
que não percebamos
a transmutação do mundo
passará despercebida
preconceito
brincando de vida

mobilidade de hábito
é coisa difícil
e vivemos presos
em nossos corpos
e mentes
que deveriam
ser templos de criação
e transformamos em prisão
de atos sonhos e pensamentos.

Alex Moura

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

sujos (haja haja)

fuligem de hora
é o tempo que passa
poeira é aquilo
que fica no ar
flutuando
ocupando o espaço
que não seria

assenta nos móveis
porque espaço também cansa
e quando a flanela avança
pra recolher poeira
voa tempo pra tudo que é lado
e aquilo que chamamos de limpo
é só a vida começando de novo.

alex moura

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A hora é agora

os relógios atualmente
têm setenta e dois ponteiros
um para cada minuto
um para cada hora
qualquer momento é agora
o tempo que é imóvel
dá a impressão que demora

ponteiro atrás de ponteiro
carrossel brincando de instante
o momento não sabe se é agora
depois ou se é antes

e a humanidade
carente de alguém que
a explique a si mesma
acredita que
está sempre atrasada
na tentativa em vão
de cumprir tudo
não tem tempo pra nada

Alex Moura
Os prazos perdidos

só tenho
acesso ao descanso
quando o cansaço
se encarrega
de fechar-me os olhos

quando não
mato o galo
de madrugada
e começo uma festa
dentro de mim
regada a pensamento alto
e a uma ansiedade
que não tem mais fim

não que eu queira
que seja assim
é que descanso
quase sempre
não parece direito
mas privilégio

eu já sabia
lá nos tempos
de colégio
que tem galo
que não canta nunca

Alex Moura

domingo, 5 de novembro de 2017

ponto cego (trombando em jeitos)

antes a imagem
a voz o cheiro
as manias
os elogios e as críticas
tão cítricas quanto doce
tudo isso antes que fosse

antes o pisar
e antes do pisar
o andar
que cada um
anda de um jeito
antes ocupando espaço
a forma pensante e a extensa
antes a vida a fala o olhar
o toque a presença

agora o vácuo
o tempo
o espaço desocupado
abrigando silêncio
agora vazio antes extenso

vão-se os momentos
daquilo que era
ficam os números
daquilo que foi
e um punhado de documento
identidade óbito e nascimento
envelhecendo em pasta de cartolina

agora as fotos
os discos os livros
os rótulos
que empalideceram
na falência da esperança
o sonho a memória
o quase a lembrança

aquilo que foi
transmutado naquilo
que coube ter sido
o cumprido a urgência
a saudade a ausência
o partido.


alex moura

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

se todos os dias fossem hoje

surgiu um sei-lá-o-quê
não-sei-de-onde
bem no meio
das minhas sinapses
e agora eu tô de cabeça cheia

de neurônio,

indo e vindo
indo e vindo
trazendo pra mim
um humor de quem
tá sempre sorrindo.

nem fiz por merecer,
satisfação pra mim é tão raro
que parece merecimento,
sou ansioso a contento,
meu lugar comum é angústia,

mas não hoje,

porque eu tô
que não me aguento,
posso tudo,
faço o que eu quero,
tão certo de mim
que saí de casa
sem consultar espelho,
sem passar camisa
e de tênis vermelho,

hoje não tenho medo de nada,
tão confiante quanto pivete
correndo atrás de pipa avoada.

Alex Moura

homem invisível (trombando em jeitos)
quando permaneci em mim
pela última vez
demorei um mês e estava satisfeito
tinha alcançado a minha melhor versão
por que não?
poderia ser assim pra sempre
mas depois cansei
e comecei a tentar ser outros
não somente o que não fui
mas aquele que não sou
não ser eu
já era um bom negócio
como se de repente
eu ficasse fora de moda

ultrapassado na última estação
em ritmo de promoção
até acabar-me do estoque
minha desorganização
meus livros
meus discos
meus poemas
minha voz
meu corpo
minha memória
tudo gaveteado até desaparecer
com uma etiqueta na tranca
escrito: não ser!
fui vivendo assim
sem sequer ser eu
sendo aquilo que não sabia
sendo aquilo que não era
tu
nós
você
só a mim que não conseguia ser


porque ser talvez seja isso
tudo o que já fomos
mais o que não fomos
o que seremos e o que não seremos
num grande espaço chamado tempo
que vai acabando ao passo que somos.

