quinta-feira, 16 de julho de 2020

entre o toc e a covid (as várias noites de um mesmo dia)

difícil manter
as toalhas intactas,
preservar espelhos
de interruptor,
difícil interromper
a dor
num intervalo
que permaneçam
pensamentos bons.

difícil atribuir
valor aos pensamentos
quando o limite
do universo são
as paredes dos apartamentos.

difícil transitar
entre o toc e a covid,
implorar alprazolam
e aturar a cloroquina
carente de sol e serotonina.

difícil preparar
um café da manhã
sem saber se hoje
é ontem ou amanhã,
ou se é os dois,
ou se é nenhum.
dormimos as várias noites
de um mesmo dia.

há tempos não confio
nos compostos
de água sanitária
pra livrar legumes e frutas
do perigo da morte,
mas as bananas
não se descascam sozinhas.

com sorte
sobreviveremos mais um dia.


Alex Moura

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