Alex Moura

sábado, 21 de outubro de 2017

Duas vezes ao dia

queria cerveja,
me prescreveram
nimesulida,
coisas da vida,
mas essa porra
faz um mal
para o fígado
que é melhor
ficar só na cerveja
ou na nimesulida.

por Ninkasi
fico com as duas,
meu tornozelo
é a única parte de mim
dada a limites.

Alex Moura
Lugar comum

reclamei,
cuspindo gritos
que estilhaçavam
no sossego fajuto
dos transeuntes,
o meu inalienável
direito de ir e vir.

tinha gente
que acompanhava,
gente que me xingava
e gente que se segurava
pra não rir.

me aquietei,
baixei o tom,
engoli o grito
e digeri uma admissão
constrangedora
quando me dei conta
que há muito tempo
não vou ou venho
de lugar algum.

Alex Moura

sábado, 7 de outubro de 2017

O maior gerúndio do mundo

o compasso da espera,
cratera do tempo
em que acontecer é nada.
ócio improdutivo, ansioso,
olhar pro relógio de novo
e confirmar o ainda.

ficando, partindo,
ando
indo
sempre para o mesmo lugar,
conduzindo o que sou
pelo acostamento,
andando devagar
em pista de gente rápida.

ávida, a vida pede passagem,
pisca farol atrás de mim,
ronca motor,
potente,
de gente que por me ver andando
não desconfia da pane seca
que, obedecendo a inércia,
decretará o meu fim.

o vazio persiste,
também é presença
quando a ausência insiste.
acontecer continua gerúndio
mesmo quando não está
acontecendo mais nada.

Alex Moura
a cidade, dois pombos e um não

da janela
de um coletivo
arrisco um olhar
desinteressado
para o que está
acontecendo
do outro lado.

lá fora dois pombos
pousam juntos
na calçada
e bebem água
da mesma sarjeta,
parece que se conhecem:
chegaram juntos,
dividem água.

um voa pra longe,
o outro,
que chegou junto, não.
fica e bebe;
fica e bebe;
fica e bebe;
e voa para o outro lado.
eu, que sou gente,
julgo que voou
pro lado errado.


estavam juntos,
agora não.
com tanto céu,
com tanto pombo,
ainda se encontrarão?

Alex Moura
Pólen de gente
(para o Guilherme)

só se pode nascer
no início da primavera
uma vez por ano
e esperar mais um ano
para se completar,
exatamente,
mais uma primavera.

e você nasceu.

a primavera,
sempre protagonista,
não se acostumou que,
há doze anos,
a atenção do artista
não é só mais dela.

há quem conte a vida
através dos anos dos aniversários,
através da idade dos calendários,

mas você?

você conta a vida
através das flores
da primavera.

Alex Moura

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

raio-x (trombando em jeitos)

há um mundo
que acontece por dentro
onde ver não é imediato
para ver há de se esperar
ou entrar
nesse mundo
que acontece por dentro

a meia e o pé
o túnel e o trem
a faca e o peito
de alguém

há um mundo
que acontece por dentro
em que não se vê
o encoberto
mesmo que esteja perto

a veia e a agulha
o pão e o forno
o útero e o feto

a angústia do não sabido
a incerteza o presumido

o olho e o desejo
a língua e o ouvido
a boca e o medo
daquilo que ela guarda

o beijo ou a palavra.


Alex Moura
Calado

não falo
a maioria dos idiomas.
às vezes nem falo,
sem calo nas cordas vocais
me calo até nunca mais.

perdi minha deixa,
falaram por  mim
um sonoro não
quando eu queria
dizer sim.

cobraram minha fala,
reclamaram meu silêncio,
urgência de expressão
quando se decide
não emitir opinião
é sintoma de clichê
que nunca falo:

fico puto quando pisam
no meu calo.

Alex Moura

sábado, 9 de setembro de 2017

Já era

ininterrupto,
o fluxo é ininterrupto.
dia-a-dia, passo-a-passo,
o tempo é imóvel
quem passa é o espaço.

tudo o que é,
é a partir de um momento,
tudo começa, menos o tempo.

o tempo é eterno,
não concebe fim nem começo.
o tempo é, simplesmente é.
no início de tudo,
o tempo, que é antes de tudo,
já era.

Alex Moura
Prioridades

aquela urgência
da sua vida
que não é a da minha,
porque não precisa ser,
minha urgência é você.

não aquela pra ontem,
mas aquela pra quando,
pra quando der,
mesmo que forcemos pra dar,
porque, né? sei lá, vai que não dá
e a gente precise lançar mão
daquela nossa especialidade
de criar urgência da gente?

Alex Moura
Eu quero a sorte de um amor tranquilo

não posso ter por ti
um amor tranquilo
face a mão pesada
e usurpadora.
tenho por ti
um forte amor
em tempos de luta
e sacrifícios.
amar-te é fácil,
calar que é difícil!

não posso ter por ti
um amor tranquilo
em tempos de cólera,
golpe e desperdício.
tenho por ti
um amor dedicado,
tanta necessidade de você
quanto o capitalismo
de ser superado.

não passarão
e nem irão nos calar,
se a luta
não garante vitória
a vitória é lutar.

Alex Moura
Cinzas

o fluxo cinza,
natural e industrial,
interminável.
monóxido de carbono
tossidos de escapamentos
quentes, em simbiose
com brumas de frente fria.
quem diria
que não se saberia
onde termina a pressa
e começa o dia.

o contraste
entre a chaminé verde
o céu cinza,
a tristeza natural
e uma mecânica alegria.

Alex Moura
Take

corta!
de novo,
da mesma fala...
corta!
difícil acertar,
nunca fui bom ator
a ponto de interpretar
fantasia.
transparência
é a minha cara.

Alex Moura

sábado, 19 de agosto de 2017

O silêncio

um velho bloco de notas fechado
com suas páginas em branco
registrando todos os meus quases.
suas linhas denunciando
os silêncios de todos aqueles
que nunca fui.

potência que não virou ato
promessa quebrada
daquilo que sempre jurei,
sem confirmar
minha eternidade
julgava que fracassei,
mas foi justamente quando
me percebi não-eterno
que comecei a fazer poesia pra sempre.

Alex Moura
o chão é lava

quando apocalipses,
cataclismas e extinções
passam a ser menores do que
o iminente desfecho dos dias
em que demorei passos no mundo.

o que me importa
o fim da humanidade
ser coletiva ou individual?
pensando bem,
dividir o fim do mundo com todos
seria muito mais animador do que
ser pulverizado por uma corriqueira
cirrose, câncer ou infarto
trazidos fumegantes pelo rastro
de algum meteoro.

antes sucumbir à lava do que ao soro.

alex moura

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Da vontade

há vontades
involuntárias,
ninguém diz:
cresce cabelo,
mas ele cresce.
há vontades
que não dominamos,
ninguém diz:
bate coração,
mas ele bate.
movidos
por uma soberana
vontade.

há vontades
que dominamos,
há gosto
que preferimos,
princípio
da alteridade.

hoje,
um belo sol
de fim de tarde,
não precisei
me esforçar
pra ceder a vontade
de fugir das urgências
numa roda de choro
que a medida
em que se ia a tarde
o tom da viola,
o assobio da flauta,
e os meus de verdade,
assim como quem parte,
me fizeram chorar
sem querer.

Alex Moura
Cólera

não há sentido
no sentido
que tomamos na ponte
em busca de salvação,
como se cruzar a cidade
garantisse chegar
do outro lado são.

não há loucura
que fique pra trás
quando todos
os fantasmas estão,
senta com eles,
baixa a pressão,
pede a cerveja,
acende o cigarro,
quando tudo der errado
seja o erro e descubra
que nunca existiram
os prêmios,
portanto tanto faz
ganhar ou perder.

Alex Moura
Rua de pedestre

aquelas ruas
que fazem barulho,
paralelepípedo
faz som grave
pisoteado por
pneu de automóvel.
andá-las a pé,
feito bêbado
em corda bamba,
pisando no que é rua
e tropeçando no que não é.

entre suas veias,
lamas de uma chuva
ressecada,
um chinelo sem par
e uma flor nunca entregue.
vestígios de humanidade
contorcidos entre avisos
de sexo fácil
e papéis que compram ouro.

Alex Moura

sábado, 5 de agosto de 2017

Nervoso

o ferro no ferro
o dente no dente
a faísca e o nervo
provocados pelo
barulho estridente
e aquela agonia
que vai subindo
pela coluna da gente

comprime os olhos
e traz o desejo de fuga
do ferro
do dente
do barulho
e de tudo o mais
que povoa o ambiente
e a única corrente
que alcança um lugar
é aquela que provoca
o eriço da pele
e o arrepio da alma.⁠⁠⁠⁠

Alex Moura

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Cardápio

Liberdade tem gosto
de utopia,
difícil acertar
a receita,
existe uma
que é até popular,
mas carregam
muito na ilusão
e o povo come
achando que é bom.

Liberdade
é prato difícil,
receita pra mais
de dia:
tem que plantar,
cuidar, colher,
separar, marinar,
temperar, cozinhar,
perceber, ponderar,
contestar, criticar,
lutar, conquistar.

Liberdade é fruto
frágil,
demanda dedicação.
Isso que o povo
anda comendo,
quando come,
não é liberdade não.

Alex Moura
Diminuto

Preguiça do mesmo,
de estar atento
ao bom senso,
consenso forjado
por quem criou
o certo e o errado.

O antigo desejo
de viver pra sempre
transformado
no desejo de viver
até nunca mais.
Ir desvivendo,
da frente pra trás,
até acabar.
Jaz.

Alex Moura

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Não ser

há algum tempo
venho pensando
em desistir,
mas sem saber
pra onde ir
procrastino ações.

daí vou ficando,
sendo, existindo,
em um eterno gerúndio
na dialética entre o ser
e o não ser
somente demorando
- olha o gerúndio -
entre o quase e o quando
no melhor estilo
acontecendo nada.
não bastará desistir,
consciência é imune
à desistência, continua lá,
denunciando um sucesso fajuto.

é necessário desexistir,
encurtar as roupas,
esticar as rugas,
apagar memórias
e ir desvivendo as histórias
que fizeram de mim eu.
ir esquecendo,
não porque ficou pra trás
mas porque não há mais frente,
tipo um Marty McFly da gente.

desexistindo até não ser,
diminuindo no voltar-se pra trás,
até não ter mais como ver o que é,
sobrando manga no braço
e meia no pé.
caindo da própria altura
incapaz de manter-se ereto,
até sumir, não ser mais
e desexistir por compl


Alex Moura

terça-feira, 18 de julho de 2017

Estação

a cidade com frio
fica mais lenta,
a resistência do mundo
é maior quando venta
e há de se aplicar
mais força pra andar,
pra subir, pra descer,
pra viver o peso
gelado do ar.

o espaço frio
contra o tempo urgente
subverte aquilo
que tempo e espaço
são geralmente:
grande, frio,
pequeno e quente.

a cidade com frio
fica pra dentro,
com ruas para passar,
percurso, acesso,
espaço sem estadia.
portas de entrar,
bater e fechar,
trinco passado
deixando o espaço lá fora
e o tempo trancado.
cortinas vencendo janelas
que lembram
arbustos escuros
escondendo olhos acesos.

quandos de inverno
que a gente sente passar
sem se dar conta
da necessidade dos dias
com gosto de ainda.

Alex Moura

domingo, 16 de julho de 2017

Descendência

Só escrever
quando tiver
algo a dizer,
se não tiver,
sofrer.

Mas há a crença
de que sofrer
faz escrever,
se não fizer,
sofrer.

Genealogia do pensamento:
a posse, a escrita e o sofrimento.

Alex Moura

quinta-feira, 13 de julho de 2017

provocador (Trombando em jeitos)

não me lembro
do último dia
em que não senti
alguma dor
porque dor faz existir

dor é lembrança
por isso que a gente
quase não sente
quando criança

a gente
inconsciente
nem lembra
do corpo da gente
mas consciência
provoca dor
por isso que dói existir

ser no tempo é difícil
mas inconsciência
faz não existir

por isso demora
ter que ser toda hora

que saudade de não sentir.

Alex Moura
E se fosse

Não dá pra saber!
Se ela somente fosse
seria de ir ou ser?

Saber pra quê?
Que vá!
Que seja!
Indo ou sendo
para que não seja achada
quando alguém veja.
Que onde a quiserem
ela não esteja,

mas que seja, ou vá,
pra onde quiser,
pra onde for,
pra onde for,
de onde vier.

Alex Moura

domingo, 9 de julho de 2017

diariamente (Trombando em jeitos)

foi outro dia
que acordei desejando
que o dia fosse demorando
pra caber na sua conta
tudo o que é obrigação
e tudo que não

que nele coubesse
tudo o que desse vontade
e o que não desce
que fosse suficiente
principalmente
pra fazer o que não faria
tudo aquilo
que não cabe num dia

o tempo é imóvel
o que corre
são as nossas urgências
grand prix de afazeres
ultrapassando prazeres
lá no ponto futuro

e dormimos frustrados
não porque está tarde
o tempo é imóvel
mas porque tá escuro.

Alex Moura

sábado, 1 de julho de 2017

Sobre o natural

É bonito falar metafísica,
porque ela não se apresenta
imediatamente,
nem real e nem semanticamente,
há de se explicar
que é aquilo que o sentido
não sente.

Será então
que algum sentido mente
e não apresenta tudo
o que existe pra gente?

Se viver é sentir,
acho que vivo
metafisicamente.

Alex Moura
A outra face

Não tenho
entusiasmo pra perdões,
os sinto, mas não os peço,
confesso constrangimento
e vivo não perdoado
até quando aguento.
Quando não aguento
não acontece nada,
e a vida passa a ser nada
e demoramento.

O primeiro perdão
que não pedi
foi na década de setenta,
desde então vou
me demorando pela vida,
nem sei como ela aguenta.

Viver não é fácil, mas pedir perdão...
Tenta.

Alex Moura
sentença (Trombando em jeitos)

o poeta
coitado
já nasce
condenado
através
de um monte
de pressa
nele
deuses e demônios
se manifestam

cumprida a urgência
imprestável
desaparece

e o que lhe foi
explorado
é pra tentar salvar
os que prestam.

Alex Moura

quarta-feira, 21 de junho de 2017

fluxo universal (Trombando em jeitos)

ontem o dia
começou pelo fim
assim produzindo
dor e saudade
a vida virando
morte e aposta
na eternidade

ontem o dia
terminou pelo início
esse negócio
de celebrar a vida
é um vício
a morte virando
nascimento
palmas e festa
por mais uma
volta no tempo

do fim ao começo
ao fim ao começo
ao fim

ontem tudo isso
passou por mim
um dia do início
ao fim
até o dia em que
não irei

já perdi a conta
de quantos caixões ergui
e de quantos parabéns cantei.

Alex Moura

domingo, 4 de junho de 2017

Concretude (Ser das cidades)

Difícil enxergar
até onde a vista
alcança,
escadas empurram
vidas pro alto,
e a vista esbarra
numa outra vida,
que em outra,
que em outra...

E a vida passa a ser
um embolado de vidas
esbarradas,
lá no alto, observadas,
telhado, teto, cobertura,
que dedura
mais vidas empilhadas
nas paredes de prédios
cavernas,
tampando até onde a vista
alcança.

Horizonte
é coisa que se ouviu falar,
ficava lá do outro lado
do mar,
nunca mais vi,
só enxergo até onde a vista
alcança,
barrada num muro
entre lá e aqui.

Alex Moura
meu norte é o sul (Trombando em jeitos)

logo logo
mais uma noite se vai
assim como veio
equador
greenwich
será que essas linhas
cortam mesmo no meio?

chegará o dia em que
cansado de tanto mistério
algum deus por aí
fará primavera
nos dois hemisférios.

Alex Moura
Divagar

manhãs de domingo
têm ritmo de quase não,

        deve ser quando o mundo
        só gira por conta

                        daquela história de que
                         todo corpo em movimento...

Alex Moura
outonos (Trombando em jeitos)

na ironia
da falta de tempo
um hiato
momento estático
no meio das fibras
do calendário elástico

sido estado ido
submetendo o indo
estando sendo

no exato momento
em que só espero
sem nada acontecendo
assisto parado
ao gerúndio morrendo
junto à tv suja
e um pobre futebol

o neón brega piscando
na minha quadragésima
segunda volta no sol.

Alex Moura

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Patriarcado

Daquele dia
que você entrou
dando um pé na porta,
cuspindo barulho
e meia saia rasgada!

Perguntei: O que houve?
Você: "- Cala a boca!"!
Eu disse: Não calo!

Você me cuspiu,
quebrou um Casillero
e bebeu no gargalo!

Alex Moura
acabaram as fichas (Trombando em jeitos)

há de novo
aquele velho vulto
que só o espelho
reflete
de tempos em tempos
ele repete o voltar-se
pra dentro
minerar o que no centro
começa a desaparecer
busca o que está
deixando de ser

não sei se é o fim
ou um novo começo
mas de tanto que já
comecei
desaparecer parece
ser mais confortável
boicotar o devir
me fazer inviável
descansar o cansaço
das pernas

não me demoro muito
em quem sou
por hora
talvez só ser em si
é o que mais me convém
enquanto ainda não consegui
ser ninguém.

Alex Moura
coordenadas (Trombando em jeitos)

a luz ensimesmada
irradia tanto
que não permite
que eu veja num canto
de mim mesmo
aquele que erraria a esmo

se a luz é a regra
onde todos desfilam acertos
só num canto escuro
errar é a coisa certa
um foda-se
que aumenta autoestima
e liberta!

Alex Moura
Reprimido (Ser das cidades)

Pensei em reagir,
radicalmente,
subir num hidrante
e declamar poesia
até ser atingido
letalmente,
e morrer como um mártir,
com pimenta na venta
e um poema inútil nas mãos.

Alex Moura

quinta-feira, 20 de abril de 2017

guardados (Trombando em jeitos)

passei algum tempo
me preparando para
ser eu
não sabia bem
quem seria ou ainda
se seria
até que fui me forjando
alguém sendo eu
sem ser mais ninguém

como poderia ser
tudo o que era
sendo somente eu?
me dei conta que sou
todos os que me lembro
e todo aquele que me
esqueceu

gaveteei gente no tempo
baú de lembranças
daqueles que me viveram
e daquele que fui e já morreu.

Alex Moura
Desconhe ser (Reflito)

Rejeitar a certeza.
Temê-la!
Tal qual ao receio
da negativa à pergunta
no fim da aula:
- Alguma dúvida?

Certezas limitam,
têm muros altos,
nada lhes escapa
às fronteiras.
Empaca!

Mas a dúvida!
A dúvida liberta,
desperta, faz mover,
caminhar o caminho,
tatear, conhecer,
olhar para além do ver.

Ser uma coisa hoje
diferente do que amanhã
vai ser.

Alex Moura

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Edifício Menezes Cortes (Ser das cidades)

Um transpassar,
solados consumindo passos:
um pra lá, um pra cá.
Alguns seguram alça
de bolsa,
outros falam na ligação;
fitam a frente, fitam o chão.
Um zigue-zague humano
levando todas as suas
urgências.
Olham apenas suas
projeções,
não me veem, não me sabem
os vendo, como um deus,
observando um a um,
sabendo.
Ninguém sabe  que os vejo,
todos, a passos firmes
para a borda dos seus
destinos:
homens, mulheres, meninos.

Até que alguém me percebe,
por menos de um segundo
me fita os olhos,
e nesse ínfimo tempo
dois olhares começam
e acabam no mesmo lugar,
uma linha, de retina a retina,
segura dois sabedores de si,
até que se estanca.
Os destinos transbordam,
voltam às urgências
e fitando aquilo que sobra,
seguem.
Já não são mais deuses,
sabem somente de si,
resistem,
olho pra dentro de cada um
dos sete bilhões de mundos
que existem.

Alex Moura
Signos

Tudo o que prolifera
parece dotado de sentido.
Nada pode escapar, escorrer.
Mas sentidos são inatos,
universais?
Uns são menos?
Outros mais?
Tudo o que prolifera
a gente sequer espera,
atribui um sentido.
Nada pode não ser.

Naturalmente
sentidos são direcionados,
posteriores ao ser,
e não sendo
precisam, ao menos, parecer.

Alex Moura

cortina (Trombando em jeitos)

há olhares
que carregam peso
trazem consigo
uma memória
que disfarça a história
das suas faces

esses que não
se entregam no olhar
ocupados em disfarçar
aquilo que povoa a alma
geralmente transmitem
calma na extensão
dos seus limites

as primeiras impressões
não entregam as combustões
das suas fronteiras.

Alex Moura
bloco do nós dois (Trombando em jeitos)

não conto à frente
erradamente
não conto à frente
parte-se o cordão
fica o pingente
lindo lindo lindo
o que era sonho
já virou gente
e vem comigo
o eu sozinho
e ele na frente.

Alex Moura
Trilho (Ser das cidades)

Longe de ser
o dia ideal
a memória é turva.
Até o horizonte
existe uma curva.

A insinuação
é que não chegaremos.
Um pressentimento
deletério
faz jus ao mistério
que povoa o depois
da curva.

Lá existe
cheiro de pecado
e uma consciência suja.

Alex Moura
Sentinela (Ser das cidades)

Ah! Sentinela noite!
A responsabilidade dorme
em berços conjugais.
Os meus olhos, insistentes,
ignoram calendários.
Não há peso sobre minhas pálpebras,
e o decorrer da madrugada
será manchete de manhã.

Surgiu o alarde da noite:
"- Dorme que te faz bem!";
e as horas da insônia
serão folhas esmiuçadas.
Queria uma canção de ninar,
músicas de hélices de ventilador:
constantes, soníferas.

A garganta do mundo é escura
e inflama lá fora,
onde acontecem romances e crimes,
onde escorrem gozo e sangue.
Pronta para me adormecer,
me sinto cuspido da noite,
do seu afago,
refugiado na claridade da sala,
do ego, de mim.

Licores cospem sono,
usá-los é sábio,
ou pelo menos parece ser.
A noite passada já é história
e eu ainda a protagonizo.

Alex Moura

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

as grandes guerras (Trombando em jeitos)

travei combates
que não eram meus
e à medida em que
os travava
a minha força contava
para um dos lados
da peleja

por mais que eu veja
o campo cheio
do sangue de quem
fraqueja
não consigo
ou suporto
fitar os olhos do inimigo
por culpa vergonha
ou medo

Não me dou
por vencido
também não apedrejo
não me encorajo
e nem fraquejo

e corro pra me livrar
desse combate
que não é meu
e percebo que o inimigo
no meu encalço
sou eu.

Alex Moura

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

criaturas (Trombando em jeitos)

há um extrapeso
que povoa o que sou
que não sendo eu
só povoa
mas me almeja
seduz
e que tem a mim
como fim

transpassa-me
dança ciranda
à minha volta
mais ameaça
do que escolta
essa criatura
nas minhas costas

bizarra bela
perto de mim
tanto dela
trazendo na mão
às vezes pão
às vezes vela
essa criatura
com sede do meu
sangue
querendo que eu
seja ela

o peso não pesa
somente uma
mas várias delas
que aquele 
único que fui
percebeu que aquelas criaturas
são todas que ainda não fui
insistentemente querendo ser eu.

Alex Moura

sábado, 7 de janeiro de 2017

desordem (Trombando em jeitos)

a imagem do espelho
vence o espaço
e chega a tempo
à imagem de fora

o que há nesse espaço
e nesse tempo
entre a imagem de fora
e a de dentro
são todas as possibilidades
de mim
são todos os meus nãos
no paralelo entre
os meus dois sins

com tanta
possibilidade pra ver
transitando
entre o ser e o não-ser
quebrei o espelho
e voou eu pra tudo que é lado.

Alex Moura
Carregando... (Reflito)

A expectativa
é o primeiro motor
da minha consciência.
Julgo
que nunca saciei.
Com o fato consumado
esperei.
Sempre
no aguardo
pra que tudo acontecesse,
ainda que tudo
já estivesse se formando.
Quando enfim
ainda era quando.

Na
promessa da explosão
eu mesmo me sabotei,
sou pavio molhado,
quase queimado,
que eu mesmo molhei.

Mas euforia
eu tenho tanta
que ninguém julga
que nunca me saciei.
Na esperança
de que aconteça tudo
vou sendo mais
do que precisava ser,
e acabo falindo
antes que algo
possa acontecer.

Alex Moura
Cinismo (Ser das cidades)

Em busca de reclusão
todas as atenções ofendem.
Quando se quer desprezado
todos os nóbeis caem
em seu colo.
Cabeça de avestruz
dentro do solo.
Por que é tão difícil
ficar sozinho numa cidade?

Entre gritos e sussurros
procuro o silêncio e não acho.
Não quero que falem baixo,
quero que não falem. Calem.
Só eu estou calado,
potencial depressivo
alimentando depressão
no lugar errado,
sentado na mesa de bar
há um otimismo para cada um
no penúltimo dia do ano.

Meu ledo engano:
sexta à noite, um livro na mesa,
copo cheio da mesma cerveja,
e a esperança de um silêncio
que nunca virá.

Alex Moura